1967-2020

Em suas aulas, Saulo Basílio guardava e transmitia a cultura do povo indígena terena

Em Taunay/Ipegue, Mato Grosso do Sul, as histórias antigas dos antepassados ganhavam vida quando contadas pela voz doce e serena do professor

“Saulo passava adiante as histórias que nosso avô, Antônio Basílio, o ancião, contava”, diz Nilza Francisco, sua irmã, também professora. Ilustração: Marcela Tamayo/NOVA ESCOLA

No meio da aldeia Bananal, na Terra Indígena Taunay/Ipegue, em Mato Grosso do Sul, há uma construção azul e branca em cujo frontispício se lê "1944". É quando foi erguido o primeiro centro de ensino da região, hoje Escola Municipal Indígena Polo General Rondon. Ali, as 317 crianças aprendem, claro, sobre o grandiloquente engenheiro que “desbravou” o Cerrado com telégrafos e linhas férreas, “modernizando” o Brasil no início do século 20. Mas aprendem também a arte, a língua e a cultura terena, inspiradas por uma geração de mestres indígenas formados tanto na pedagogia da cidade quanto nos saberes da aldeia. Um deles era o professor Saulo Basílio Francisco.

“Saulo passava adiante as histórias que nosso avô, Antônio Basílio, o ancião, que morreu com mais de 100 anos, contava”, diz Nilza Francisco, sua irmã, também professora e atual diretora da escola. O pai-do-mato, a mãe-d’água, todas as histórias antigas dos antepassados terena ganhavam vida na sala de aula quando contadas pela voz doce e serena de Saulo. “As crianças adoravam ouvir suas histórias”, relembra Nilza. Os olhinhos arregalados seguiam os passos do vituka, o bem-te-vi que viu num buraco a origem do povo terena, assim como do sapo que os fez falar e rir na lenda originária, mas também de onças e cobras-d’água.  

Como ensinar a arte, a língua, a cultura de uma etnia diante de uma modernidade galopante que chega na velocidade da internet e do WhatsApp? “Com simplicidade”, responde Nilza. Coquinhos, tampas, madeiras, gravetos, folhas - o que ele achava, catava e levava para a sala de aula como forma de ensinar. E a sala também ganhava a aldeia: por que se prender ao quadro-negro quando a cultura vive nas ruas, no mato, nas casas? “A dança da ema, que tem sete passos e cada um deles, um significado”, era um exemplo. Saulo ensinava ainda cestaria, marcenaria e pintura tradicionais. “Uma aula de Saulo nunca era parada. Era cheia de emoção.” 

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Quem via Saulo gesticulando em meio às crianças, senhor de si, porém, não poderia imaginar quanta dificuldade houve em seu caminho. Nascido na aldeia, o mais velho de cinco irmãos, cresceu trabalhando na roça, plantando mandioca, feijão-verde, maxixe - o roçado vinha dos avós, os pais continuaram a labuta. Com Saulo não seria diferente. A mãe vendia os produtos na cidade, para vestir e educar os filhos, mas era pouco. Os pais não tinham condições de pagar pelos estudos. Deixou, então, a escola e foi trabalhar. Passou anos cortando cana.

Mesmo assim, nunca era visto de semblante fechado. “Vivia de cabeça erguida, sobretudo quando falava dos projetos com as crianças”, comenta a irmã Marileide. “Sem exagero, ele tinha sempre um sorriso estampado no rosto.” Foi o que o fez voltar a estudar, na 8ª série (atual 9º ano), terminar o Ensino Médio, cursar o Magistério e começar a lecionar na escola. Depois, faria ainda pedagogia em Aquidauana. “Faltavam professores indígenas para ensinar nossa língua, então ele foi e se formou”, conta Nilza. “Não foi pouco o sofrimento para terminar os estudos, às vezes não tinha dinheiro nem para 'xerocar' os materiais”, reflete Marileide. Não havia transporte corrente entre a aldeia e a cidade. “Foi com muita, muita luta que ele terminou os estudos.” 

Desde então, duas gerações cresceram aprendendo a cultura terena com o professor Saulo. “Eu me lembro até hoje daquelas primeiras aulas da língua materna terena”, diz Nayara Venâncio, sua aluna quando criança. Acabou virando colega de profissão mais de uma década depois. Quatro de seus cinco filhos tiveram aula com Saulo. “Ele foi um pioneiro e um espelho: pioneiro porque foi dos primeiros a fazer a pedagogia superior indígena e a incentivar o progresso do ensino da nossa cultura na aldeia. E espelho porque, quando virei professora e colega de Saulo, ele era exemplo de professor a seguir.”

Saulo tocava flauta, pife e tambor nas danças de meninas e meninos nos festejos mais importantes da aldeia. E pregava na igreja que frequentava e da qual o pai fora pastor. Símbolo da complexidade de uma aldeia nos dias de hoje, Saulo era, ao mesmo tempo, cristão e defensor da cultura ancestral. Casado, tinha três filhos e 53 anos, quando morreu de covid-19. “As mães choraram quando souberam”, diz Nayara. Sua falta ficou atestada pela faixa bilíngue, em português e terena, fixada na cerca em torno da escola azul e branca.


O texto acima integra a edição especial de Nova Escola Box "Vida, saudade e legado: os educadores que partiram em 2020". Durante o mês de outubro, vamos contar a história de dez grandes educadores e funcionários que inspiraram alunos, colegas e cidades ao longo de suas vidas, interrompidas, infelizmente, pela covid-19. É nossa forma de dizer "muito obrigado" pelas lições deixadas dentro e fora de sala de aula e lembrar aos que seguem a vocação de lecionar o poder transformador da Educação para tantos brasileiros, muitos deles em luto por perdas humanas inestimáveis. 

Em breve no Box ""Vida, saudade e legado: os educadores que partiram em 2020"

15/10 - “Gosto do que faço, amo meus alunos”: a paixão da professora Maria Aparecida pela escola

Confira o texto que já publicamos

08/10 - Aguinaldo Marinho, o professor que levava a alma encantadora das ruas a seus alunos

Créditos deste Box

Reportagem: Willian Vieira
Produção: Marcelo Valadares
Edição: Miguel Martins e Pedro Annunciato

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