Ciências

Medicina, astronomia e agricultura: as tecnologias desenvolvidas pelos povos indígenas nas suas aulas

Entender mais sobre as tecnologias e inovações criadas pelos povos originários ajuda a romper com estereótipos e ampliar o repertório dos alunos

Ilustração de objetos e tecnologias indígenas.
Ilustração: Nathalia Takeyama/NOVA ESCOLA

Há pouco mais de uma década, a lei 11.645/08 se tornou um marco na educação por regulamentar a obrigatoriedade do Ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Indígena em todos os níveis de ensino. 

A tarefa de incluir essas temáticas nas aulas do Ensino Fundamental carrega desafios e responsabilidades, além de exigir muito estudo e reflexão. “Por conta de um protocolo, muitos professores acabam reforçando estereótipos que podem vir a se transformar em preconceitos no futuro”, explica Jap Veronica, etnia Oro Mon e coordenadora do núcleo de educação escolar indígena de Guajará Mirim, em Rondônia.

Reprodução da Lei nº 11.645/08

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) orienta os professores a trabalharem os impactos da conquista europeia no território brasileiro e as formas de resistência desses povos. 

“Professores indígenas e não-indígenas precisam tirar o foco da parte que estes povos foram presos e escravizados e enfatizar as questões sociais, culturais, econômicas e políticas que envolvem os indígenas. Claro que é preciso abordar o episódio de escravidão, mas também trabalhar a transformação, os direitos fundamentais e a defesa da dignidade humana. São questões fundamentais que movem o mundo”, diz Laucídio Correa da Costa, da etnia Guató e coordenador pedagógico da Escola Estadual Indígena João Quirino de Carvalho Toghopana, no Mato Grosso. 

Exaltar as tecnologias e inovações que os povos originários desenvolveram e que foram absorvidas pelas culturas não-indígenas é uma alternativa de ensinar ciências naturais e também quebrar estereótipos. 

A “criação” da Amazônia 

Por muito tempo, acreditou-se que regiões como a Amazônia, no norte do Brasil, viviam um “vazio demográfico” mesmo antes da colonização europeia: os indígenas eram poucos, viviam em locais isolados, de forma nômade e com pouca tecnologia ou recursos.

Hoje, evidências da arqueologia e de pesquisadores traçam um panorama bem diferente: as florestas e paisagens brasileiras acolhiam grandes grupos populacionais, havia trocas comerciais intensas entre os povos, estradas e um manejo sofisticado dos recursos naturais. A própria floresta amazônica como conhecemos hoje, de acordo com pesquisas atuais, foi moldada pelos povos que lá viviam há milhares de anos, que selecionaram espécies frutíferas e as cultivavam em locais próximos aos assentamentos. 

Janice Cristine Thiél, professora titular de literatura da PUC-PR e autora do livro dedicado à formação de professores, ‘Pele silenciosa, pele sonora: a literatura indígena em destaque’, inclusive chama atenção para o uso de um termo específico. “A palavra tecnologia pode ser interpretada de diferentes maneiras e envolve interpretações baseadas em visões culturais. Muitas vezes, alguns objetos ou técnicas são privilegiados, em detrimento de outros considerados ‘primitivos’. Contudo, todos os conhecimentos que promovem o bem-estar e o desenvolvimento das sociedades devem ser considerados”, diz. 

Pedimos para que os professores Jap Veronica, Laucídio Correa da Costa e Janice Cristine Thiél nos ajudassem com sugestões de atividades e abordagens para tratar o tema com alunos do Fundamental 2. Você encontra sugestões para o Fundamental 1 aqui.

Confira:

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A importância do contato com povos indígenas da #VidaReal 


Se há algum consenso entre os povos indígenas quando o assunto é educação, é a importância do contato de alunos com líderes e representantes de povos originários. 

“Muitas etnias têm representantes preparados para receber alunos e tirar dúvidas, mostrar a comunidade, contar a sua história, sua tradição. Os indígenas precisam contar a sua própria história, não os livros que falem por eles. As pessoas que os portugueses descreveram, da época de Pedro Álvares Cabral, não existem mais, por isso é importante ver como é o indígena atualmente”, diz Jap.

“Claro que o ideal é o contato presencial, mas também pode ser virtual. Por causa da pandemia, muitos indígenas estão dominando essa tecnologia e podem responder melhor do que ninguém sobre a sua própria história. Isso inclusive é uma forma de quebrar estereótipos”, completa.

Ponto de Atenção: Independente do contato ser em campo ou presencial é interessante o professor trabalhar quais as peculiaridades da etnia do indígena que interagirá com os alunos, quais as tradições que resistiram à chegada dos europeus e quais as ferramentas típicas daquele povo. É essencial que o professor saiba quais os saberes que este indígena é detentor: se são ervas, as músicas, os mitos, etc. 

Explore ingredientes como a mandioca 

Da mesma forma que a mandioca é bastante versátil na cozinha, ela também é versátil na sala de aula. Por ser um tubérculo de fácil cultivo - não é atacada por insetos e fungos (ou seja, não necessita agrotóxico) e tem grande rendimento por quantidade de terreno - é base alimentar de muitas etnias em todo o Brasil. Aqui o professor pode introduzir ao aluno os diferentes tipos de solo e as vantagens do cultivo. 

Etnias como Desana e Tukano, por exemplo, a manuseiam de diversas formas. Eles têm oito tipos de beiju, seis tipos de farinha, cinco tipos de bebida não fermentada, nove tipos de bebida fermentada e dois pratos feitos com as folhas. “Se o professor tiver essa facilidade, pode mostrar como preparar pratos indígenas e não-indígenas, já que também foi incluído na gastronomia não-indígena”, sugere Laucídio.

Pode-se também propor uma discussão sobre quais alimentos do cotidiano do aluno tem a mandioca como ingrediente e como ela é chamada na região. Isso pode levar o professor a fazer uma brincadeira com a classe para encontrarem outras palavras de origem indígena que já foram incorporadas no cotidiano do aluno.  

Lembre-se da sabedoria das curas e das plantas tradicionais 

“Cada povo indígena utiliza as plantas conforme sua tradição, orientação dos pajés e com base em conhecimentos ancestrais”, explica Janice. 

Para manter a tradição viva, a coordenadora Jap Veronica explica que dedicou um dia da semana para que as turmas de 6º a 9º ano estudassem os conhecimentos tradicionais da mata. “Toda sexta-feira levávamos os alunos para conhecerem as plantas medicinais, comestíveis e outras propriedades, como artes. Os alunos fotografavam e filmavam”, explica. 

“Também é possível explicar que cada etnia tinha um sistema de colheita, plantio e armazenamento de acordo com os fenômenos naturais”, completa Laucídio. “Pode-se trabalhar também os valores calóricos, e nutrientes e vitaminas e a importância do consumo saudável.” 

Eles sugerem inserir as ervas medicinais na realidade dos alunos. Uma atividade é reunir a turma em pequenos grupos e pedir para que apresentassem as ervas e também levem os ingredientes para compartilhar na sala de aula. 

+ 4 Sugestões de tema: 

1. Alimentação: Seleção das espécies de mandioca próprias para o consumo e seu processamento, que envolve o uso de instrumentos adequados.

2. Arquitetura: Construção de casas que possam abrigar um número variado de pessoas, com ventilação e luz suficientes, onde todos os espaços são respeitados e a manutenção é tarefa de todos os membros da comunidade.

3. Astronomia: Interpretação dos movimentos celestes, indicando o momento certo para realizar as atividades do cotidiano, como colher, caçar ou realizar rituais.

4. Construção de instrumentos musicais, para rituais e situações diferentes: instrumentos como chocalho, flauta, trompete, tambor e zunidor são feitos utilizando elementos diversos encontrados na natureza.

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