PARA REPENSAR A PRÁTICA

“Se não houver participação de todos, não é PPP”: A gestão democrática na Educação Infantil

Além dos professores, funcionários e famílias, os pequenos também podem influenciar nas decisões da escola e ajudar a construir ou revisar o projeto político-pedagógico

Ilustração de uma reunião pedagógica acontecendo sobre ambiente abstrato.
Ilustração: Estúdio Kiwi/NOVA ESCOLA

Na EMEF Professora Adolfina J. M. Diefenthäler, em Novo Hamburgo (RS), surgiu um conflito. As crianças da Educação Infantil estavam bravas porque no horário do recreio as crianças mais velhas, do Fundamental 1, tomavam conta do balanço do parquinho. Essa situação poderia ter diferentes desfechos, de acordo com a maneira com que cada escola escuta seus estudantes e lida com disputas por espaço. Mas o PPP da EMEF de Novo Hamburgo é claro: a gestão democrática sempre deve prevalecer. Assim, foram feitas reuniões com as crianças de ambas as etapas que, contando com a mediação de professores, debateram o tema e conseguiram chegar a um acordo sobre a divisão do balanço.

Essa pequena história serve para mostrar que, construindo uma cultura de gestão democrática, é possível envolver a todos, desde os pequenos, nas decisões da escola. E o mesmo vale para a revisão do PPP. “Se não houver participação de todos, não é PPP, porque então o documento não serve de nada”, decreta Priscila Arce, diretora da EMEI Borba Gato, em São Paulo (SP). 

Para permitir que as crianças também sejam contempladas por esse documento, é possível criar algumas estratégias para garantir participação, como definir representantes de turma e para promover a escuta de todos. 

“Elas não vão participar como os adultos, mas é possível ouvir suas demandas a partir de rodas de conversas e de brincadeiras, em que elas expressem o que acham bom e ruim na escola”, explica Joice Lamb, coordenadora pedagógica da Adolfina Diefenthäler e consultora desta Caixa. Joice recomenda perguntar o que as crianças querem, mas também estimular reflexões delas sobre como podem colaborar para concretizar esse desejo. E para as crianças bem pequenas e os bebês, é preciso que os educadores estejam atentos às necessidades expressas no dia a dia e por outras linguagens além da verbal. 

Já a EMEIEF Boa Vista do Sul, em Marataízes (ES), encontrou outro caminho. Duas vezes por ano, os pequenos participam de reuniões escolares com suas famílias. Divididos por turmas, para formar grupos menores, eles debatem o PPP, e adultos e crianças são convidados a opinar. “Explicamos que é o documento que rege a escola, e que ele é aberto para, a qualquer momento, ser alterado”, conta Marlucia Brandão, diretora da escola.

A escuta das famílias, aliás, costuma ser motivo de preocupação entre os gestores. E podem ser vários os motivos para uma baixa adesão nas reuniões. Para Joice Lamb, nunca é, porém, por não valorizarem a escola. “Se os pais não participam, é porque eles não compreendem a importância da presença deles, ou que sua opinião vai fazer diferença, porque muitas vezes não faz mesmo. Muitos não são ouvidos”, diz a coordenadora pedagógica. 

Assim, vale o esforço de, repetidas vezes, chamar as famílias para tomarem decisões juntamente com a escola, para além de revisar o PPP. “Se eles vão sendo consultados para várias coisas, e percebem que são ouvidos, quando chegar a hora de debater o documento, eles também vão responder mais”, afirma Joice.

E um processo similar pode acontecer com os professores e funcionários, de não levar a sério o PPP por não acreditarem que suas opiniões importam e possam ser materializadas. Para reverter essa situação, a EMEIEF Boa Vista do Sul aposta em reuniões individuais ou com representantes de equipes para ouvir a todos.

“Quando começa o ano, escutamos as equipes sobre o que elas desejam e planejam para o ano e conversamos sobre como a gestão pode apoiá-las. Depois, alinhavamos todos esses pontos no PPP, para que ele fique com a cara de todo mundo”, relata Marlucia.

Antes de concluir o documento oficial, a escola deixa seu PPP em aberto por um mês para sugestões e alterações. Quando finalizado, cópias são disponibilizadas pela instituição, para que todos possam acessá-lo e tenham conhecimento do que as outras equipes e educadores estão desenvolvendo.

Para Marlucia, a principal vantagem desse processo participativo de revisão do PPP é a autonomia que os professores ganham para tomar decisões no dia a dia e sobre sua prática pedagógica. “Quando fecha a porta da sala, um educador tem o poder de promover transformações ou de não fazer nada. Mas quando se tem uma gestão democrática, que deposita confiança no professor, e quando ele pode construir uma prática que faça sentido para ele, em uma escola que o apoia, é muito difícil que um educador não faça bom trabalho”, constata a gestora.

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