Para repensar a prática

Qual é a melhor estratégia para aulas a distância para crianças dos anos iniciais?

Refletimos sobre as formas de atuação do educador para atender as necessidades educacionais de crianças em fase de alfabetização

Ilustração: Humaaans e Freepik (adaptado por Patrick Cassimiro)

Estamos vivendo em meio à expansão de uma pandemia que afeta todos os países do globo. Um momento sem precedentes na história que atinge em cheio a convivência em comunidade. Os impactos deste período de paralisação da vida cotidiana ainda não são sabidos. Para a escola, as perguntas são muitas e se avolumam com o passar de cada dia de quarentena com crianças distantes do ambiente escolar. Como fica, em especial, a aprendizagem dos pequenos que estão nos anos iniciais do Ensino Fundamental, em fase de alfabetização? 

Para refletir sobre o tema, consultamos Maria José Nóbrega, assessora pedagógica da área de Língua Portuguesa e colaboradora dos planos de aula de Nova Escola. Para a educadora, mais do que pensar apenas em um possível vácuo de aprendizagem, é importante olhar para o cenário geral, repleto de situações bastante complexas e até dramáticas. De um lado, famílias confinadas e pais administrando uma rotina com trabalho remoto, acompanhamento da vida escolar dos filhos e atividades domésticas. Do outro, pais desempregados, que já tinham condições de vida ruins, com moradia e alimentação precárias, agravadas pela falta atual de recursos. 

“Vivemos um momento de corrosão social. A escola e o educador precisam zelar pela saúde mental das famílias”, afirma. Ela lembra que as alternativas para este momento devem passar uma por análise de cenários distintos - do volume de tarefas despachadas virtualmente até o tipo de apoio possível para famílias que não têm acesso constante à internet.  

Logo abaixo, você confere algumas sugestões de atuação, indicadas por Maria José, para apoiar as crianças pequenas do Ensino Fundamental 1 e suas famílias nesta fase em que o contato entre educador e criança só é possível virtualmente.

1. Adaptações possíveis dos conteúdos programados

A criança não está na escola, por isso tanto o conteúdo quanto a forma e a duração das aulas precisam ser reavaliados. Focar nas habilidades específicas, imprescindíveis para aquele ano, é um bom norte para o educador. As demais habilidades previstas, que incluem desenvolvimento ao longo de mais anos dentro do ciclo, podem ser deixadas um pouco de lado neste momento. É importante não descuidar das frentes principais de cada disciplina – como a leitura, por exemplo -, mas sem ficar apegado ao que já havia sido planejado para interações presenciais com o aluno. Selecionamos alguns planos de aulas com sugestão de atividades de alfabetização e dematemática (ao final da reportagem, você encontra a lista de planos).

Sendo o contato virtual o único possível, a escola precisa pensar em como os alunos se relacionarão com o conteúdo adaptado. A realização de tarefas, por exemplo, continuará a ser pedida em letra cursiva ou passará a ser digitada? Apesar de nativos digitais, as crianças pequenas podem estar mais habituadas a funcionalidades com toque de tela do que com digitar letras no teclado. Isso sem contar que as habilidades motoras exigidas para cada uma dessas ações são bastante diferentes entre si. Além da escrita, a leitura nesta fase também pode ser trabalhada com apoio das ferramentas de áudio, por meio da gravação de leitura em voz alta ou por vídeo-chamadas individuais ou em grupo.

2. Recursos e ferramentas usados

Com relação à forma das aulas, há muitas possibilidades, como interações assíncronas (vídeo-aulas gravadas) ou síncronas (encontros virtuais com videochamadas).  Há ainda as ferramentas para compartilhamento de trabalhos em grupo ou espaços de fórum de tira-dúvidas, por exemplo. Importante trabalhar com os formatos já adotados pela escola previamente. Se não havia esse tipo de interação virtual antes, a equipe pedagógica precisa pensar nessas escolhas até com os pais, para entender limitações técnicas, inclusive. Uma saída é pensar em aulas com poucos recursos, que não exigem que pais tenham impressora, scanner, por exemplo. Um celular com câmera e acesso à internet pode ser suficientes para promover as interações.

3. Duração das aulas virtuais

É importante estabelecer uma rotina com as crianças pequenas, mas as aulas não precisam necessariamente serem diárias. O tempo de 50 minutos da aula na escola é preenchido e sustentado pelas interações presenciais. Já uma aula virtual desperta atenção constante de 15 a 20 minutos, em média. No atual contexto, as aulas virtuais podem ser encaradas como uma espécie de afago, de carinho com os alunos, que foram abruptamente apartados dos educadores e dos demais colegas de classe. É um momento de encontro que pode também distensionar o ambiente doméstico e melhorar o relacionamento entre os membros da família do aluno.

4. Mediação dos pais

Na rotina anterior à pandemia, os pais costumavam fazer um acompanhamento mais a distância da educação dos filhos. Agora, em casa, as crianças têm demandado mais atenção, inclusive pedagógica. Mas os pais não são educadores. Não tem formação específica para atender esta demanda. Eles não devem ser vistos como professores substitutos, mas poderão colaborar com a aprendizagem virtual no papel de mediadores do processo. Serão apoiadores nas horas de manusear as ferramentas digitais e de registrar e enviar atividades feitas pelos alunos e até reportar dificuldades específicas com o professor.

5. Expectativas do educador

Todos foram pegos de surpresa com a determinação da quarentena em muitos estados e fechamento das escolas por período indeterminado. Nenhuma escola teve, de fato, oportunidade de se estruturar para este momento. Aos poucos, as equipes pedagógicas vão encontrando alternativas, mas tudo faz parte de um momento absolutamente novo para todos. Neste contexto, é ilusório imaginar que despachar um grande volume de vídeos-aulas vai garantir o cumprimento do cronograma de conteúdos programados antes da pandemia se instalar.  A aprendizagem, neste momento, deve valorizar o que mais importa: as principais habilidades para cada ano e as relações entre professor e aluno e entre os colegas de classe. 



10 sugestões de atividades de alfabetização e de matemática

Convidamos as educadoras para indicar planos de aulas voltados para alfabetização e matemática, com foco nos anos iniciais. Confira a seguir: 

ALFABETIZAÇÃO
Indicações de Maria José Nóbrega

Canções e cantigas (módulo com 15 aulas)
Poemas, trovas e cantigas (módulo com 15 aulas)

Comentário da especialista: Os gêneros selecionados para os 1º e 2º anos (campo artístico-literário) possibilitam explorar o ritmo, a rima, as repetições estão muito presentes nos jogos verbais da tradição popular. Tais recursos permitirão a memorização de um número enorme de trovas, adivinhas, trava-língua, parlendas, canções que foram transmitidas de geração a geração. Por serem facilmente memorizáveis, muitos desses gêneros podem contribuir para que as crianças compreendam as relações que as letras mantêm com os sons, aprendendo a ajustar o falado ao escrito. 

Diário (módulo com 15 aulas)
Carta pessoal e e-mail (módulo com 15 aulas)

Comentário da especialista: Os gêneros selecionados para os  3º e 4º anos são da esfera cotidiana e permitem dar vasão aos sentimentos das crianças nesses tempos de confinamento. No primeiro caso, escrever sobre suas vivências dia a dia; no segundo, interagir com colegas e professores.

Reportagem (módulo com 15 aulas)

Comentário da especialista: O gênero sugerido para o 5º ano pertence ao campo da vida pública permitindo mediar matérias que circulam na esfera jornalística.


MATEMÁTICA

Indicações de Luciana Tenuta

O piquenique da direita e esquerda

Trilha das posições - em cima e embaixo, dentro e fora e longe e perto

Comentário da especialista: Estes planos podem ser adaptados pelas famílias para o trabalho com alunos de 1º, 2º e 3º anos. A partir deles, os familiares podem propor várias outras situações para o trabalho com localização usando situações do dia a dia das crianças.

Jogando de 100 em 100 e de 10 em 10

Comentário da especialista: Este plano pode ser proposto para alunos a partir do 2º ano. Para os alunos de 1º ano, sugiro o jogo com as fichas 0 a 9 que está proposto no Aquecimento. Por se tratar de um jogo, é propício para envolver vários membros da família neste momento de confinamento. Sugiro alertar as famílias para a necessidade de discussão das questões propostas.

Usando a calculadora

Comentário da especialista: Este plano pode ser desenvolvido com alunos a partir do 2º ano. Se for adaptado para números de dois algarismos, pode ser realizado com alunos do 1º ano. As atividades aqui propostas podem ser realizadas com a calculadora do celular e toda a família pode participar.

Calculando mentalmente a adição e a subtração

Comentário da especialista: Este plano pode ser desenvolvido com alunos a partir do 3º ano. Como envolve estratégias de cálculo, provavelmente envolverá os familiares em boas discussões. Fazendo adaptações para números menores, pode ser trabalhado também com alunos de 2º ano.



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