Para refletir

Morte e luto na pandemia: qual o papel da escola?

Para os professores, o fundamental é estar disponível para as crianças e suas famílias

Há limites para a atuação dos educadores, como abordagens psicoterápicas e conselhos religiosos. Ilustração: Julia Coppa/Nova Escola

Embora, até agora, a letalidade da covid-19 seja baixa entre as crianças, com o número de pessoas infectadas e de mortes na casa dos milhares, é certo afirmar que há muitas famílias sofrendo com casos de adoecimento, internação e mortes de parentes. Como a escola e os professores podem apoiá-los neste período de luto?

O fundamental é estar disponível. “Com as crianças, a preocupação principal não é o que se fala, mas sim, como se escuta e se acolhe”, diz Maria Julia Kovács, docente no Instituto de Psicologia e uma das fundadoras do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM) da Universidade de São Paulo (USP). “A aproximação deve ocorrer sem julgamentos ou pensamentos preconcebidos, sempre observando se essa proximidade é aceita e bem-vinda pela criança”, completa Maria Julia. “Dar espaço para a criança falar e mostrar que você aguenta o que ela está te trazendo de tristeza e medo pode parecer uma ação pequena, mas é essencial”, afirma Isabela Hispagnol, psicóloga, doutora em Psicologia Clínica pelo Laboratório de Estudos sobre o Luto (Lelu) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Saber como a criança constrói a compreensão do significado da morte e processa o luto ajuda a se preparar. Até os seis anos, não está claro para elas noções de universalidade e irreversibilidade da morte, por exemplo (neste texto, você pode verificar outras informações de como elas entendem o assunto). Também é preciso que o educador entenda quais são os limites de sua atuação. “É quando envolvem abordagem psicoterápica e conselhos religiosos e espirituais. A psicoterapia é tarefa de profissionais de saúde mental e a religião é de foro familiar”, afirma Maria Julia.

Como o educador pode acolher 

Antes do distanciamento físico, uma das estratégias sugeridas por especialistas e educadores era perguntar se a criança gostaria de compartilhar o que aconteceu com os colegas e promover uma roda de conversa. “É um caminho para lembrar a criança de que ela não não pode ver ou brincar com a pessoa, mas poderá contar sobre ela e mostrar fotos. E, assim, reforçar que os vínculos presenciais se rompem, mas os afetivos não”, diz Maria Julia. Trata-se de uma opção que pode ser adaptada, transformando o que era presencial em virtual. Nas escolas que oferecem plataformas digitais, o professor pode promover um encontro reunindo a turma. Quando isso não é possível, uma alternativa é incentivar os amigos a mandarem mensagens de carinho e amizade, ou mesmo desenhos, por WhatsApp.

Na conversa coletiva, o educador deve respeitar as falas de todas as crianças, pois cada família pode ter cultura e crença distintas. Se surgirem interpretações diferentes sobre, por exemplo, para onde a pessoa vai quando morre, pode-se dizer: “A gente não sabe ao certo o que acontece, então, as famílias têm diferentes ideias sobre isso. Qual é a sua?” E deixar que elas discutam o assunto. “A dificuldade maior em falar da morte está no adulto, não na criança. Elas conversam e daqui a pouco já estão brincando novamente”, diz Isabela.

A exibição de filmes ou a leitura de livros infantis também são recursos para abordar temas como morte e luto de maneira lúdica. Se a situação atual não permitir que o próprio professor conduza a proposta, a opção é orientar pais e responsáveis, oferecendo uma curadoria de conteúdo (aqui você encontra várias indicações de livros) e sugerindo que, depois, eles conversem com a criança ou peçam para ela desenhar o que sentiu.

Neste período de isolamento, os momentos para compartilhar sentimentos em grupo podem ser propostos mesmo sem a ocorrência de uma morte. “O professor pode perguntar qual é a parte legal de ficar em casa e o que é chato ou ruim. Isso acaba sendo uma maneira de a criança digerir e elaborar o que ela está vivendo e sentindo”, afirma Luciana Mazorra, psicóloga e psicoterapeuta, doutora em Psicologia Clínica pela Pontífica Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e co-organizadora do livro Luto na Infância: Intervenções Psicológicas em Diferentes Contextos. É uma iniciativa que considera as perdas mais gerais das crianças, uma vez que elas estão sem ver os amigos e parentes próximos, sem sair de casa e acompanhando a insegurança e a angústia dos pais e responsáveis.

Nesse sentido, o educador também pode explicar às famílias a validade de criar uma rotina dentro de casa – mesmo considerando que a nova realidade das famílias é de acúmulo de funções, com os pais ou responsáveis tendo de trabalhar, limpar a casa e cuidar sozinhos dos filhos. “Tentar manter uma rotina é importante porque ela traz um senso de organização e oferece segurança à criança”, diz Luciana.

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