Entrevista

Sandra Caselato: “Menos tênis, mais frescobol”: a cooperação como base da Comunicação Não Violenta

A psicóloga Sandra Caselato defende que adultos e crianças colaborem para comunicar suas necessidades e evitem episódios violentos nas famílias

Por Nairim Bernardo

A psicóloga Sandra Caselato. Ilustração: Marcella Tamayo/NOVA ESCOLA

O conceito de Comunicação Não Violenta (CNV) foi criado na década de 1960 pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg. Ele trabalhava como orientador educacional em instituições de ensino que buscavam eliminar a segregação racial, até então muito presente nos Estados Unidos.

Especialista nessa abordagem, a psicóloga Sandra Caselato ressalta que algumas práticas que a Comunicação Não Violenta propõe aparecem na Educação, mas geralmente estão mais relacionadas às chamadas habilidades socioemocionais. “A CNV é um conhecimento e prática específicos”, defende. Para Sandra, parte desse conhecimento já faz parte da experiência humana e se expressa, por exemplo, por meio da empatia. É preciso, porém, estudá-lo e redescobri-lo ao longo de toda a vida. Na entrevista a seguir, ela conta como esse tipo de abordagem comunicacional pode ajudar na relação entre adultos e crianças. 

NOVA ESCOLA: O que é Comunicação Não Violenta?

Sandra Caselato: CNV é se conectar com o lugar onde somos iguais para lidar melhor com o que somos diferentes. Há algo na experiência humana que todos nós compartilhamos e é até mais fácil de perceber isso com as crianças pequenas. Um dos pilares da CNV é a teoria das necessidades humanas universais, que engloba necessidades básicas (alimento, abrigo, saúde etc.) com senso de pertencimento, amor, respeito, participação, liberdade, autonomia. Então, essas são necessidades humanas universais. Com base nisso, os pais ou educadores começam a tentar deduzir por que a criança chora, sente dor ou fome, sente-se sozinha, tem calor ou frio. Essas suposições já são um exercício de empatia. A CNV nos ajuda a identificar quais são as necessidades da outra pessoa.

Como a Comunicação Não Violenta pode ajudar na relação com as crianças de zero a 6 anos de maneira geral?

A CNV nos ajuda a lidar com sentimentos e necessidades. Por exemplo: uma criança bate em outra. Em vez de eu fazer um julgamento e achar que ela é terrível e indisciplinada, procuro entender por que ela fez isso: queria brincar com a outra, chamar atenção, a outra criança tirou o brinquedo dela... Eu vou tentando identificar o que está acontecendo com ela e ajudá-la a identificar isso também. No lugar de bater, vou incentivá-la a fazer outra coisa, como se expressar através de uma conversa. Isso também tem a ver com inteligência emocional. Conforme ficamos adultos, vamos aprendendo a lidar com alguns sentimentos, mas até os adultos não sabem lidar com muitas coisas. E as crianças aprendem vendo o modo como os pais expressam suas necessidades.

Como o adulto pode identificar o que está acontecendo com a criança?

Eu só posso supor, mas para saber preciso perguntar. Se quero ajudá-la a nomear e se perceber, ela mesma precisa dizer. Eu não devo fazer um diagnóstico, mas perguntar: você está bravo? Está chateado? Ficou triste porque queria brincar, é isso? Vou fazendo checagens empáticas. Quem vai me dizer se é ou não é aquilo é a outra pessoa. Assim, também estou ajudando-a a identificar e expressar o que se passa com ela. É um trabalho de ajudá-la a traduzir em palavras o que sente e o que precisa.

Como a CNV pode ajudar na relação com as crianças de zero a 6 anos neste período de pandemia?

Sem as aulas presenciais, o contato entre famílias está muito intenso. Racionalmente, a intenção dos pais não é essa, mas podem reproduzir com os filhos o modo como foram educados e cair em um ciclo que, às vezes, pode até levar à violência física. A CNV quer propor uma relação de harmonia, cooperação, pedir o que eu quero em vez de reclamar do que não quero. Tem um texto de Rubem Alves chamado Tênis X Frescobol. Relações que são um jogo de tênis são de ganha-perde. Às vezes, os pais só falam do que não está bom, querem mostrar que o filho está errado, dão aquela cortada do tênis. A criança também revida e eles brigam para ver quem ganha. 

A CNV propõe um relacionamento tipo jogo de frescobol: são dois jogadores, mas o objetivo não é ganhar, é cooperar. A pessoa joga a bolinha para o outro acertar e o objetivo de ambos é não deixá-la cair. Ou seja, o foco é estar mais em conexão comigo mesma para me expressar bem e ajudar as pessoas à minha volta a se expressarem também. Infelizmente, nossa sociedade nos ensina a jogar muito tênis e pouco frescobol. Ela é uma mudança de paradigma, não de ganha-perde, mas de ganha-ganha. Não é ou eu ou você, mas nós. Não é julgar, culpar, criticar, rotular, mas entender sentimento e necessidades.

Episódios de violência doméstica estão aumentando ao longo da pandemia. Quais os cuidados que educadores e professores devem ter se souberem de relatos de violência física ou psicológica nas famílias?

Sentimentos são sinais que mostram se as nossas necessidades estão ou não sendo atendidas. São como luzes e ponteiros no painel de um carro que indicam o que está faltando: respeito, consideração, amizade, pertencimento, tranquilidade. Eles podem ser desagradáveis, mas não existe sentimento ruim. Se todos se expressam, se conectam e colaboram, não chegam ao ponto de explodir. Já a violência é uma expressão trágica de necessidades não atendidas. A pessoa que a comete não está atendendo às próprias necessidades nem respeitando as pessoas à sua volta. Quando se chega a esse ponto, é sinal de que aquela família precisa de apoio para entender de onde aquilo vem e o que pode ser transformado. Mas buscar compreender as necessidades e sentimentos de todos é diferente de concordar. Há casos em que é importante, sim, intervir e denunciar.

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