INFÂNCIA

Como começar a falar sobre Meio Ambiente com as crianças?

Os Campos de Experiência da BNCC, a educomunicação, o uso de brincadeiras e o convite para treinar o olhar são ferramentas para dar os primeiros passos na exploração da natureza com crianças

Crianças de educação infantil e professora, sentados na sala conversando sobre meio ambiente enquanto uma das crianças aponta para araras que estão voando no ambiente.
Ilustração: Nathalia Takeyama/NOVA ESCOLA

Meio Ambiente é assunto para criança? Na faixa da Educação Infantil, um conceito muito interessante de se trabalhar são os Campos de Experiência, que estão na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), lembra Sueli Furlan. 

Significa permitir vivências significativas nas quais a criança possa explorar a natureza por meio do lúdico, da brincadeira. “Uma questão importante para crianças pequenas é o medo da natureza, do diferente, de ir no jardim e tocar em alguns animais ou plantas. Ter essa experiência com objetos, texturas da natureza, um pouco na linha das brincadeiras propostas por Joseph Cornell, é um bom caminho”, sugere. Cornell foi um dos pioneiros na educação ambiental, e no livro Brincar e Aprender com a Natureza: Guia de atividades infantis traz uma proposta de progressão nesses campos de experiência, explica a professora. 

Nessa faixa em que as crianças estão em processo de alfabetização, o trabalho por meio de projetos também funciona bem, lembra Sueli Furlan, citando mais uma vez uma experiência que concorreu ao Professor Nota 10, desta vez de uma professora de Santa Catarina que fez um Observatório do Manguezal. 

“Era uma coisa simples, um deck de onde as crianças podiam observar o mangue sem pisarem na lama, e verem a ação dos caranguejos. Nessa fase o mais importante é treinar o olhar, elas aprenderem a observar”, destaca Sueli. 

Outra possibilidade é trabalhar na linha da educomunicação, ou seja, dando às crianças o direito de se comunicarem. Ela exemplifica com um projeto realizado por Carmen Lucia Gattaz, que pertence ao grupo de Educomunicação da ECA-USP, com crianças indígenas de uma comunidade guarani localizada na Grande São Paulo, no qual elas narravam histórias, como num podcast. 

“Todas histórias tinham o imaginário ambiental muito forte porque para os índios a natureza está integrada à vida deles. É um excelente exemplo do que se pode fazer numa escola, principalmente nesse ambiente virtual. Pode ser uma saída o professor pedir às crianças que façam pequenos clipes ou narrativas, de um ou dois minutos.

Para ela, o mais importante é mostrar que natureza e cultura são inseparáveis. “Eu acho que é no Fundamental 1 que começa a acontecer essa distinção entre natureza e cultura. Por causa disso, escolhi dar o exemplo do podcast com as crianças indígenas, porque eles não fazem essa separação. Pegar os mitos indígenas de criação para estudar é uma boa estratégia, porque eles têm esse conceito de que a natureza não está separada de nós”, analisa.

E recomenda, para esse trabalho, um livro do escritor uruguaio Eduardo Galeano, Os Nascimentos (LP&M, 2010). Trata-se de um estudo sobre mitos de criação de diferentes povos indígenas da América Latina: “Todos os relatos são muito bonitos, no sentido de mostrar quem eu sou a partir da natureza. Uma ação interessante em sala seria, por exemplo, pedir que as crianças contem sobre a sua origem a partir da natureza. É um jeito de convidar as crianças a pensarem que elas também são natureza”, recomenda. “A paisagem é um produto cultural, é preciso não esquecer isso. Ou, como dizia o geógrafo Milton Santos, natureza é aquela transformada pelo trabalho, mas informada pela cultura. Não há nada ‘fora da natureza’. Tudo vem da natureza, desde essa luminária que veio da China até o papel que estou usando. E é isso que precisa mudar no nosso olhar, sair desse pensamento de que nós estamos aqui e a natureza está lá”, sintetiza Sueli Furlan. Para ela, se as crianças da Educação Infantil entenderem que essa divisão entre natureza e homem é artificial, terá sido um grande primeiro passo.

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