História

De 1500 a 2021: como as pandemias impactam as populações indígenas brasileiras

Saiba mais sobre o que a história nos conta sobre as doenças contagiosas e os povos originários e confira dicas de professores indígenas para abordar a temática em suas aulas

Ilustração abstrata de homem indígena com vírus e bactérias ao redor.
Ilustração: Nathalia Takeyama/NOVA ESCOLA

“A história das relações entre índios e brancos no Brasil ensina que as armas de conquista foram alguns apetites e ideias, um equipamento mais eficiente de ação sobre a natureza, bacilos e vírus – sobretudo vírus”. 

A frase foi escrita por um antropólogo após presenciar a morte de vários indígenas por causa de um vírus. O então jovem Darcy Ribeiro (1922-1997), registrou a observação em 1950, no livro Índios e a Civilização. 

As palavras soam dolorosamente atuais, em especial diante dos desafios causados pela pandemia do coronavírus e o seu impacto nas populações indígenas, os povos originários do Brasil. No início do século XVI, estima-se que milhões de indígenas viviam no atual território brasileiro. Atualmente, são 800 mil, de acordo com o Censo 2010 do IBGE.

Da chegada dos europeus na América até hoje, doenças como a varíola, o sarampo, a cólera, a gripe/influenza e mais recentemente a covid-19, ceifam vidas e agravam a vulnerabilidade das populações. 

O médico sanitarista do departamento de Medicina Preventiva da Unifesp, Douglas Rodrigues, que trabalha há mais de 50 anos com saúde indígena, explica que historicamente os vírus foram os principais responsáveis pela extinção de distintas etnias e erradicação de povos originários, “além das armas e da cobiça”. 

“Todas as doenças contagiosas trazidas pelos colonizadores eram desconhecidas dos povos que aqui viviam. Produziram uma série de epidemias que em 150 anos dizimaram 90% da população originária”, explica. 

Com o coronavírus não foi diferente: o primeiro caso confirmado da Covid-19 registrado no Brasil entre os povos indígenas foi de uma jovem de 20 anos, Agente Indígena de Saúde (AIS) do povo Kokama, no município de Santo Antônio do Içá, no Amazonas. Ela foi contaminada por um médico não-indígena que veio de São Paulo. Segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) morreram 1.030 indígenas de 163 povos de diferentes etnias, apenas em 2020. 

Vulnerabilidade social impulsiona as doenças 

Embora as 305 etnias reconhecidas pelo IBGE estejam pulverizadas pelos estados brasileiros, existe um denominador comum entre elas: a alta vulnerabilidade social. Segundo uma pesquisa feita pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e publicada pela revista científica The Lancet, a população mais pobre do Brasil tem duas vezes mais chances de ser infectada. No caso de indígenas, o número é quatro vezes mais do que camadas não-indígenas mais abastadas. “Nossas análises sugerem que o risco excessivo de indivíduos indígenas é amplamente explicado pela região geográfica, tamanho da família e status socioeconômico", consta no relatório do estudo.

Rodrigues pontua quatro fatores que facilitam a propagação dos vírus e mortalidade entre os indígenas: difícil acesso a serviços de saúde e unidades de terapia intensiva, falta de saneamento básico, modo de viver coletivo e propagação de fake news, estas provenientes de aplicativos de mensagem e agentes externos, como funcionários públicos e missionários. “É importante ter claro que os índios não são mais suscetíveis por questões biológicas. Seus corpos são exatamente como os demais corpos de outras etnias. São imunologicamente competentes. Sua vulnerabilidade é social”, pontua o médico. 

Não só as dificuldades sociais foram evidenciadas na pandemia, como também trouxeram à tona questões sensíveis à luta indígena, como a invasão de território. “A crise evidenciou a precariedade das vidas indígenas em alguns contextos em que eles não possuem terras suficientes para sua sobrevivência - são pequenas ou foram invadidas”, explica Dominique Tilkin Gallois, professora de antropologia da USP. 

“Os povos que possuem terras intactas, puderam se isolar, manter distancia e evitar a contaminação. Isso deu um reforço ao valor de seus modos de vida – nessas terras, possuem condições de alimentação farta e diversificada - e provaram que são capazes de viver bem longe das cidades”, completou. “Independente da etnia, da pandemia, do governo nós, indígenas, estamos sempre resistindo”, completou Ytanajé Coelho Cardoso, professor e escritor da etnia Munduruku.

Como trabalhar a temática dos povos indígenas no Ensino Fundamental 2

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) sugere aos professores “Analisar os diferentes impactos da conquista europeia da América para as populações ameríndias e identificar as formas de resistência”. 

Tania Milene Nugoli Moraes, professora e antropóloga que trabalha na Coordenadoria de Politicas específicas para a Educação da Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso do Sul, explica que é papel do professor questionar os estudantes como eles acreditam que foi o impacto da chegada de um povo com costumes tão diferentes aos povos originários. 

“Tendo realizado essa contextualização inicial [da pluralidade de etnias] e tendo em pauta as impressões prévias dos estudantes, cabe trazer em sala de aula o momento real que vivemos”, diz. “O professor faz papel de pesquisador, trazendo dados atuais sobre o número da população indígena e a proporção de mortes, onde pode-se observar que a doença acaba por atingir de forma mais intensa a população indígena”. 

O primeiro registro de ‘cataclismo biológico', expressão utilizada pelo antropólogo Henry F. Dobyns para descrever o efeito das epidemias trazidas pelos invasores europeus nas populações ameríndias, foi feito em 1554 aqui no Brasil. 

Segundo Instituto Sócio Ambiental (ISA) seria impossível categorizar todas as pandemias e doenças que assolaram as populações indígenas, mas algumas podem ser trabalhadas em sala de aula, como a varíola e o sarampo que dizimaram aldeias jesuítas na Bahia em 1562 e 1564, a cólera que matou metade da população Funil-Ô em Pernambuco em 1861, a gripe que quase extinguiu os Kaingang em São Paulo em 1912, a coqueluche e bronco-pneumonia que reduziram o povo de Umutia a 15 pessoas no Mato Grosso em 1945 e até mais recentemente temos a epidemia da varicela, doença evitável por vacina, atingiu 80% da população araweté, em 2000. 

No site do Instituto é possível ver uma linha do tempo com doenças e pandemias que assolaram as populações indígenas. 

Outro ponto que o professor deve tocar é em promover um debate mostrando a discriminação tão presente nos dias de hoje. “É importante fazer o estudante refletir sobre o motivo das comunidades estarem no grupo prioritário de vacinação, retomando assim o ponto da chegada dos invasores”, diz Tania. A professora sugere trazer comentários de portais de notícias para trabalhar em sala de aula em formato de debate, mostrando como a visão eurocêntrica ainda está enraizada na sociedade.

A videorreportagem abaixo da agência de notícias Amazônia Real, por exemplo, traz o depoimento de Vanda Witoto, técnica de enfermagem na linha de frente da covid-19 no Amazonas e primeira mulher indígena vacinada no Brasil, que sofreu ataques e discurso de ódio no início de 2021.

Já Ytanajé sugere trabalhar a oralidade como forma de resistência em sala de aula. “Os povos indígenas que viviam por aqui não reconheciam a leitura e a escrita da mesma forma que os europeus. Os saberes eram passados pelos anciães, de geração a geração. A oralidade foi a nossa maior resistência”, explica. 

Abaixo, você pode conferir uma videorreportagem sobre os indígenas Aruká e suas filhas Borehá, Maitá e Mandeí, últimos sobreviventes da etnia Juma, povo de filiação linguística Tupi-Guarani denominado Kagwahiva, em alta vulnerabilidade social e cultural. A videorreportagem da Amazônia Real é de 2015.

A antropóloga Domique Tilkin Gallois não só concorda com o professor, como também relembra o papel dos anciões nas tradicionais orais e o perigo da doença para o grupo de risco. “Os idosos – como no mundo todo – foram os mais atingidos pela pandemia. Isso pode prejudicar a transmissão das tradições culturais”, explica. “A educação tradicional indígena é oral. As novas tecnologias servem justamente de passar da oralidade a escrita e servir pras futuras gerações. Uma ideia é pensar de forma coletiva como podemos usar as ferramentas: a oralidade dos povos indígenas e as tecnologias que a pandemia nos obrigou a aprender”, completa Ytanajé. 

Para ir além da BNCC, Tania sugere incitar os estudantes a observarem a população indígena como protagonista do seu processo histórico. “Para ir além o professor precisa também abrir-se para a temática, discutir populações indígenas no contexto nacional requer leitura, estudo e uso de competências socioemocionais como a abertura ao novo”, conclui. “O indígena só vai deixar de estar à margem da sociedade quando for protagonista da sua própria história. E isso começa na escola”, completa Ytanajé.


SAIBA MAIS 

PLANOS DE AULA e conteúdos sobre povos indígenas:
A inserção dos povos indígenas na construção de seus direitos

A relação dos povos indígenas da américa com a terra antes da colonização

Como usar a Arte para dar visibilidade aos povos indígenas

Os povos indígenas brasileiros: Ontem e Hoje

REFERÊNCIAS: Livros e sites para saber ainda mais:
Índios e a Civilização, Darcy Ribeiro. Editora (ANO)

Povo verdadeiro, Angela Pappiani. Editora Ytorê (2009):
Amazônia Real: O impacto da pandemia nos povos indígenas, 2021

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