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Para repensar o ano

Hora de cuidar da saúde mental dos educadores

Necessidade de encontrar novas maneiras de ensinar e incertezas em relação ao futuro têm provocado estresse em professores e gestores. Suporte passa por apoio coletivo

As mudanças provocadas pela pandemia também têm reflexo na saúde mental dos educadores. Saída é procurar apoio mútuo. Julia Coppa | NOVA ESCOLA

Era manhã de uma segunda-feira de julho quando Amélia (nome fictício), de 52 anos, precisou tomar mais uma dose de omeprazol, medicamento para alívio da gastrite. No fim de semana, a mãe de uma das crianças da sua turma de Educação Infantil – ela trabalha em uma escola particular em São Paulo – havia entrado em contato. Representando pais e responsáveis, ela contou da decisão de trocarem o WhatsApp pelo Google Meet para as aulas a distância durante a quarentena. Ambos são aplicativos de comunicação por chamadas de vídeo, mas a professora só conhecia o primeiro. Amélia escutou a mãe falar dos recursos tecnológicos da ferramenta, que permitiriam incrementar as aulas, e ficou apavorada ao pensar no que precisaria aprender. No dia seguinte, o resultado: a gastrite atacou. 

Esse é apenas um dos exemplos de como a saúde mental tem sido colocada à prova durante a quarentena. Casos de estresse, ansiedade, insônia e depressão têm sido comuns a boa parte da população em todo o mundo, que precisou mudar radicalmente seu cotidiano para lidar com a pandemia do novo coronavírus. Mas, para os professores da Educação Infantil, as mudanças doem um pouco mais: o trabalho deles estava diretamente ligado ao contato físico com as crianças, ao cuidado e ao acolhimento. A pandemia fez com que tudo isso deixasse de existir de um dia para outro – um distanciamento que já dura mais de 120 dias. Como reinventar esse contato? Como demonstrar afeto a distância? Há também as preocupações quanto ao futuro: as crianças vão voltar para a escola antes que uma vacina contra a covid-19 seja aplicada em massa? Se não voltarem, haverá emprego? E se voltarem, haverá contaminação?

“Os professores tiveram de ser colocados à prova em pouquíssimo tempo”, explica a psicóloga Débora Bicudo Faria Schützer, doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Eles são a referência de escola para as crianças da Educação Infantil, diz. “Com a quarentena, quem acolheu a saudade que os educadores sentem das crianças? E a frustração daqueles que têm de dar aulas on-line, sem nunca terem feito isso antes?”, questiona. Para os docentes das escolas públicas, um desafio adicional é fazer o conteúdo chegar às crianças, que muitas vezes não tem acesso à internet em casa.

“Muitos professores ficaram aflitos pela falta de contato com as famílias e as crianças no início da pandemia”, diz Ana Teresa Gavião, doutora em Educação e diretora da Fundação Antônio-Antonieta Cintra Gordinho, que mantém escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental e Médio em Jundiaí (SP). “As crianças da Educação Infantil são acostumadas com o cheiro, o sorriso, o aconchego que o professor proporciona. Isso não é possível na quarentena, mas tínhamos de achar um jeito de manter o vínculo”, afirma Ana Teresa.

A escola já contava com uma plataforma pelo Google Meet. O primeiro passo foi criar grupos de WhatsApp por sala de aula e orientar as famílias a lidarem com a ferramenta digital. Do total de 85 crianças da Educação Infantil, apenas cinco não tinham celular com o aplicativo de conversas instalado. “Pedimos ajuda aos pais mais engajados, para entrarmos em contato com essas famílias”, lembra Ana Teresa. A instituição levou às cinco crianças kits com brinquedos, livros, lápis e canetinha. “Nessa fase que estamos vivendo, mais do que seguir protocolos, o importante é dar colo – uns aos outros”, afirma a diretora.

Ceila Luíza Pastório, diretora pedagógica de Educação Infantil na Creche Baroneza de Limeira, em São Paulo (SP), sabe bem disso. A instituição criou encontros semanais com professores e coordenadores, para ouvi-los e acolhê-los. “Muitos choravam, tinham medo de perder o emprego, começaram a sofrer distúrbios alimentares e trocavam o dia pela noite”, conta Ceila. A escola conta com duas psicólogas voluntárias que, desde o começo do isolamento, se colocaram à disposição para um atendimento a distância. A iniciativa dos encontros aproximou os educadores. “É bacana estar em um grupo e dizer que sabe o que o outro está sentindo”, diz Ceila. Ela mesma afirma também ter dividido seus problemas com os colegas. “Em uma das reuniões, de manhã, apareci toda descabelada. Meu filho mais velho, de 13 anos, passou a sofrer de ansiedade na quarentena e tínhamos passado parte daquela noite em claro.”

Dividir o que incomoda e faz sofrer é o primeiro passo para obter alívio. A educadora Maria Cristina Ramos, de 55 anos, tem consciência disso. Há 34 anos na Educação Infantil, ela descobriu um enorme vazio em seu dia a dia sem o contato com as crianças da Escola Gente Inocente, em São Paulo (SP). “Eu não estou sabendo lidar com essa pandemia”, afirma. “Sou meio ‘carentona’, a escola é minha família”, diz Maria Cristina, que mora com a filha de 18 anos. O jeito foi manter contato via mensagens de WhatsApp com o grupo de professoras da instituição, com as crianças de suas turmas e até com aquelas que não estão mais na escola. Responsável por crianças de 2 anos e seis meses a 4 anos, ela não sabe se vai voltar às atividades presenciais em setembro. Por enquanto, o salário continua sendo pago integralmente. “Essa situação me deixou muito angustiada”, afirma a docente. “Uma tarde me peguei ao telefone com a Roseli, diretora da escola, aos prantos. Ela me acolheu e me acalmou, durante mais de meia hora de conversa. Foi muito bom" (leia aqui mais sugestões para cuidar da saúde mental). 

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