Para repensar a prática II

Autoconhecimento e autocuidado: como colocar em prática essa competência geral da BNCC no Ensino Fundamental

Conhecer-se, apreciar-se e cuidar da saúde física e emocional é um dos pilares do documento norteador da Educação Básica. Saiba como levar essa mensagem para a rotina escolar e para suas aulas

Ilustração de três alunos preocupados com suas mudanças corporais relacionadas ao crescimento.
Ilustração: Clara Gastelois/NOVA ESCOLA

Quando uma criança ou adolescente entra na escola, traz consigo todos os sentimentos e pensamentos que o acompanham naquele momento e que vão se mesclando às atividades pedagógicas e às relações cotidianas. Os quase dois anos de pandemia fragilizaram a saúde mental de muitos estudantes, que já sofrem os impactos de crescer em meio à cultura das redes sociais. Em meio ao aumento da depressão e da ansiedade, apoiar os alunos a desenvolverem a autoestima e o autocuidado é ainda mais necessário.

Além disso, os períodos de transição para a adolescência e a juventude em si são marcados por transformações corporais, crises de identidade e necessidade de pertencimento. “Entender a escola como espaço de socialização é um elemento crucial”, diz Luiz Gustavo Rufino, professor na rede pública de Paulínia (SP).

A oitava competência da BNCC, Autoconhecimento e Autocuidado, trata justamente disso. Ela orienta que os estudantes precisam aprender a “conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas”.

Essa é uma das coisas mais importantes que a escola pode fazer, porque ela é composta de pessoas, que têm suas alegrias, dores, vergonhas e fazem parte de um contexto que também as impacta, muitas vezes enfrentando racismo e miséria. Não dá para separar a aprendizagem disso tudo”, pontua Luiz Gustavo.

Autoestima na prática

A autoestima dos estudantes também é fundamental para que eles possam, em primeiro lugar, acreditar que são capazes de aprender, para depois poderem trilhar os caminhos da aprendizagem com qualidade.

Transpor essa compreensão para a prática, contudo, é um desafio que muitos professores e escolas enfrentam. Não é tarefa simples lidar com um estudante em plena crise de ansiedade ou encontrar caminhos para abordar as inseguranças que a turma demonstra. 

Outro risco que se corre é a tendência a escolarizar esses temas, como se fosse possível uma aula sobre autoestima, por exemplo. No lugar disso, é preciso que a escola favoreça vivências e a construção de relações respeitosas e solidárias, inclusive com os adultos. Afinal, os exemplos também ensinam.

“Temos excelentes iniciativas em todo o país, mas não temos um currículo, políticas públicas ou um compilado de boas práticas que inspirem ou mostrem como desenvolver essa competência”, avalia Luiz Augusto.

A orientação dos especialistas, portanto, é de que antes de começar a desenvolver esse trabalho com os estudantes, os professores possam ter acesso a formações, tempo e espaço para trocas entre os pares e contar com o apoio da gestão, a fim de promover projetos e atividades transdisciplinares e permanentes.

“O trabalho com autocuidado, autoestima e valorização da diversidade precisa fazer parte do Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola e ser tomado como um objetivo coletivo, para que isso verdadeiramente faça parte da identidade e da cultura da escola”, reforça Fábio Augusto Machado, coordenador pedagógico na rede pública municipal de São Paulo.

Além do apoio dos pares e da gestão, o professor pode contar com os estudantes como seus aliados na missão de encontrar formas de desenvolver a competência 8 da BNCC. “É só assim que o projeto pode fazer sentido e o próprio ato de ouvir atentamente e construir junto contribui com a melhora da autoestima dos estudantes”, explica Fábio. Uma possibilidade para construir essa escuta ativa é aplicar nas turmas um questionário que permita uma sondagem qualificada dos estudantes e de seus sentimentos (confira um modelo aqui).

Junto às crianças e adolescentes, é preciso construir ainda o ponto de equilíbrio para que essa tematização não abra mais feridas, mas também, não seja superficial e restrita ao senso comum. “O segredo para isso é uma escuta atenta e muita sensibilidade”, diz o coordenador pedagógico.

A competência geral 8 da BNCC nas aulas

Para além da criação de projetos e vivências que envolvam as várias áreas do conhecimento, os professores podem contribuir a partir dos objetos de conhecimento desenvolvidos ao longo do ano. 

Em Ciências da Natureza, por exemplo, é possível discutir a ocorrência de distúrbios alimentares, a mecânica das emoções, os hábitos de higiene e de cuidado em relação a sexo e consumo de drogas. Nas Artes, há a possibilidade de permitir que eles expressem sua subjetividade em diferentes linguagens e suportes, bem como nas leituras e produções das aulas de Língua Portuguesa.

Em Ciências Humanas, os estudantes têm a oportunidade de compreender a influência da família e do contexto social e cultural para a constituição dos sujeitos, em contraposição a outras culturas e territórios. Já a Educação Física pode permitir às crianças e adolescentes a exploração de suas diferentes aptidões físicas, como força, velocidade, flexibilidade, coordenação motora etc.

“Uma atividade que sempre funcionou bem com os meus estudantes foi, em uma roda de conversa, pegar uma embalagem de algum produto, trocar o rótulo e destacar o fato de que o conteúdo não se altera. Isso concretiza para eles um pouco melhor essa questão das identidades, da complexidade das pessoas e quanto cada um de nós é uma criatura única, independentemente do que está por fora”, relata Fábio.

No trabalho com as crianças e os adolescentes em relação ao autoconhecimento e ao autocuidado, a psicóloga Viviane Neves Legnani propõe, ainda, convidá-los a questionarem o que significa uma boa autoestima.

“Vivemos em sociedade autocentrada, que valoriza a ideia de indivíduos que devem se amar para que as coisas deem certo, como se isso acontecesse num passe de mágica. Mas nossa autoimagem decorre de uma experiência longa, construída por meio das vivências que temos no mundo, positivas e negativas não só para nós, mas também para os outros. É isso que vai fazer com que a gente se sinta mais ou menos confortável com o que somos”, explica a psicóloga.

“Assim, a escola precisa favorecer experiências positivas, deslocar de uma perspectiva individualizante e pensar coletivamente em como cuidar das relações com todos, para que, a partir dessas experiências, os estudantes possam ir se reconhecendo como sujeitos e construindo uma percepção sobre si mesmos.”

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