FUNDAMENTAL 2

Da maquete aos custos, professor Luiz Felipe Lins leva a construção de casas para a Matemática

Inspirado na própria curiosidade dos alunos, o projeto Construção e Geometria ampara-se no trabalho em grupo e na busca coletiva por soluções

Por Dimalice Nunes

O Professor Luiz Felipe Lins, autor do projeto Geometria e Construção. Foto: Nidiacris Ribeiro/Trupe Filmes

A mudança da paisagem nos arredores da Escola Municipal Francis Hime, no bairro Taquara, na capital fluminense, virou assunto entre os estudantes do 7º ano em 2019. A construção de moradias populares na região, que poderia não passar de papo de corredor, inspirou o professor de matemática Luiz Felipe Lins a criar um novo projeto. A experiência deu certo e ele se tornou um dos vencedores do Prêmio Educador nota 10 deste ano. 

A turma, dividida em grupos, usou a construção dessas moradias na aprendizagem de matemática, com foco nas unidades temáticas de geometria e números. Entre outras tarefas, os estudantes tiveram de analisar uma planta baixa, idealizar uma casa e produzir sua maquete, além de calcular áreas e o custo para colocar o piso nos ambientes.

“Ensina-se geometria de forma hipotética, através de modelos. Quando o aluno traduz na prática aquilo que é apresentado, a aprendizagem passa a fazer sentido”, destaca Luiz Felipe, que afirma se sentir motivado ao trabalhar com alunos em etapas diferentes de aprendizagem. “Acredito que podemos avançar a partir das especificidades de cada um. Cada um é de um jeito, aprende no seu tempo, precisa ser olhado e respeitado a partir de suas individualidades, dificuldades e potencialidades”, define o professor. 

Ao considerar a escola lugar de acolhimento e respeito às habilidades individuais, o projeto de Luiz Felipe privilegia a aprendizagem horizontal, com a discussão em grupo favorecendo a troca de conhecimento. “Eu parto do princípio de que todos os meus alunos têm de aprender: não há exceções. Eles chegam com níveis de conhecimento diferentes que precisam ser considerados. Este projeto surgiu justamente de um processo de escuta, quando percebi que a construção do conjunto habitacional tinha chamado atenção dos alunos”, conta. 

Trabalho em grupo e respeito à diversidade

Foi justamente o respeito às diferentes formas de aprender e a eficiência em fazer o conhecimento circular entre os grupos que chamou atenção de Lilian Ceile, a educadora selecionadora do projeto. “O professor Luiz Felipe faz algo que, infelizmente, ainda é pouco comum: orienta o trabalho em grupo e respeita a diversidade. É um professor que divide tarefas, reconhece as diferentes habilidades,  acompanha alunos com habilidades diferentes para que assumam diferentes papéis”, resume. Outro ponto de destaque do projeto é que Luiz Felipe busca contextualizar o ensino de matemática a partir da experiência dos próprios alunos. “Ensinar de forma contextualizada ajuda os alunos a atribuírem sentido ao que estão aprendendo”, finaliza Lílian. 

O projeto Geometria e Construção ocorreu no ano passado, nas aulas presenciais. Agora, as demandas são outras. “Primeiro tive de aprender a usar a câmera: não acho o foco, fica embaçado, escuro... Se não fossem as crianças me ajudando, acredito que não estaria realizando as videoaulas”, conta o professor. Para além dos desafios pessoais, há os estruturais. Segundo Luiz Felipe, menos de 40% dos alunos conseguem acompanhar o ensino remoto. “Os pais optaram por cancelar a internet e priorizar a alimentação, o que é correto.”

O professor segue, porém, adaptando-se e inovando. Levou para os estudantes da rede pública ferramentas que conheceu lecionando na rede privada, como o Google Sala de Aula. Neste ano, na Francis Hime, ele está com turmas do 8º ano. Dentro das habilidades EF08MA10 e EF08MA11, utilizou um pudim para ensiná-los o que é um algoritmo e como se constrói um fluxograma. “Para despertar o interesse, mesmo de longe, propus que eles fizessem o mesmo: que preparassem o doce que mais gostam, filmassem e depois montassem um fluxograma para apresentar à turma. Foi sensacional”, conta. 

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Sobre o projeto que lhe deu o prêmio, Luiz Felipe diz ter aprendido que as crianças surpreendem quando estão no papel de investigadoras, de autoras do próprio conhecimento. “Meu lugar de fala é de quem está há 25 anos em sala de aula, com alunos de classes menos favorecidas em todos os sentidos, em um modelo de escola excludente, organizada por seriações sem respeitar o tempo de cada indivíduo. É o que temos para hoje, mas o dia a dia quem faz sou eu”, reflete. 

Conheça mais detalhes do projeto no passo a passo abaixo.

PROJETO GEOMETRIA E CONSTRUÇÃO

A curiosidade dos alunos pela construção de moradias traz o ensino de matemática para o cotidiano dos alunos


Escola: EM Francis Hime 

Cidade: Rio de Janeiro (RJ)

Componente currricular: Matemática

Indicado para: Turmas do 7º ano, mas pode ser adaptado para os demais anos do Fundamental 2

Materiais: Nas aulas presenciais: isopor, cola, tesoura, régua, tinta e estilete; e no ensino remoto, os materiais podem ser substituídos por sucata e embalagens que os alunos tiverem em casa.

Na BNCC: O projeto dialoga com o letramento matemático e contempla as oito competências da BNCC, em especial as habilidades EF07MA12, EF07MA21 e EF07MA31

PASSO A PASSO

1. Conhecendo um projeto imobiliário. Divida a turma em grupos e apresente um folheto de empreendimento imobiliário em que conste a planta baixa de um dos apartamentos. 

2. Mostre como desenhar a planta baixa. Esta etapa já envolve tópicos da geometria, tais como escalas, unidades de medida de comprimento e o uso de instrumentos geométricos. Se houver acesso, é possível utilizar o autoCAD para o desenho da planta baixa e estimular os estudantes a desenharem a planta de suas casas, o que pode ser interessante como exercício no ensino remoto. 

3. Questione os alunos sobre a área e os custos. Pergunte: quanto piso é necessário para revestir a casa que foi desenhada? Isso os leva ao cálculo de áreas de figuras planas e suas unidades. Na sequência, questione: qual o custo para revestir o imóvel? Estimule os alunos a fazerem pesquisa de preços do material necessário no comércio local.

PONTO DE ATENÇÃO: No ensino remoto, a pesquisa de preços pode ser feita pela internet.

4. Entrevistando profissionais da construção. Peça aos alunos que busquem em suas famílias e amigos que sejam pedreiros, arquitetos ou engenheiros que possam fazer um relato sobre seus projetos e orçar o custo com a mão de obra para a realização do trabalho. Podem perguntar, também, sobre outros materiais necessários para a colocação do piso (argamassa, rejunte, espaçador etc.). Ao ter a informação sobre o quanto de material é necessário, é possível trabalhar o conceito de proporcionalidade.

PONTO DE ATENÇÃO: Elabore em conjunto com os alunos um cronograma de planejamento com as ações a serem desenvolvidas ao longo do projeto. Ao final de cada etapa, faça uma análise conjunta dos resultados obtidos para validá-los ou não. As etapas do projeto podem ser filmadas para haver um registro a ser apresentado no final da atividade. 

5. Criando uma maquete. Cada grupo constrói a maquete da casa planejada. No ensino remoto, a construção é individual. 

PONTO DE ATENÇÃO: As dificuldades econômicas impostas pela pandemia, especialmente a alunos da rede pública, dificultam a construção da maquete no contexto remoto. Mas é possível convidar os alunos a construírem algo, mesmo em escala bem reduzida, com materiais disponíveis em casa, como papelão, caixa de ovos, massinha, tábuas etc. A família pode auxiliá-los nesse desafio.

6. Apresentação das maquetes. O modelo final de cada grupo é apresentado para toda a sala, assim como os orçamentos em planilhas e um vídeo contendo todas as etapas da criação. 

7. Sistematização. Peça aos alunos uma autoavaliação que aponte as dificuldades enfrentadas, as aprendizagens adquiridas e onde eles viram a aplicação da Matemática. Para além da aprendizagem de matemática, é importante que os alunos reflitam sobre o que foi aprendido e se apropriem do conhecimento.

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