Para repensar a escola

“O professor não pode viver em um inferno emocional sozinho”

Marilda Lipp, diretora-presidente do Centro Psicológico do Controle do Stress, fala sobre ansiedade entre os docentes e alerta: é preciso procurar ajuda

Por Flavia Nogueira

"O professor está vivenciando uma época de grande dificuldade", aponta a especialista em estresse, Marilda Lipp. Foto: Alexandre Battibugli / Nova Escola

A ansiedade e o estresse não são problemas restritos ao magistério, mas são muito prevalentes entre os profissionais de Educação, afirma Marilda Lipp, cientista, psicóloga e diretora fundadora do Centro Psicológico de Controle do Stress. Autora de vários livros sobre o tema, em entrevista à NOVA ESCOLA BOX, ela alerta: professoras e professores não podem viver em um inferno emocional sozinhos. Saber pedir ajuda é, portanto, essencial. 

“A ansiedade tem uma base real, não é uma coisa fictícia, e o professor não está imaginando problemas. Ele está vivenciando uma época de grande dificuldade”, afirma. 

De acordo com a psicóloga, as professoras encontram no cotidiano situações em que precisam impor disciplina em sala de aula, mas, ao mesmo tempo, é preciso equilibrar as demandas por liberdade por parte dos alunos e a questão da falta de imposição de limites por parte de alguns pais. E isso sem falar nas mudanças rápidas de valores da sociedade, a evolução tecnológica e as questões financeiras (como o salário baixo, por exemplo) e de infraestrutura das escolas. Saiba mais na entrevista abaixo: 

Nova Escola Box: Como lidar com situações estressantes que vão aparecer inevitavelmente em sala de aula?

Marilda Lipp: Há dois tipos de medidas que o professor pode tomar. A primeira é de base fisiológica: o exercício de respiração profunda e relaxamento. Há uma correspondência perfeita entre a mente e o corpo neste aspecto de tensão. Então, a primeira coisa que pode fazer para reduzir o mal-estar é uma respiração profunda, várias vezes, que envolva todo o pulmão, não só a parte superior. A respiração ofegante, aquela superficial, não possibilita o envio de oxigênio para a cérebro em proporções adequadas. Consequentemente, o professor tem uma ansiedade maior. Isso já faz com que o professor se acalme um pouquinho, mas não é suficiente.

Além da parte fisiológica, existe o fator cognitivo, que é o professor ter um pensamento que leve a reações mais adequadas, mais positivas. Em vez de dizer para si “que coisa horrível, esse aluno não me obedece, não sei o que fazer, não queria estar aqui”, é preciso reformular o pensamento e pensar “essa criança precisa de ajuda, eu sei que estou nervosa, por causa disso estou ansiosa, mas estou aqui é para educar, é um estágio do desenvolvimento dessa criança e vou atuar para melhorar a situação”.

NEBOX: É como uma virada de chave cognitiva?

ML: Exatamente. Mudar o pensamento é uma coisa muito importante para o professor fazer. Se ele tentar dar uma guinada nesse pensamento negativo e, ao mesmo tempo, puder fazer os exercícios de respiração profunda, vai melhorar muito mesmo em sala de aula.

NEBOX: E fora da sala de aula? Como reconhecer o problema e pedir ajuda?

ML: É muito importante identificar que seu próprio recurso já não é suficiente, que tem de ter ajuda. Obviamente, ter ansiedade de vez em quando é perfeitamente normal. Mas, se está tendo ansiedade todo dia, se é uma coisa persistente, se está perdendo o entusiasmo pelo que está acontecendo ao redor, pela função dele, precisaria pensar em procurar discutir esse assunto com um profissional da área, um psicólogo. Além disso, pode ver se [a professora ou o professor] tem taquicardia, tensão muscular levando a dores lombares, pois isso é muito comum. Também dificuldades com a fala. Às vezes a ansiedade só se manifesta na dificuldade no falar, que é uma ferramenta do professor. Nessas horas, tem de procurar ajuda. Não pode viver em um inferno emocional sozinho.

Hoje, há várias clínicas que até atendem com um valor bem módico. Porque, convenhamos, o professor não vai poder pagar uma terapia caríssima. Mas ele pode procurar, por exemplo, a clínica-escola, muitas faculdades oferecem um trabalho de conscientização social e realmente tentam cobrar um valor mínimo do professor. Aqui mesmo, na região de Campinas [interior de São Paulo], no meu instituto, nós temos um programa de responsabilidade social, atendemos não só professores, mas qualquer pessoa da comunidade que não possa pagar a terapia, que pague um mínimo, às vezes uns R$ 20 por consulta. Existem essas opções, mas o professor tem de procurar. Ele não pode se entregar ao desespero e não fazer nada.

NEBOX: Existe algum tipo de progressão dos problemas? Algo que começa como estresse, pode se agravar e se transformar em algo mais grave, burnout, ansiedade ou até depressão?

ML: Começa com o estresse. A ansiedade desenvolve-se como parte do quadro de estresse. E o burnout é mais ligado ao trabalho mesmo, à profissão. A pessoa pode ter burnout no trabalho e uma vida razoavelmente boa fora do ambiente de trabalho.

NEBOX: Nem sempre está relacionado a todos esses problemas, então?

ML: Não, nem sempre. Em geral, o burnout é um problema do trabalho e se mantém no trabalho. Às vezes as pessoas falam “está com burnout, mas está saindo, indo a festas, passeando…” Sim, porque o burnout é do trabalho, não tem a ver com a vida pessoal. Mas é importante entender e respeitar os seus sentimentos e os seus sintomas, porque eu noto que muitos professores que estão com dores lombares, dores de cabeça, estão depressivos e continuam em frente sem prestar atenção no que estão sentindo. E nós temos de respeitar o corpo e a mente.

NEBOX: Se o professor prefere ignorar os sinais de alerta, o que a família deve prestar atenção? Existe algum sinal que as pessoas que convivem com o professor conseguem notar e, caso afirmativo, é melhor tentar fazer alguma coisa ou isso pode piorar a situação?

ML: É muito bom e muito útil quando a família pode dar apoio. Se a família nota que a pessoa tem mudança de comportamento, mudança de humor, uma pessoa que vibrava, que estava alegre, participava da vida e agora está muito para baixo, não quer sair muito, não quer conversar, está com aquela aparência de tristeza no rosto, isso são sinais de que a pessoa não está bem. E aí é bom a família dar apoio, conversar, ver de onde está vindo a angústia dessa pessoa, verificar se pode oferecer algum tipo de divertimento, sair, passear, conversar. Às vezes, só de falar a pessoa já melhora.

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