Para repensar a escola

Transição na pandemia: como fica a passagem para o Ensino Médio?

Covid-19 e crise econômica têm o potencial de agravar desigualdades. Intensificar a busca ativa pelos alunos é uma ação possível

Não deixar nenhum aluno para trás na transição é desafio para escolas na pandemia. Ilustração: Caronte Design/Nova Escola

Mudança de escola, entrada no mercado de trabalho, novos amigos, cobranças familiares: são inúmeras as transformações físicas, sociais e emocionais que marcam a adolescência. Com a crise do coronavírus, a inquietação natural desta fase ganhou um ingrediente que eleva a ansiedade e aumenta os questionamentos dos meninos e meninas que estão, em 2020, nos últimos anos do Ensino Fundamental 2.

Além disso, as dificuldades de acesso ao ensino remoto e a crise econômica aprofundam desigualdades que desembocam num dos principais problemas estruturais da transição do Ensino Fundamental para o Médio, a evasão escolar. “A chegada no Ensino Médio é um marco simbólico importante na vida do jovem e configura uma fase sensível em relação aos êxitos e fracassos pessoais”, explica a psicóloga e orientadora educacional do colégio paulistano Anglo21, Bianca Ventura. 

Ela observa que um ponto delicado, não necessariamente negativo, é o aumento da interferência da família na rotina escolar dos alunos do 9º ano. “Muitas famílias sentiram necessidade de acompanhar mais de perto seus filhos ao constatar pouca disciplina para os estudos autônomos no contexto remoto. Se, por um lado, ganhamos com o apoio da família, por outro reduzimos o protagonismo, tão importante nesta fase.” Outro descompasso verificado por Bianca é no ritmo de estudos, que costuma se intensificar no final do ciclo e agora caminha na direção oposta devido ao ensino remoto. 

Escolas públicas 

Se o estudo desacelera nas escolas da rede privada, ele pode deixar de existir em regiões onde a infraestrutura de comunicação é mais precária e as restrições econômicas impõem barreiras muitas vezes intransponíveis para que os adolescentes permaneçam na escola. 

É o que relata Lúcia Cortez, diretora da EM Professor Waldir Garcia, de Manaus (AM). “No ensino remoto o distanciamento é maior entre as redes, escolas, famílias e estudantes, que não conseguem se articular para planejar a transição. Temos um problema crucial, que é a falta de acesso às tecnologias e internet para todos”, confirma. “Quando estávamos nas escolas, raramente era feita a discussão para a mudança de segmento, imagine cada um na sua casa e sem meios para se articular? A desigualdade em nosso país contribui para que não se promova equidade. Assim, os desafios de mudança de escola, de segmento e de currículo vão se intensificando”, afirma Lúcia. 

Com a pandemia, os jovens que não conseguem ter acesso às aulas ficam desestimulados e os pais começam a cobrar que o filho vá trabalhar para ajudar no sustento da família, reforça a diretora da EM Professor Waldir Garcia. “Por isso a importância de uma escola presente na vida dos seus alunos. Os aspectos social, emocional, cultural e físico são tão importantes quanto o intelectual”, afirma Lúcia. 

O primeiro passo, ainda segundo a diretora, é realizar uma busca ativa daqueles estudantes que estão sem participar das atividades da escola. Você pode saber mais detalhes a respeito das orientações de órgãos como o Unicef e a União Nacional dos Dirigentes Municipais (Undime) para realizar a busca ativa escolar no contexto da pandemia neste link.

“É preciso promover o engajamento dos jovens e das famílias. Não podemos deixar nenhum aluno para trás neste processo. Depois, temos que planejar estratégias com metodologias ativas que promovam a participação e interação de todos os atores envolvidos na aprendizagem. Trabalhar com roteiros de estudos, em que o estudante é o protagonista e o professor é o mediador”, sugere. 

Para Bianca Ventura, é possível aproveitar as ferramentas digitais para levantar dúvidas, veicular depoimentos, compartilhar conteúdos relevantes e criar conexões com outras escolas e jovens. “O momento favorece a abertura para referências de outros contextos e, com isso, o repertório dos alunos se amplia”, afirma. 

O fantasma da evasão 

Com a pandemia, manter os adolescentes na escola nas áreas de maior vulnerabilidade social converteu-se em desafio urgente. O Censo Escolar 2017 aponta que a taxa de reprovação é de 15,8% e a de abandono é de 7,8% no 1º ano do Ensino Médio. Tereza Perez, diretora da Comunidade Educativa CEDAC, prevê que de cada dez jovens matriculados no 1º ano do Ensino Médio, três não voltem para a escola depois da pandemia. 

O problema, no entanto, antecede a pandemia ou mesmo o Ensino Médio. Ainda segundo Perez, perto de 25% dos alunos, de acordo com os dados do Inep, já sofreram mais de duas reprovações ainda no Ensino Fundamental, o que gera relevante distorção idade/série na etapa posterior. “No 1º ano do Médio, isso chega a 38%. Essa distorção idade/série faz com que haja estudantes de idades diferentes dentro de uma mesma turma, com demandas diferentes. A escola precisa acolher e não acirrar essa diferença.”

Uma forma importante para esse acolhimento está na avaliação. “Se eu inicio uma nova fase com uma coisa muito determinada, gero um distanciamento entre os próprios alunos, um constrangimento. Mas se começo o Ensino Médio com uma avaliação participativa, onde o que está em jogo é a avaliação como processo de aprendizagem, e não a avaliação como métrica da aprendizagem na pandemia, reduzo essa diferença.” Tereza sugere a adoção de autoavaliações participativas e avaliações coletivas. Nelas, a ideia é de que os alunos possam refletir sobre o que aprenderam, mas de forma participativa. Ou seja, em permanente diálogo com os colegas e também com os professores. Nesse diálogo, cabe ao professor deixar explícito, com o objetivo daquela avaliação e aos alunos sistematizarem suas reflexões de forma coletiva. “São processos ricos que podem ser feitos sempre, em especial neste momento de transição, e mais ainda considerando a pandemia.”

Para Lúcia Cortez, uma rede conectada e colaborativa, entre as secretarias do município e do estado e também entre as escolas é outro ponto importante para atenuar discrepâncias e promover a equidade. “É preciso colocar o estudante como protagonista. Ouvi-los respeitando seu tempo e ritmo, valorizando as diferenças, valorizando a integralidade do sujeito, em todas as dimensões, social, física, intelectual, emocional e cultural. Precisamos criar espaços de escuta e orientação para esses jovens. Mostrar para eles que não estão sozinhos, estamos juntos, e que eles são mais importantes que qualquer processo”, conclui.

Ponto a ponto: transição na pandemia

1. A adolescência já é uma fase complicada - e a pandemia acrescentou mais uma camada de complexidade a esse momento. 
2. A dificuldade de acesso ao ensino remoto e a crise econômica potencializam também as dificuldades dos alunos que estão no último ano do Ensino Fundamental em 2020. 
3. Nas escolas particulares, observa-se uma desaceleração do ritmo dos estudos e uma maior intervenção das famílias na vida escolar do aluno.
4. Já nas escolas públicas, a pandemia pode agravar o afastamento da escola e as desigualdades. 
5. Por isso, é importante intensificar as ações de busca ativa por esses alunos, a adoção de metodologias ativas e a preocupação com o acolhimento. 




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