Para se inspirar

Como levar as marchinhas sobre presidentes para a aula de História

Aproveite o gênero musical típico do Carnaval como ponto de partida para diversificar fontes e trabalhar a história dos governantes da Primeira República no Brasil

Expressão cultural brasileira, as marchinhas antigas também têm muita História. Foto: Biblioteca Nacional Digital / Ilustração: Ana Matsusaki


Em resumo 

  1. A marchinha é um produto cultural do Brasil, típica do Carnaval e caracterizada pelo tom de crônica do momento histórico no qual produzida. Por conta disso, há muitos registros de marchinhas sobre presidentes brasileiros.  
  2. Na aula de História, ela pode ser um bom instrumento para trabalhar com o lúdico, ampliar a noção de fonte e documento histórico para os alunos e também para fazer conexões entre o passado e o presente. 
  3. O tema não precisa ser abordado exclusivamente no Carnaval: a marchinha pode ser aproveitada o ano todo, desde que seu uso faça sentido com o conteúdo trabalhado em sala. 

O Carnaval está nas ruas, e com ele as marchinhas irreverentes que animam os blocos, muitas delas ironizando situações complicadas - como a crise no abastecimento da água no Rio de Janeiro, políticos e até o presidente da vez. A relação das marchinhas de Carnaval com a política, porém, não é nenhuma novidade - e o assunto pode ser aproveitado para enriquecer as aulas de História. 

No início da década de 1920, o mineiro Artur Bernardes* e o fluminense Nilo Peçanha se enfrentaram nas urnas em uma das eleições mais disputadas da Primeira República (1889-1930). 

A polarização da época não poupou nem o Carnaval: em 1922 o povo dançou e cantou ao som de “Seu Mé’, uma sátira sobre Bernardes, que tinha esse apelido: Ai, seu Mé! Ai, Mé Mé! / Lá no Palácio das Águias, olé / Não hás de pôr o pé. Pouco tempo depois, outra marchinha, “Goiabada”, criticou o já ex-presidente Nilo Peçanha, que estava na disputa em 1922.  Quatro anos depois, o sucessor de Bernardes, Washington Luís, foi ironizado em “O cavanhaque do bode: Diz que o bode vai dar sorte / Quero vê prá acreditá. Apesar do bom humor do presidente, que até gostava dessa marchinha, o cenário econômico complicado em 1928 inspirou ainda a marchinha “Já quebrou”: Já quebrou / Quebrou, eh, tudo agora / Está quebrada e não se pode consertar / O Zé Povo que tudo paga / Já nem sabe como se adoentar. Apesar do título, a marchinha é anterior à crise da Bolsa de Nova York, que quebrou um ano depois, em 1929. 

No último século, a maioria dos presidentes brasileiros, de Bernardes (1922-1926) ao atual Jair Bolsonaro, passando por Getúlio Vargas (1930-1945 e 1951-1954), Lula (2003-2011) e Dilma Rousseff (2012-2016), passaram pelo crivo do Carnaval das marchinhas, uma manifestação cultural que pode ser considerada um documento histórico e aproveitada em sala de aula. 

“A marchinha é um gênero musical que se caracteriza por ser de conjuntura. Ela não é para durar, mas, sim, uma crônica do momento, se tivesse que compará-la com algum gênero literário”, explica o mestre em História pela UFRJ Luiz Antonio Simas, reforçando que as marchinhas são “músicas ligeiras, feitas para um contexto específico”. Por isso, é natural que os humores sobre a vida política brasileira estejam expressos nas letras e nos ritmos desde o seu surgimento, no início do século 20. 

O registro ganha ainda mais importância quando se lembra que, naquele tempo da Primeira República grande parte do Brasil era iletrado, então o contato com a informação não se dava, via de regra, pelo livro ou pelo jornal. Nos anos 1920, a taxa de analfabetismo ainda ficava em torno de 65%. “Imagine um Brasil com um contingente gigantesco de pessoas analfabetas. Nesse sentido, a música popular ganha uma dimensão ainda maior”, reflete Simas. Além disso, vale lembrar, o acesso ao voto era para poucos: além dos analfabetos, estavam excluídos mulheres, menores de 21 anos, soldados rasos, indígenas e integrantes do clero. 

O educador José Marcos Couto Jr, hoje diretor da EM Professora Ivone Nunes Ferreira, no Rio de Janeiro, ressalta que, de maneira geral, o foco das aulas de História no Ensino Fundamental não é mais centrada na figura dos governantes, seus nomes e datas, mas, sim, no contexto da época. “As marchinhas, como qualquer música, podem ser uma baita ferramenta quando você demonstra que ali há uma importância cultural. Além disso, engajam os alunos e tornam a aula divertida”, afirma ele, eleito Educador do Ano pelo prêmio Educador Nota 10 em 2018 pelo trabalho que associou músicas de Chico Buarque com a questão racial no Brasil.

Na prática 

Nas aulas de História, trabalhar com as marchinhas traz um elemento lúdico para a sala de aula e ajuda a diversificar a noção de documento histórico. “Para as minhas aulas de História o tema é muito relevante. O aluno ganha com o contato com uma fonte diferente das oficiais e na aproximação, porque dá para fazer alguns paralelos com a atualidade”, justifica a professora de História do Colégio Campos Salles e da rede pública estadual de São Paulo, Júlia Bitencourt, que indica que o recurso seja usado principalmente no 8º ano, quando se estuda os primeiros anos da República e no 9º, para trabalhar a Era Vargas. 

E nem é preciso esperar o Carnaval: se a marchinha estiver de acordo com o conteúdo do currículo trabalhado, a estratégia pode ser aproveitada fora da época da folia também. “Até porque o Carnaval é um fenômeno brasileiro que compõe a cultura e a identidade nacional”, diz Julia, que faz parte do Time de Autores de História de Nova Escola. 

Especialista em Carnaval, Simas pede cuidado para que as marchinhas não sejam utilizadas meramente como uma ilustração do período enfocado. O mais interessante é que a expressão musical seja apresentada em conjunto com outros documentos ou vestígios históricos, como charges, registros na imprensa ou documentos oficiais. “A carta-testamento do Getúlio Vargas, por exemplo, é um documento, porque foi escrita com essa intenção. Já “Seu Mé” é um vestígio, porque foi produzida para satirizar o presidente e brincar o Carnaval. Aquele vestígio é um ponto de partida para aquele universo. O interessante é propor uma ampliação das fontes”, recomenda. 

* De acordo com o Novo Acordo Ortográfico, a grafia do nome do presidente foi atualizada para “Artur Bernardes” em vez de “Arthur Bernardes”. No entanto, para pesquisar em documentos, artigos de jornal da época e outros registros, busque pela grafia original. 

** Colaborou Miguel Martins 

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