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Repertório Cultural: a competência da BNCC no trabalho de uma escola com alunos indígenas

Ao investir na formação de professores, o gestor Zeno Ely abre caminho para que estudantes da etnia mbyá-guarani vivenciem e compartilhem suas tradições em São Miguel das Missões (RS)

Ilustração de criança segurando objeto étnico sobre fundo azul.
Ilustração: Julia Coppa/NOVA ESCOLA

Há três anos, após um estudo sobre a possibilidade de ampliar a oferta de ensino na EEIEF Igineo Romeu Ko’eju, o coordenador pedagógico Zeno Alcides Kaipper Ely deparou-se com uma realidade perturbadora: os alunos não queriam estudar ali. O motivo? Eles não acreditavam na qualidade da Educação oferecida pela pequena escola indígena localizada na zona rural de São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul. 

O levantamento era para saber se os estudantes voltariam à escola caso a unidade passasse a atender os anos finais do Ensino Fundamental (até então, a unidade só oferecia Educação Infantil e anos iniciais do Fundamental). Para surpresa do gestor, boa parte das respostas foi não. “Eles achavam que não teriam um bom ensino porque tiveram uma experiência negativa com professores que não tinham formação”, conta Zeno, que há cinco anos desempenha a função de gestor e foi um dos 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 de 2020. 

Foi então que o educador se reuniu com os outros dois professores da comunidade para promover formações, construir o planejamento de 2017 e desenvolver metodologias que dialogassem com o cotidiano da aldeia. No ano seguinte, novos professores chegaram para atender turmas do 6º ao 9º ano e a história da escola começou a mudar de verdade. 

Com cinco professores não indígenas e quatro indígenas, a equipe passou a ter formações regulares, com muita troca de saberes e experiências entre ambos os grupos. Essa iniciativa começou a refletir nos estudantes, que passaram a sentir a diferença. Para se ter ideia, naquele ano, cerca de 20 alunos que deixaram a escola em 2017 voltaram a estudar. 

Hoje, mais engajados no processo de aprendizagem, 68 alunos da etnia mbyá-guarani vivenciam a riqueza da própria cultura atrelada a conhecimentos que são compartilhados com estudantes da zona urbana, ampliando, assim, o repertório cultural também entre eles. 

De acordo com o coordenador Zeno, o repertório cultural é uma competência que ocorre naturalmente dentro da escola indígena, especialmente porque tanto alunos quanto professores preservam sua língua materna. Além disso, há uma parceria com a Secretaria de Educação do município para a realização de eventos em que todos os estudantes da região possam interagir uns com os outros, como torneios esportivos e apresentações culturais. 

Trocas com alunos não indígenas

Depois das mudanças promovidas pela gestão, a escola também tornou-se uma referência na região, segundo Zeno, e é visitada por professores e alunos interessados em conhecer a proposta pedagógica. “Em uma dessas visitas, a aluna de outra escola perguntou para a professora que acompanhava a turma onde estavam os indígenas, mas sem perceber a aluna já estava no meio deles. Isso nos mostra o quanto essa troca vem acontecendo de forma natural na nossa comunidade”, conta o educador.

“Do ponto de vista do repertório cultural, esse projeto foi desenvolvido com inteligência e sensibilidade”, afirma Maria Paula Zurawski, doutora em Educação pela USP, formadora do Coletivo Curió e selecionadora do Prêmio Educador Nota 10. 

A especialista destaca que o projeto é atual e aborda pertencimento, autoestima, reconhecimento e recuperação de valores de culturas que coexistem na contemporaneidade. Por exemplo, ao promover o encontro de docentes indígenas e não indígenas, optando por este contato e respeitando os saberes e a potência de cada professor, Zeno está atuando na possibilidade de agregar e ampliar saberes, considerando que não existem culturas “superiores” ou “inferiores”, segundo Maria Paula. “Como lembra o professor Roberto Da Matta: 'Todas as formas culturais de uma sociedade são equivalentes e, em geral, aprofundam algum aspecto importante que nunca poderá ser esgotado completamente por uma outra forma cultural'. Por isso, todos sempre têm o que aprender uns com os outros.”

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