Para refletir

Projeto de vida: como aproveitar a BNCC e apoiar os alunos

Diante do contexto incerto causado pela covid-19, conheça caminhos para estimular suas turmas a apostarem na Educação

Ilustração abstrata de um construção próxima a vários livros em escala gigante.
Ilustração: Julia Coppa/NOVA ESCOLA

Seja no ensino remoto, híbrido ou presencial, o objetivo central de trabalhar a competência geral da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) Trabalho e Projeto de vidaao longo da formação escolar é fazer com que os estudos façam sentido para os alunos. Crianças, e especialmente os adolescentes, precisam ter repertório para gerar um diálogo pertinente entre o que é apresentado na escola e seus próprios anseios presentes e futuros. Auxiliar os estudantes na construção desses objetivos também é parte do trabalho docente e dar sentido à escola se torna ainda mais relevante no atual cenário, marcado pelas incertezas causadas pela covid-19.

Após quase um ano de pandemia, as incertezas acumulam-se em vez de se dissiparem. Mesmo com boas notícias, como o início da vacinação, o futuro ainda é nebuloso e as escolas seguem mergulhadas em indefinições sobre como será o ano letivo.

Neste cenário, trabalhar com projetos de vida de maneira intencional com as turmas do 6º ao 9º ano pode apresentar aos educadores caminhos para manter os alunos engajados em seus estudos.

“O momento pede que mantenhamos as esperanças fortalecidas no futuro, apostando que este pode ser melhor do que o que temos hoje”, diz Hanna Danza, doutora em Psicologia e Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e docente do curso de especialização em Projetos de Vida no Instituto Singularidades. Neste contexto, explica, o trabalho com os projetos de vida é um mecanismo para ativar os desejos, sonhos e aspirações sobre a construção de um mundo que seja melhor para todos. 

Desigualdade e evasão

A pandemia aprofundou as desigualdades e acentuou a vulnerabilidade de quem já, por vezes, estava à margem das oportunidades futuras. Um reflexo evidente disso, ainda não medido em números, mas já observado por especialistas, é a evasão escolar.

Para a especialista, apesar de existirem muitas causas para a evasão, há evidências de que o trabalho com o projeto de vida aprofunda e amplia o sentido da escola, aproximando os estudantes das temáticas e dos desafios que eles estão enfrentando em suas vidas reais e criando condições para que desenvolvam as habilidades necessárias para construir o futuro que almejam para si e, em termos mais amplos, para a sociedade na qual desejam pertencer.

Paulo Andrade, diretor de Educação do Instituto Iungo, confirma que há pesquisas que mostram que uma das principais razões da evasão escolar, especialmente na passagem do Fundamental para o Médio, é a falta de sentido da escola. É nessa etapa que o estudante passa por uma transição de interesses, começa a ter mais autonomia e passa a questionar os próprios gostos e interesses. Muitas vezes, há a demanda por apoio financeiro por parte das famílias - o que se acirra com a pandemia. “Se a escola não ajuda esse estudante a construir sentido para aquilo que ele vive e aprende na escola a chance de ele se desgarrar é grande. Então trabalhar com projeto de vida é, antes de tudo, fazer com que esse jovem se conheça, se perceba como parte de um contexto”, explica Paulo. 

A especialista em educação Simone André vê uma “crise de aprendizagem” que atinge todo o mundo, mas, sobretudo, os países mais pobres e os estudantes vulneráveis nos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. “Convivemos com sinais claros de que esses estudantes não estão vendo sentido na escola e na continuidade dos estudos. Além disso, eles não se veem reconhecidos em suas singularidades e diversidades no ambiente escolar, ou construindo competências para viver, trabalhar e seguir aprendendo ao longo da vida”, constata. 

“Trocando em miúdos, é preciso evitar que os estudantes abandonem a escola. Isso não é nada trivial”, afirma Simone. Para a educadora, é fundamental que os professores conheçam cada vez melhor quem são seus estudantes, onde vivem, como são suas famílias, que sentido veem na escola e como eles aprendem. Só assim é possível ensiná-los a aprender de forma mais significativa, colaborativa e autônoma. Para isso, continua Simone, os professores precisam dedicar-se intencionalmente a desenvolver a capacidade de os estudantes aprenderem com autonomia. 

“Para desenvolver essa capacidade, os professores precisam de espaço curricular e formação para convidar os estudantes à participação autêntica, compartilhar com eles as decisões e os problemas a serem solucionados na escola, fazê-los perceber seus potenciais, suas qualidades, suas paixões, sua capacidade infinita de aprender, movidos pelo seu entusiasmo, esforço, foco e curiosidade”, conclui.

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Na prática: Como trabalhar a competência Projeto de Vida no Fundamental 2 


Com base na conversa com os três educadores ouvidos por esta reportagem, NOVA ESCOLA elaborou dicas práticas para que professores trabalhem a competência Projeto de Vida com o objetivo de engajar os alunos aos estudos no atual contexto, ajudando-os a se organizarem e a construírem seus próprios objetivos, fazendo com que a escola dialogue com o almejado pelos adolescentes. 

Escute quais são os desafios de organização dos estudantes: Estimule que eles se escutem e explore quais são os "ladrões do tempo" e os "vilões" que afastam os alunos dos estudos em casa e na escola e as formas de combatê-los.

Compartilhe os objetivos de aprendizagem a cada etapa, assim como as entregas/trabalhos/avaliações que precisam fazer ao longo de cada etapa.

Converse com os estudantes sobre o que você espera na organização dos estudos para cada um e provoque-os a construírem metas de estudos, trabalhando em conjunto com três ou quatro colegas.

Convide os alunos a reverem suas metas de forma ambiciosa e considerando os vilões e ladrões de tempo que os atrapalham, sempre incentivando o apoio entre os colegas.

Combine com os alunos que cada um será responsável pelo seu aprendizado/estudo, dos colegas com quem se comprometeram e serão avaliados por esse resultado colaborativo.

Promova atividades de autoconhecimento. É importante que o estudante, com a sua orientação, vivencie situações de reflexão sobre "quem sou eu", e que ele se pergunte: "O que é valor para mim?" "O que eu gosto de fazer? "O que para mim é difícil?" "O que me mobiliza e me paralisa?" "De que família eu faço parte e quais são os valores dessa família?" O objetivo é que ele possa vivenciar situações de reflexão individual e diálogo com os colegas para se conhecer e se construir. 

Divida a turma em duplas ou trios para que listem as situações que foram muito desafiadoras ao longo de um período e o que aprenderam de mais importante. Com base nas listas, promova a discussão e busque a troca entre os colegas. Às vezes, o aprendizado de um pode ajudar na dificuldade do outro. Quanto mais partilha de desafios e conquistas, mais eles se fortalecem para lidar com os desafios.

Provoque a reflexão sobre com quem os alunos contam. Diante das atuais adversidades, é importante que eles tenham nítida sua rede de apoio, isto é, com quem eles podem contar. 

Ao mesmo tempo, eles devem se responsabilizar por quem pode contar com eles. É fundamental que os alunos compreendam que diante da situação desafiadora é possível colaborar uns com os outros, apoiar e ser apoiado por quem está à volta.

Promova o exercício de aprendizado com a experiência do outro. É possível, por exemplo, criar uma página no Facebook para entender como outras pessoas no mundo, do Brasil, da cidade ou até no bairro têm vivenciado e superado, ou não, as mesmas dificuldades vividas por eles.

Aplique o exercício de projeção, indagando os alunos: “O que é essencial ser construído?” “O que é possível fazer para chegar lá?” “Considerando o contexto, as adversidades, as possibilidades, o que pode ajudar ou dificultar nesse percurso?” “Como é que eu quero sair lá na frente?” “Como eu me vejo daqui a um ano?” “O que eu quero aprender?” “O que quero fazer diferente?” “O que quero construir?” Quanto mais reflexão e construção, com apoio dos colegas nessas projeções, mais se torna possível estruturar caminhos para chegar lá. 

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