Língua Portuguesa

Literatura na pandemia: como (e o que) ler com os seus alunos

Como aproveitar as ferramentas literárias para driblar distâncias e incentivar a leitura para construir pontes com os jovens no isolamento

Ilustração em homenagem a cena do enterro da obra O Auto da Compadecida.
Ilustração: Thiago Lopes (Estúdio Kiwi)/NOVA ESCOLA

Após mais de um ano das restrições impostas pela pandemia, professores e alunos adaptam-se como podem para manter aprendizagem e acolhimento. Neste sentido, o trabalho com a leitura – de clássicos, best sellers, contos, romances e HQs – extravasa seu papel de componente curricular e se torna uma ferramenta importante para a interação e o compartilhamento de ideias, abrindo as portas para outras realidades que ajudem os alunos a absorverem e interpretarem o mundo em que vivem.   

Para Manuela Prado, professora de Língua Portuguesa e selecionadora do Prêmio Educador Nota 10, o ensino remoto por si só não intensifica os desafios que os professores já têm normalmente para engajar os alunos na leitura, em especial, dar sentido às atividades com os livros para que os estudantes se envolvam e levem as leituras até a última página.

Um processo que só trabalhe com o livro depois da conclusão da leitura é difícil de funcionar, ainda mais no remoto”, exemplifica. Na distância, há menos oportunidades para que os alunos dialoguem entre si e construam o sentido do livro juntos. “Quando a leitura passa a ser um valor para o grupo é sempre mais fácil e interessante, seja na escola, seja fora dela”, afirma.

Por isso, neste momento, é preciso criar uma sequência de atividades que permitam momentos em que o grupo possa compartilhar os significados daquela leitura. “Passei a gravar a leitura de trechos e enviar para os alunos. Comecei na pandemia e quero adotar para todas as aulas”, reflete Manuela.

O que diz a BNCC

Quando o assunto é leitura no Fundamental 2, a BNCC dá um destaque considerável ao multiletramento e defende que a leitura não seja exclusivamente centrada na palavra, mas inclua a interpretação de imagem estática ou em movimento, da música e outras manifestações artísticas, lembra Rafael Palomino, professor de Língua Portuguesa e selecionador do Prêmio Educador Nota 10. A sugestão é de que se analisem textos multimídia e se insiram textos orais nas aulas, o que implica uma interpretação de texto ouvido, e não lido. Como o trabalho linguístico da BNCC incorpora uma concepção discursiva, esta demanda um trabalho de conexão entre texto, situação de produção e contexto de circulação social. “É desejável, nessa concepção, que se leia um texto vendo-o engajado num diálogo em larga escala: ele é sempre uma réplica, uma resposta, um complemento. E o bom leitor identifica o diálogo no qual o texto se engaja”, explica o educador.

O hábito da leitura e a comunidade de leitores 

O ensino da Literatura depende de um contexto de diálogo, que é mais fácil de construir em aula presencial do que em encontros virtuais. Ainda assim, é importante investir em contextos que propiciem o diálogo dos alunos entre si e com o professor. 

“É possível pedir a eles que discutam em grupos, antes da aula, alguma questão e tragam impressões para compartilhar com a classe”, orienta Rafael Palomino, professor de Língua Portuguesa e selecionador do Prêmio Educador Nota 10. “É uma estratégia para fazê-los dialogar, o que é importante para a leitura, e que costuma ser bem recebida pelos alunos, que estão isolados dos amigos e desejam ter motivos para estar com eles”, afirma. 

Rafael também defende ser central haver, em algum momento, um debate síncrono sobre as leituras. “A leitura de uma obra é sempre coletiva e os sentidos se constroem no diálogo. E o hábito de leitura constrói-se pela entrada numa comunidade de leitores. Se exigirmos do aluno que leia solitariamente, apenas para entregar um resumo ou fazer uma prova, o provável é que a atividade falhe”, conclui.

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NA PRÁTICA: Como escolher as leituras para o Fundamental 2

Com base nas experiências de Manuela e Rafael, NOVA ESCOLA preparou a lista abaixo com dicas práticas de como escolher as leituras e trabalhá-las no ensino remoto.


- Há sempre uma leitura melhor para cada contexto, não importa qual este seja. As leituras boas são as que dialogam com aquilo que estamos vivendo. Mas não há uma regra bem definida quanto a isso: não é porque há uma pandemia que todos vão ver muito sentido em ler A Peste, de Camus, por exemplo. 

- As relações entre a obra e o contexto são menos automáticas e respondem, um pouco, ao que cada um de nós experimenta. Uma sala de aula na periferia de São Paulo não terá interesse nas mesmas discussões que numa escola de alunos de classe média, por exemplo. A regra de ouro é investir na construção de uma relação com os alunos, para conseguir entendê-los e pensar qual é a melhor maneira de chegar a eles, inclusive no que diz respeito à escolha de leituras. No contexto de pandemia, isso é mais difícil, mas é o único caminho para o professor. 

- O ideal é que, no contexto da pandemia, as obras necessitem de menos mediação do professor, para o aluno as ler de forma um pouco mais autônoma, já que os encontros, ainda que on-line, sejam em tempo e quantidade mais limitada que no presencial. Isso não significa a opção por obras rasas. “Rubem Fonseca depende de menos mediação do que Machado de Assis, mas nem por isso deixa de ser profundo”, afirma Rafael.

- Por conta da limitação da interação com os alunos, evite leituras que demandem mediação excessiva. Isso não significa abandonar os clássicos, mas sim, imaginar quais são os textos dos quais o aluno consiga extrair algo sem precisar de acompanhamento muito próximo. 

- Em aula presencial, não é impossível pedir a uma sala que leia algo mais difícil de “decodificar” (graças à sintaxe, ao contexto histórico ou a algo do tipo), desde que tenhamos encontros regulares nos quais essas dificuldades vão sendo abordadas e o professor vai “lendo junto”. Com distanciamento e aula virtual, isso pode se tornar um entrave. 

- É estratégico, neste momento, escolher obras nas quais o aluno consiga embarcar e a respeito das quais ele se sinta capaz de dizer algo por conta própria. A partir disso o aluno consegue dizer algo sobre a obra, abrem-se discussões com os colegas e com o professor, e novas camadas de sentido vão sendo adicionadas à leitura.

- É útil também conhecer bem a turma, para conseguir recomendar leituras mais dirigidas a seu universo. Em sala de aula, bastaria estar atento ao que os alunos revelam de si, mas com o distanciamento social, perceber isso depende de mais esforço intencional. Para isso, peça que os alunos respondam a pequenas enquetes, por exemplo, ou que tragam referências de filmes e músicas.

- Outra possibilidade é pensar em dinâmicas nas quais nem todos os alunos leem o mesmo livro. Com isso, é possível fazer os alunos escolherem o que querem ler dentro de uma lista predeterminada. A opção de escolha é motivadora para os estudantes. Nessas listas, é bom haver livros de estilos e dificuldades variadas, que contemplem alunos diferentes.

- Pense numa gradação de desafio para o seu grupo. Pensar qual o ponto de partida, que dificuldades eles têm e uma leitura que ofereça a chance deles avançarem e amadurecerem como leitores, mas que sejam do tamanho do passo que você quer dar com a turma, sem soar grande demais para aquela etapa. 

- Tudo depende da estrutura de aulas disponível, da quantidade de encontros e de situações que pode oferecer como apoio nos desafios que a leitura impõe. Se a situação é de poucos encontros, é necessário escolher obras que permitam uma leitura autônoma.

ENSINO REMOTO: Como ler com seus alunos?

- Estude o livro escolhido. É fundamental saber quais são as questões que o livro suscita para poder discuti-las durante a aula e mobilizar os alunos a se posicionarem.

- Antecipe as dificuldades de leitura que os alunos possam ter com aquele livro: se o livro é de um contexto muito diferente do aluno, de um momento histórico que ele não conhece, um universo muito distante, essa distância pode exigir inferências que ele não sabe fazer, que ele não tem elementos para fazer ou pode fazer inferências erradas. 

- Leve para discussão os elementos desses universos distantes para que eles possam se envolver com a leitura, ampliem o repertório e possam fazer as inferências corretamente. Se houver a possibilidade, realize essa conversa em aula síncrona. Caso não seja possível, pode-se enviar materiais complementares ou áudios com esclarecimentos pertinentes à obra.

- Pergunte aos alunos quais são as expectativas com a obra escolhida. Você pode elaborar questionamentos, tais como: vocês conhecem esse autor?Um livro com esse título, o que parece para vocês? Perguntas como essas criam antecipações e ajudam a formular hipóteses, cujas confirmações e recusas ao longo do texto movem a leitura.

- Antes de pedir ao aluno que leia, comece o livro com ele. Se o primeiro capítulo tiver poucas páginas, leia com a turma. 

- Leia com alguma entonação, isso faz toda a diferença para os alunos captarem o tom da obra, especialmente com a limitação da presença física. 

- Leia e converse com os alunos visando a dois objetivos. O primeiro é instigar o interesse pela obra: chame atenção a uma informação relevante, que gere suspense, mas que os alunos não notariam. Assim, proponha os objetivos para o aluno tentar alcançar sozinho e serão recuperados na próxima aula. Exemplo: “Leiam prestando atenção em como a personagem vai mudar de ideia. Na próxima aula vocês me contam se acham que ela agiu certo ou se fez besteira”. Isso dá uma orientação para o aluno seguir a leitura.

- Nos encontros seguintes, espera-se que os alunos tragam algo para expressar o que leram, não necessariamente dúvidas. Estimule-os a trazerem algo pessoal: um filme do qual eles se lembram ao ler, uma opinião ou uma memória. Isso enriquece a aula e, quando um aluno diz algo do tipo, estimula outros a pensarem em quais são as suas opiniões, suas memórias, ao que eles associam o livro. Esse compartilhamento também pode ser feito pela troca de áudios quando houver limitações para os encontros on-line.

- Crie situações que permitam que os alunos façam sínteses do que foi importante até determinada parte da leitura, o que pode ser feito com questionários e coletivamente. Essas situações são importantes para que o aluno se certifique que entendeu o livro até aquele ponto, o que facilita o engajamento. 

- Envie áudios com trechos de leitura. Muitas vezes o aluno não consegue achar o tom do texto. Quando você fornece o tom, dá uma chave para ele entender melhor o texto. Trabalhar a leitura e enviar áudios é um exercício muito interessante, inclusive pensando em atividades em que os alunos se tornem os produtores dos áudios. 

- É difícil manter a ideia de comunidade no ensino remoto, então o compartilhamento de áudios pode ser arma poderosa nesse resgate do pertencimento, porque tem uma materialidade na voz de cada um, e todo mundo pode se ouvir.

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