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Escola, gestão e professores: ações para combater a evasão escolar das meninas na pandemia

As alunas são as primeiras a serem recrutadas para o trabalho doméstico e o cuidado de crianças mais novas e idosos, além de sofrerem mais com a violência doméstica e sexual. Identificar as causas particulares do abandono escolar no atual contexto é fundamental para combatê-lo

Ilustração de escola sobre fundo sólido.
Ilustração: Julia Coppa/NOVA ESCOLA

Necessidade de trabalhar, desinteresse e gravidez precoce são os principais motivos que levam os jovens a abandonarem os estudos. Dos quase 50 milhões de brasileiros de 14 a 29 anos, 20% não completaram alguma etapa da educação básica. São 10,1 milhões nessa situação, entre os quais 58,3% homens e 41,7% mulheres. Destes, 71,7% eram pretos ou pardos. Os dados são da Pesquisa por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, que traçou um cenário da Educação em 2019. Embora ainda não existam dados detalhados sobre 2020, especialistas ouvidas por NOVA ESCOLA já percebem que a pandemia aumenta a vulnerabilidade das meninas e deve elevar a evasão escolar entre elas. 

Os dados mostram em números o que se vê na prática. “A evasão escolar afeta de forma mais marcante determinados segmentos, afeta mais os meninos negros e as meninas negras. E com recorte de renda. São esses três elementos que marcam a evasão escolar: renda, gênero e raça”, afirma Solange Feitoza Reis, pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). 

No entanto, afastadas da escola por conta da pandemia, são as meninas as primeiras a serem recrutadas para o trabalho doméstico e o cuidado de crianças mais novas e idosos. São elas também as maiores vítimas de violência doméstica, abuso sexual e gravidez indesejada. O cenário já podia ser percebido mesmo antes da pandemia. Solange observa que em redes de ensino que oferecem Educação em período integral são as meninas que têm mais dificuldades nas atividades do contraturno. “Elas iam para casa e não voltavam porque são as responsáveis por limpar a casa e cuidar dos irmãos. Os meninos voltavam à tarde para a escola porque essas não são atividades do universo masculino”, observa Solange. 

Isabel Afonso, formadora de gestores educacionais e escolares da Comunidade Educativa Cedac, enxerga os mesmos fatores quando o assunto é evasão escolar de meninas. Segundo ela, quando fazemos o recorte de gênero e olhamos para os impactos da pandemia na Educação delas, instituições como a Plan Internacional e organismos internacionais como Unesco e ONU Mulheres vêm observando que as meninas estão entre os mais vulneráveis, já que em casa estão expostas a situações de abusos e violências. “Elas assumem grande parte do trabalho doméstico, há pouca ou nenhuma divisão de tarefas, o que reduz o tempo dedicado aos estudos.” Isabel também destaca os impactos na aprendizagem decorrentes do aumento global da violência doméstica, da maior dificuldade de meninas em acessar estruturas de apoio social e serviços essenciais, como os serviços de saúde reprodutiva e sexual. “Infelizmente, com o cenário de recessão econômica há o aumento da violência sexual, da exploração, do tráfico, do trabalho infantil e outras violações de direitos”, reforça.

Como os números mostram, as meninas têm uma trajetória escolar de maior permanência se comparada com a dos meninos, mas se a preocupação é mantê-las na escola num contexto adverso, a questão necessariamente passa pela discussão sobre qual o lugar da mulher na sociedade e na família. Para Solange, é papel da escola discutir a questão de gênero desde a Educação Infantil. E, quando se fala do cenário atual, é importante a escola estabelecer mecanismos de alerta para as meninas que podem ter a situação de risco aumentada. “Num contexto de extrema precariedade, as famílias acabam indo buscar formas alternativas de sobrevivência, aumentando a vulnerabilidade delas.” Solange lembra, ainda, que a despeito de numericamente a evasão escolar atingir menos as meninas, elas abandonam a escola por fenômenos que extrapolam os muros da escola, mas a escola não é impermeável a isso. “É função da escola socializar de outra maneira, fazer um contraditório nesse processo de socialização. É verdade que a escola não pode tudo, mas também, não é verdade que ela não pode nada”, conclui.

Identificar como meninos e meninas estão atravessando de formas diferentes o atual momento é passo fundamental na busca de soluções efetivas, afirma Isabel. “Gestores educacionais e escolares precisam garantir que políticas e intervenções de resposta aos impactos da pandemia considerem essas diferenças.” Além disso, ela defende que é necessário ter em vista os desafios apresentados na aprendizagem dos estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental, anteriores à pandemia, que já apontavam para a urgência em implementar ações voltadas para o enfrentamento do fracasso escolar.

Isabel destaca a pesquisa “A Educação não presencial na perspectiva dos alunos e famílias”, encomendada pela Fundação Lemann, Itaú Social e Imaginable Futures, em julho de 2020. O levantamento aponta que 54% dos familiares e estudantes dos anos finais do Fundamental tinham dificuldades em manter o interesse, a motivação e o aprendizado. A mesma pesquisa mostrava que 43% dos professores tinham receio de que os estudantes desistissem da escola por não conseguirem acompanhar as atividades. Além disso, na pesquisa "Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios de coronavírus”, realizada pelo Instituto Península, também em julho de 2020, 71% dos professores indicaram dificuldade para engajamento dos estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental.

Busca ativa

Mas o que a escola pode fazer quando percebe que uma menina abandonou a instituição? Além de reconhecer que há diferenças entre meninos e meninas, a busca ativa mostra-se uma ferramenta efetiva quando o assunto é abandono escolar. 

Isabel Afonso destaca a iniciativa do Unicef Busca Ativa, que apoia os governos na identificação, registro, controle e acompanhamento de crianças e adolescentes que estão fora da escola ou em risco de evasão. “É fundamental que a escola continue buscando caminhos para a manutenção do vínculo com os estudantes”, afirma a formadora. No caso das meninas, o planejamento da oferta de ensino - seja remota, seja presencial ou híbrida - deve considerar a situação particular delas de uma forma que seja inclusiva e sensível às questões de gênero, envolvendo familiares e comunidade e a implementação do monitoramento individual da participação de cada uma delas. 

Solange lembra, porém, que a busca ativa precisa de um comprometimento que não cabe apenas à escola. Para ela, a escola, juntamente com as secretarias de Educação, deve identificar as jovens que se evadiram e ir atrás delas. “É a hora de as secretarias de Educação se articularem com a assistência social, principalmente neste momento, com o conselho tutelar, com as secretarias de Saúde, em uma ação social forte para fazer a busca ativa das crianças”, defende. Ainda segundo Solange, a não ida das crianças para a escola é uma questão social, maior do que uma questão educacional. Por isso, deve ser tratada por toda a comunidade de forma intersetorial. “Por que essa menina está fora da escola? Com certeza você vai ter questão de violência doméstica, violência sexual, problemas de saúde na família. Ela deve ter um desgaste emocional e físico. Por isso que não é só uma responsabilidade da escola, é uma responsabilidade das demais políticas que, se articuladas, não devem admitir nenhuma criança fora do sistema de ensino”, conclui. 

O que fazer? 

Isabel, da Cedac, sugere algumas ações que os diversos agentes da Educação podem promover para acolher as meninas no retorno às aulas - sejam elas remotas, híbridas ou presenciais - e assegurar a permanência delas na escola. Confira:

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Como apoiar as meninas em sua aprendizagem

Ações para gestores e professores com foco no retorno das alunas às aulas e na sua permanência na escola


Como apoiar as meninas na volta às aulas 

A escola como um todo:

- Fortalecer a corresponsabilidade em assegurar o direito à aprendizagem de cada um dos estudantes durante o período da pandemia. Para isso, é fundamental mobilizar todos os atores da comunidade escolar na busca de caminhos para minimizar os impactos, cada um no seu âmbito de atuação, em prol de uma cultura de colaboração.

Gestão:

- Fortalecer a comunicação das escolas com familiares/responsáveis e estudantes.

- Manter atualizados os dados de contexto da comunidade escolar para estabelecer o canal de comunicação mais adequado a cada uma das famílias.

- Manter a comunidade informada regularmente sobre as ações e os resultados alcançados pela escola no enfrentamento à pandemia. A comunicação clara e objetiva amplia a relação de confiança da comunidade com a escola.   

- Consolidar espaços de escuta e participação dos diferentes atores da comunidade, especialmente no planejamento do retorno às atividades presencias/híbridas.

- Fortalecer a cultura da colaboração na escola: em 2020, todos os profissionais foram mobilizados a trabalhar de maneira colaborativa e há relatos do quanto foram enriquecedoras as trocas de saberes e a socialização de experiências no ensino remoto vivenciadas pelas escolas nos encontros formativos entre gestores e entre professores. 

- Ampliar e fortalecer de maneira mais intencional os espaços de troca entre educadores. Conceitos como comunidade de aprendizagens profissionais, escola aprendente, rede de aprendizagens e inteligência coletiva poderão contribuir muito para os avanços na formação continuada de gestores e professores das redes. É estratégico que gestores das secretarias e gestores escolares aprofundem seus estudos sobre esses conceitos.

Professores:

- Analisar o diagnóstico das aprendizagens: identificar quais foram as aprendizagens construídas no contexto de 2020 por cada estudante através dos resultados observados por diferentes instrumentos de avaliacão/monitoramento. Mas é necessário olhar para os dados desagregados por gênero e raça/etnia para que os problemas de desigualdade possam ser enfrentados em suas especificidades.

- Reconhecer as potencialidades da abordagem do ensino híbrido para recuperação, consolidação e avanço das aprendizagens

- Combinar as diferentes modalidades de ensino, os equipamentos e ferramentas tecnológicas disponíveis, as metodologias (ativas) que implicam o estudante no centro do processo de aprendizagem e a personalização para dar oportunidade de aprendizagens mais adequadas às características e necessidades específicas dos estudantes. 

- Identificar e desafiar estereótipos e preconceitos de gênero nas suas práticas pedagógicas e encorajar meninas nos estudos e carreiras relacionados às ciências. O uso da metodologia STEM (Science, Technology, Engineering, and Math - Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, em português) por professores tem se mostrado um caminho interessante para envolver meninas com a pesquisa científica.

Como ajudar as meninas a permanecerem na escola

Escola como um todo:

- Engajar toda a comunidade escolar no enfrentamento dos desafios educacionais.

- Assegurar que todas as meninas tenham oportunidade para obter sucesso nas suas trajetórias escolares. 

- Fortalecer junto a todos atores da comunidade escolar o comprometimento com a aprendizagem, colocando em discussão os impactos negativos da reprovação na continuidade dos estudantes e buscando caminhos para apoiar a aprendizagem dos estudantes que estão em defasagem idade-série.

Gestão:

- Além de analisar os resultados das avaliações em larga escala desagregados por gênero e raça/etnia, é preciso um olhar rigoroso para os indicadores de reprovação e abandono. Indicadores como o Índice de Oportunidades da Educação Brasileira (IOEB), o Indicador de Desigualdades e Aprendizagens (IDeA) e a estratégia/plataforma Trajetória de Sucesso Escolar da Unicef poderão apoiar as equipes escolares nas análises e estabelecimento de prioridades. Um dado que poderá ser colocado em discussão é o de que ao analisarmos as trajetórias educacionais do país, os dados revelam que há maior incidência de estudantes com distorção idade e série (3 anos ou mais) no 5º e 6º ano do Ensino Fundamental e no 1º ano do Ensino Médio. Os gestores precisam levar essa discussão para dentro da escola, refletindo como esses dados se aproximam da realidade da escola e o que podem revelar sobre a concepção de direito de aprendizagem.

- Assegurar que o currículo e o projeto político-pedagógico (PPP) das escolas seja comprometido com a igualdade e equidade de gênero e, consequentemente, ampliar a discussão de gênero e dos demais marcadores sociais na formação inicial e continuada de docentes e outras e outros profissionais da educação. 

- Adequar projetos e rotinas para assegurar que adolescentes mães retomem os estudos após o nascimento dos seus filhos. 

Professores:

- Construir práticas pedagógicas sensíveis à questão de gênero, que incluam discussões e estudos sobre a diversidade de gênero. 

- Além de desenvolverem suas próprias percepções, os professores devem estar atentos às atitudes e comportamentos em relação à equidade de gênero no cotidiano. 

- Os estudantes estão em formação e podem ser formadores de opinião em suas famílias e comunidade. Por isso é tão importante tratar de equidade de gênero em sala de aula.

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