Para aprender sobre a prática

Autoconhecimento e autocuidado: a competência geral que vem de berço

Tomar consciência do próprio corpo e das próprias emoções é um movimento que começa naturalmente na primeira infância. Mas a Educação Infantil deve potencializá-lo de maneira contínua e intencional

Por Maria Lígia Pagenotto

Ilustração de bebê sobre tapetes, almofadas e colchonete.
Ilustração: Julia Coppa/NOVA ESCOLA

Conhecer-se e cuidar de si são processos que se cruzam e dialogam. Quando o bebê tem fome, ele não sabe nomear essa sensação, por isso chora para ser atendido. Aos poucos, e com auxílio de um adulto, ele aprende a reconhecer em seu organismo como a fome se manifesta. Para se alimentar, então, já não chora, mas diz “estou com uma dorzinha na barriga” ou “estou com fome'' (caso tenha aprendido a relacionar a sensação com a palavra).

O mesmo ocorre com o sono ou com a vontade de ir ao banheiro. Para tirar a fralda e controlar as necessidades fisiológicas, é necessário entender que aquele incômodo na região do abdômen é a vontade de fazer xixi ou cocô, ou que aquele mal-estar e irritação é sinal de sono.

Na Educação Infantil, a criança tem o primeiro contato com o mundo, para além da sua família, construindo suas primeiras relações, identificando-se como pessoa, diferenciando-se dos outros. Ao longo desse período, ela vai ter muito contato no cotidiano com situações que irão exigir dela Autoconhecimento e Autocuidado: não à toa, essa é a competência geral 8 da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que deve ser desenvolvida em toda a Educação Básica, começando desde o berço.

Vládia Pires, mestre em Educação, supervisora educacional de creches e escolas de Campina Grande (PB) e consultora desta Caixa, não tem dúvida de que se conhecer é saber se cuidar. É assim que a criança vai compreendendo o que gosta ou não, o que a incomoda, o que lhe dá prazer. Entende que precisa dormir quando tem sono, por exemplo. Aprende a dizer não para o que a irrita, e sim, para o que lhe faz bem.

“A escola precisa oferecer à criança essas oportunidades, para seu desenvolvimento”, diz Vládia. O autoconhecimento leva ao autocuidado. “E ambos passam pela autonomia”, destaca Ana Yazbek, diretora pedagógica do ekoa, escola privada de Educação Infantil, localizada em São Paulo (SP). “Ir ao banheiro sozinha quando sente necessidade e levar um alimento à boca quando tem fome, por exemplo, são situações em que a criança, quando tem autonomia, consegue vivenciar por conta própria”, explica. Ou seja: ela é capaz de sair de um estado de mal-estar, como a fome, sem necessariamente precisar de um adulto.

Mas, quando não dá conta da tarefa, a criança também precisa saber reconhecer sua limitação e, nessa hora, saber pedir ajuda a um adulto. “Ter essa noção da dificuldade também faz parte do autocuidado e do autoconhecimento”, reflete Ana.

Adquirir essa  competência geral tem grande impacto na vida da criança. Do ponto de vista físico, entendendo o que se passa, ela tem a garantia de bem-estar, pois sabe que precisa comer quando sente fome e ir ao banheiro quando tem vontade, por exemplo. 

“A ideia de sentir-se capaz, de ser alguém que resolve os próprios problemas, traz satisfação e autoestima”, observa Vládia. Do ponto de vista neurológico, o aprendizado da ida ao banheiro acaba por levar a criança a controlar seus esfíncteres. “Isso pode fazer com que perceba que é capaz de se controlar em outras situações também”, explica Leda Barbosa, pedagoga da rede pública de Educação Infantil de Brasília. Fazendo analogia, ela perceberá, por exemplo, que “se consegue ficar tanto tempo sem fazer xixi, consegue ficar sentada tantas horas também”, observa Leda. Uma conquista leva a outros desafios, que podem levar a mais conquistas. 

Se essas competências são bem trabalhadas ao longo da Educação Infantil, avaliam as especialistas, a criança sai fortalecida dessa fase, pronta para enfrentar melhor o Ensino Fundamental. “Ela parte para a outra etapa sabendo respeitar seus limites e os limites dos colegas”, segundo Vládia. 

Quando os educadores trabalham em grupo com a criança o uso do banheiro, por exemplo, ela percebe que sua vontade de fazer xixi se manifesta talvez de um jeito diferente da vontade do amigo. Conversar sobre determinadas situações relacionadas a essa questão aponta para diferenças culturais importantes. “Alguns lavam as mãos após o uso do banheiro e outros, não. Se a criança percebe isso e se o professor conversa com ela sobre essas diferenças, ela entende que o mundo extrapola os limites da sua família, sua casa. Isso dá a ela a noção de que as regras que imperam na sua casa não valem para todos os lugares”, segundo Vládia.

Nesse momento, a criança aprende a elaborar suas escolhas, decidindo o que deve ou não fazer, o que quer e o que não quer. E vai entendendo também que o amigo nem sempre tem as mesmas necessidades e desejos dele. Aí aparecem com mais clareza as relações da competência 8 com os campos de experiência da BNCC de Educação Infantil, especialmente o campo O eu, o outro e o nós. Assim é que se constrói a noção de respeito, próprio e mútuo, tão necessária.

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