Para repensar a escola

Por que diversificar a autoria dos livros que são trabalhados na escola?

Diversidade faz diferença para a formação - e a autoestima - dos alunos. Entenda a importância e como fazer boas escolhas

Laura Guimarães, professora da EMEF Antenor Nascentes, em São Paulo. Foto: Rogerio Pallata/Nova Escola

Faça uma reflexão: na sua estante de livros moram quantas autoras? Iniciativas mundo afora têm buscado equalizar a desigualdade de gênero na literatura ao dar visibilidade para talentosas escritoras. Mas qual é a importância de fazer isso também no espaço escolar? 

“É importante, porque a literatura se faz em todos os lugares, não apenas nos cânones. A arte da palavra qualquer um pode ter. Precisamos conhecer não apenas o que aparece na mídia ou no livro didático, mas ter uma diversidade no olhar”, resume Laura Guimarães, professora de Língua Portuguesa na EMEF Antenor Nascentes, em São Paulo. “O aluno precisa entender que escrever não é um ato exclusivo de homem branco.”, afirma Elizabeth Cardoso, professora do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP e autora do livro infantojuvenil Todo Mundo É Misturado.

Não se trata de deixar de ler Machado de Assis ou outros autores consagrados, mas de ampliar o universo de referências. Também não se trata de diversidade a qualquer custo: a busca pela qualidade, pelos bons livros, continua a ser essencial. 

No entanto, pensar a diversidade é um exercício constante, não basta falar de autoras em março, de escritores indígenas em abril e de negritude em novembro. “Não é somente colocar um texto negro por ano. É preciso muito mais para que todos se sintam representados. A não existência desses grupos que ficam sempre de fora das histórias reflete como socialmente essas pessoas estão", afirma Calila das Mercês, doutoranda de Literatura na Universidade de Brasília (UnB) e idealizadora do projeto Escritoras Negras na Bahia. Ela complementa e reforça a importância da representatividade: “É muito difícil as crianças negras crescerem não se vendo nos filmes, nos livros, sendo apagadas da sua realidade”. Por isso, é importante ter a diversidade de vozes, de visões de mundo e de histórias que são trabalhadas na escola. “Mostrar que elas podem escrever, podem ser escritoras, personagens, que a realidade delas está representada”, afirma a pesquisadora. 

Como fazer a escolha desses livros?

Ao escolher uma obra para os alunos, é importante fazer uma análise crítica dos personagens, da presença que eles têm nos livros, qual o papel que ocupam, como os diálogos se desenrolam. Em resumo, é preciso entender a representação que é construída. “Há livros cheios de boa intenção com pessoas negras representadas, mas que repletos de armadilhas, de marcas que reforçam estereótipos”, explica Calila. Por isso, é preciso estar atento a esses detalhes. No entanto, se o professor escolher (ou for obrigado a usar) um texto com esses problemas, ela indica que esses pontos sejam trabalhados e questionados com a turma. 

Ter personagens diversos é um passo, mas não é suficiente. Calila defende que os autores também sejam diversos. “Ter apenas personagens negras de quem não é negro reforça que pessoas negras não sejam vistas como escritoras, legitimadas enquanto sujeitos”, afirma a pesquisadora. 

O perfil da turma também deve ser levado em consideração na escolha. Elizabeth explica: se a questão periférica é importante para a turma, então é importante trabalhar a literatura periférica. É uma forma de ganhar a confiança desses alunos, aproximar-se deles. Por isso, o professor precisa estar preparado para conhecer o aluno e oferecer textos que tenham maior aderência com o grupo.

Vale ressaltar que é também importante abrir espaço para que os próprios alunos contem o que eles gostam. O professor pode escolher algumas sugestões para trabalhar em sala. Uma sugestão de Elizabeth é o professor explicar como escolhe os livros, inclusive como uma forma de os alunos começarem a pensar no próprio método de escolha. “O aluno pode não saber o que falar, porque nunca parou para pensar que ele pode escolher. Estão acostumados a ler leituras impostas e não sabe procurar”, explica. Por isso, conversar sobre a escolha dos livros também pode ser um exercício interessante para eles. 

São muitos elementos para contabilizar na hora de escolher os livros. Como fazer esse equilíbrio? Como selecionar, dentro da diversidade, as obras a serem trabalhadas? Denise Guilherme, idealizadora da Taba - empresa especializada em curadoria de livros infantis e juvenis -, sugere três pontos para orientar a escolha. A primeira, claro, é a diversidade das literaturas apresentadas, então garantir que estão sendo oferecidos autores e gêneros literários diversos. O segundo é a continuidade, isto é, os alunos podem retomar leituras ou autores que já trabalharam, não é preciso ter apenas novidades. Por fim, a progressão, ou seja, oferecer leituras com diferentes níveis de complexidade.

Para poder fazer essas escolhas, é importante que o professor amplie seu próprio repertório literário, se atualize sobre o que está sendo publicado, os autores contemporâneos, se aprofunde na literatura infantojuvenil e entenda o que os alunos estão consumindo. “O professor precisa  viver mais a literatura enquanto evento social, circular mais, trocar mais”, afirma Marcelo.

Para trabalhar autoras com a turma

Em seu pós-doutorado, Bruna Paiva de Lucena investiga métodos de vivenciar a literatura na escola a partir da leitura de mulheres. Ela aponta que uma possibilidade para trabalhar diferentes gêneros seja trazer autoras pelo mundo. Por exemplo, para trabalhar com cartas, apresentar o livro Cartas Para a Minha Mãe, da cubana Teresa Cárdenas, que é um texto possível de ser lido em sala de aula para conhecer o gênero, conversar sobre quem é a narradora, a personagem, quem é a autora. Para histórias em quadrinhos aponta Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi, como leitura interessante. Para ler um romance, sugere a possibilidade de ler o livro Nossa Senhora do Nilo, da ruandesa Scholastique Mukasonga. Poemas, por ser um gênero muito produzido, ela indica que o professor apresente uma autora local. 

Ela esclarece que não se trata de não apresentar autores homens aos alunos, mas que levar mulheres é uma forma de aumentar a perspectiva da turma. “A diversidade nos seus mais amplos aspectos, de gênero, racial, idade, localidade, forma de viver. A escola é o espaço para conhecer, ampliar o repertório cultural”, afirma.

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