Entrevista

Nanah Vieira: “O aumento da jornada de trabalho das professoras foi invisível”

Pesquisadora das relações das mulheres com o trabalho, cientista social aponta o acúmulo de trabalho e sobrecarga das professoras na pandemia

Ilustração feita a partir de colagem digital de aluno e professor em vídeo chamada. Cena dividida pela metade, onde de uma metade temos a professora e a outra a aluna.
Ilustração: Rafaela Pascotto/NOVA ESCOLA

Dizer que as mulheres estão na linha de frente do enfrentamento da pandemia de covid não é uma afirmação retórica. Elas são maioria nas profissões ligadas à saúde e à educação. Mais que isso: é sobre elas que recai o trabalho não remunerado dentro de casa, dos afazeres domésticos aos cuidados com as crianças e os idosos. Sem os limites de tempo e espaço impostos quando se exerce a atividade remunerada fora de casa, perdeu-se também os limites entre trabalho, lazer e descanso. O que se tem são muitas mulheres sobrecarregadas e exaustas – inclusive as professoras que gostariam de aperfeiçoar a sua prática em prol da aprendizagem dos alunos. 

“Uma das habilidades emocionais que precisamos desenvolver é respirar, cuidar da saúde física, mental, dos tempos de lazer e descanso. E dizer não”, afirma Nanah Vieira, cientista social e doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) que pesquisa as relações entre gênero e trabalho.

Para Nanah, as professoras, na ponta desse processo, não podem ser responsabilizadas a darem conta de tudo. Para a pesquisadora, o aumento da jornada de trabalho deu-se de forma invisível para as professoras. 

“As possibilidades de troca com colegas no ambiente físico foram reduzidas. O sentimento que predomina é de solidão, exaustão e impotência”, constata. 

Tudo isso com o pano de fundo do desemprego, da pobreza, da fome e da desigualdade crescente no país, que afeta de maneira desigual também os estudantes. 

“Precisamos escutar as professoras, seus sentimentos, suas necessidades, suas dificuldades, suas incertezas. Essa é uma pergunta que a direção e coordenação de cada escola deve fazer para a equipe de professoras: como o cenário da pandemia está afetando a sua vida e o seu trabalho?”, defende. 

Confira os principais trechos da entrevista de NOVA ESCOLA com Nanah Vieira. 

NOVA ESCOLA: Quais os desafios de conciliação que as mulheres trabalhadoras estão, em geral, vivenciando neste momento de pandemia?

NANAH VIEIRA: Ainda não conseguimos dimensionar os efeitos da pandemia em todas as esferas da sociedade, mas na economia e, em especial no mercado de trabalho, a perspectiva é de ampliação das desigualdades. 

O impacto da recessão foi imediato na vida de brasileiras e brasileiros, mas percebemos que a pandemia tem efeitos significativos, embora diferenciados por trabalhador e tipo de trabalho. Em geral, são os que já se encontravam em situação de maior precariedade que enfrentam maiores riscos de perderem as suas ocupações. 

Nesse sentido, por causa do aumento das atividades no interior dos lares e da paralisação das escolas, as mulheres são as mais afetadas, porque na divisão sexual do trabalho são elas que despendem mais tempo no cuidado de crianças e idosos, além de se responsabilizarem por atividades domésticas rotineiras e exaustivas, tornando insustentável a conciliação com a jornada de trabalho remunerado e, consequentemente, tendo reduzida sua autonomia.

Verificamos que na pandemia o cenário se agrava. Se as mulheres não perderam os seus trabalhos, sua situação de vulnerabilidade aumentou. Para as que estão em home office, as tarefas de cozinhar, limpar, arrumar e de cuidar, que tradicionalmente recaem sobre as mulheres, se multiplicaram. 

Em home office, as mulheres vão dispor mais dos seus tempos para o trabalho e isso passa a não ser remunerado, porque não se está dentro da empresa. À primeira vista, a indistinção entre casa e trabalho ou a sua aproximação melhoraria as condições para o maternar. Mas estamos vendo mulheres exaustas.  

Em uma carreira majoritariamente feminina como a docência no Ensino Fundamental, como este cenário afeta especialmente as professoras?

Tem-se falado muito sobre esse caminho sem volta das inovações disruptivas na educação, nos modelos híbridos de ensino e no uso de novas tecnologias em relação à sala de aula tradicional. 

Sem entrar nesse debate, o que é possível verificar é que a pandemia forçou as professoras, tanto das redes públicas quanto privadas, a transformarem suas casas em salas de aula ou estúdios de gravação; a aprenderem como utilizar novas ferramentas, plataformas digitais e determinadas tecnologias em curtíssimo prazo; e a dedicarem maior carga emocional e afetiva para mobilizar estudantes e suas famílias. 

O aumento da jornada de trabalho se deu de forma invisível. As possibilidades de troca com colegas da mesma categoria no ambiente físico da escola foram reduzidas. O sentimento que predomina é de solidão, exaustão e impotência. 

Certamente, esse é um tema que precisa ser mais investigado, precisamos escutar mais as professoras, seus sentimentos, suas necessidades, suas dificuldades, suas incertezas. Essa é uma pergunta que a direção e a coordenação de cada escola devem fazer para a equipe de professoras: como o cenário da pandemia está afetando a sua vida e o seu trabalho? 

É muito cedo para analisar os impactos da pandemia na educação, então agora é urgente promover uma escuta horizontal com as professoras, com cada uma. Saber sobre suas experiências, demandas, sobre sua casa, seus filhos e, assim, humanizar as relações. 

As educadoras do Ensino Fundamental têm desafios relacionados à faixa etária de seus alunos e alunas, ao acesso deles a computadores e internet e às restrições impostas pela tela. 

A professora não tem mais o quadro, o pátio, a bola, o giz de cera, a dança, a tesoura, o papel. Avaliar o processo de ensino e aprendizagem torna-se tarefa difícil. Outra questão que elas enfrentam é em relação à desigualdade salarial na categoria. São as que recebem os menores salários dentro de uma escola. 

Acredito que precisamos olhar para a existência de professoras e estudantes. Como estão, onde estão, em que condições materiais, de saúde física e emocional. Algumas professoras que estão dando aulas em plataformas on-line reclamam que os alunos não abrem as suas câmeras e que a sensação é de falar sozinha com a sua própria imagem no computador. 

A gente ainda vai precisar de muito tempo para entender o que estamos vivendo neste momento, em termos de descobertas potentes sobre o processo pedagógico. Talvez a gente descubra que a presença física é indispensável, principalmente em relação às crianças. As professoras, enquanto categoria, estão com muita dificuldade de se articular e de fazer resistência. Outro ponto importante que estamos evitando discutir é: o que será feito da produção intelectual da professora? Quais as garantias de privacidade, direitos de imagem e conteúdo que as professoras têm? As professoras precisam promover processos pedagógicos sem entender muito bem qual a troca que ocorre neste momento tão extremo.   

Para além das funções estritamente profissionais e domésticas, as professoras se veem à volta também com a exigência de novas habilidades emocionais para atender aos alunos e suas famílias. Como fica esse sujeito diante de tantas demandas?

Essa ideia de “faça tudo o que for possível” é exaustiva e violenta, pois desliza para aspectos relacionados à sobrecarga, exposição excessiva, intromissão do trabalho na vida e no tempo pessoal. Sinto que as professoras estão assumindo atividades que não são suas, de funções administrativas, apoio emocional aos estudantes, sem receber esse apoio de volta das instituições e do Estado. Precisamos ficar atentas à exploração da mão de obra desse sujeito e à garantia de direitos.

O ensino remoto obrigou as professoras a buscarem formação e informação sobre novas práticas docentes. Agora, um ano depois, há também a pressão para que elas retomem a formação continuada em suas áreas de atuação. O que fazer para dar conta de tudo e o que fazer quando não é possível dar conta de tudo?

A gente não pode dizer que professores e professoras no Brasil não são bem formados. Se tem uma categoria profissional que está sempre atenta à formação continuada, a estudar, essa é a dos professores.

A concorrência é grande e também por isso os profissionais buscam estar o tempo todo em formação para ampliar os seus currículos e agregar valor à sua força de trabalho. Então é preciso atenção quando a gente fala sobre a formação dos professores. Não podemos falar que nossos professores e professoras não são bem formados. 

Mas as professoras se cobram muito, vão atrás. É preciso romper com certa imagem de senso comum de que o professor está estagnado. 

O ensino remoto obrigou mesmo os professores e professoras a buscarem informação sobre novas práticas docentes, principalmente relacionadas à tecnologia, ao uso de plataformas digitais, redes sociais gravação. E isso foi de um jeito que não possibilitou muita preparação desse sujeito professor, foi de supetão, "para ontem", porque a pandemia chegou às escolas tiveram de se adaptar. 

Então, temos de pensar nisso também: não houve tempo para elaborar uma crítica a como dar conta dessas novas plataformas nem se apropriar criticamente da forma como a gente faria esse ensino remoto acontecer.

O que eu observo, fruto da sociedade que a gente vive, que exige que a gente seja muito produtiva o tempo inteiro, no começo da pandemia o tempo em casa era visto como ocioso e veio uma oferta enorme de cursos a distância, em outras cidades, outros países, que dava muita vontade de fazer mesmo. 

Mas ficar em casa não significa ociosidade, tem uma série de trabalhos de reprodução da vida social em que era preciso dar conta e veio a exaustão. O trabalho invadiu a esfera doméstica e cadê o tempo de lazer e o tempo de descanso? 

O que as professoras começaram a relatar é que não se via mais esse momento de se desligar do trabalho. Um ano depois as pessoas estão com mais dificuldade de ficar tanto tempo no computador, entendendo melhor os prejuízos para a saúde física, emocional e mental. 

A gente precisa parar para desenvolver um pensamento crítico sobre isso. Um dos equívocos que a gente está cometendo é o de absorver muita informação sem o devido tempo para ela ser absorvida, decantada. Uma das habilidades emocionais que a gente tem de desenvolver é a de respirar, cuidar da saúde física, mental, ter tempo de lazer e tempo de descanso. E dizer não para algumas coisas, alguns pedidos, seja dos chefes, seja dos alunos, e impor limites em relação aos espaços. 

Como as professoras podem buscar apoio em casa e com seus gestores para que consigam alcançar um equilíbrio mais saudável entre todas as obrigações?

É muito delicado colocar mais responsabilidade em cima dessa professora que já está sobrecarregada, como se agora ela fosse responsável por alcançar um equilíbrio mais saudável entre todas as obrigações. Assim, a gente deixa mais uma vez essa professora sozinha, inclusive para pensar os limites para sua própria sobrecarga.

Me parece fundamental para as mulheres, professoras, mães, entenderem e pressionarem o Estado como um agente de proteção social fundamental no desenho desses novos regimes de trabalho. As empresas, as instituições e o próprio Estado precisam assumir essa pauta. Então, o que as escolas estão fazendo efetivamente, em termos pedagógicos, para mudar essa mentalidade machista. 

Acredito que esse debate precisa estar no âmbito do Estado, mas também entre os trabalhadores, nas cooperativas, nos sindicatos, nas associações, nas escolas, na mídia e nas famílias, ele tem de ser generalizado.

Todas as instituições precisam pautar o debate da igualdade de gênero e do compartilhamento das funções domésticas e os gestores precisam entender a realidade das professoras e como humanizar o olhar para suas diferentes realidades.

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