Para repensar a prática

O lugar da leitura na Educação Infantil

Por meio das histórias as crianças têm oportunidade de ampliar o seu olhar sobre o mundo, seu conhecimento da cultura, de si mesmo e do outro

Ilustração de meninas lendo alguns livros na janela de casa.
Ilustração inspirada no livro Da Minha Janela; de Otávio Junior (Escritor) e Vanina Starkoff (Ilustradora). Crédito: Nathalia Takeyama/NOVA ESCOLA

Quando a leitura começa, de fato, a fazer parte da vida de uma criança? Há quem pense que seja somente durante o processo de alfabetização. No entanto, muitas vezes, o letramento começa muito antes de a criança ir para a escola. Isso porque, ainda na fase intrauterina, o bebê é estimulado pelas vibrações produzidas durante uma leitura. Ou seja, ler para uma criança que ainda está na barriga da mãe é prática que ajuda no desenvolvimento infantil – o que segue acontecendo ao longo da vida. 

“A leitura deveria estar presente na educação das crianças desde antes do nascimento. O corpo da mãe, do pai, ou do adulto que cuida, é o primeiro livro que um bebê lê. Essa leitura é uma porta de entrada para o mundo, uma linguagem”, afirma Denise Guilherme, formadora de professores e curadora da rede de leitura A Taba. “É por isso que falamos muito da importância de ler para as crianças desde cedo”, acrescenta. 

Embora a leitura formal não comece até que a criança consiga juntar letras e palavras, antes mesmo desse momento ela já faz uma leitura de mundo, explica Maira Franco Tangerino, fundadora da Educação Infantil em Rede e integrante do Time de Autores de NOVA ESCOLA. “A leitura vai dar dimensão a esse espaço simbólico que está acontecendo internamente no mundo da criança e, ao passo em que vai tendo contato com essas situações em que tem que interpretar, ela vai constituindo o eu e o não-eu, vai entendendo o que é dela e o que é do mundo”, explica Maira. 

Por isso, Maria Grembecki, diretora de Conteúdo e Formação da Escola de Educadores, ressalta que a Educação Infantil tem papel fundamental na formação leitora da criança e que o universo literário precisa fazer parte do seu dia a dia, desde os bebês (zero a 6 meses) até as crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses). 

“Quando ouvem histórias, as crianças têm a possibilidade de transitar entre o universo do faz de conta e da realidade, o que alimenta e estimula a sua imaginação, sendo, portanto, fundamental para o seu desenvolvimento cognitivo e emocional. É por meio das histórias que as crianças têm oportunidade de ampliar o seu olhar sobre o mundo, ampliando seu conhecimento da cultura, de si mesmo e do outro”, explica.

A própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da Educação Infantil defende que o trabalho com a leitura se inicie desde muito cedo e faça parte do cotidiano escolar, orientação que aparece especialmente no campo de experiência Escuta, fala, pensamento e imaginação

Fomentando o comportamento leitor

Com esses pontos em mente, quais incentivos e abordagens são possíveis para promover a aproximação dos pequenos com o universo dos livros e já começar a incitar o comportamento leitor nas crianças?

Primeiro, é importante que a criança possa conviver com adultos que também sejam leitores, diz Maira Franco Tangerino. “Essa é uma situação bem importante porque é fato que, em dado momento da vida, a criança vai se aproximando desses gestos a partir dessas inspirações que vai ter nos adultos”, observa.

Outro ponto fundamental é deixar os livros acessíveis para as crianças, mas não só. Denise Guilherme diz que é preciso que haja um adulto que possa ser a ponte entre as crianças e o universo da leitura.

“É sobre fazer as práticas de leitura em voz alta, de leitura compartilhada, com as crianças desde muito cedo, e oferecer livros de diferentes gêneros. Mas também contar histórias, afinal, ler é diferente de contar. Quando estamos lendo, estamos privilegiando a linguagem escrita, usando as palavras do autor, e quando estamos contando histórias, estamos usando a linguagem oral, de modo que posso usar minhas próprias palavras para contar uma história. Essas duas modalidades são superimportantes para o desenvolvimento da linguagem das crianças”, explica.

Cleane Aparecida dos Santos, supervisora escolar do Centro Internacional de Estudos Memórias e Pesquisas da Infância (Ciempi), em Jundiaí (SP), enfatiza que, para colocar estas ações em prática, não é preciso ter “uma superbiblioteca”, já que a leitura pode acontecer em qualquer lugar da escola. 

“Mesmo não sabendo ler, já se deve oferecer às crianças diversos portadores textuais. As rodas de histórias também devem estar na jornada das crianças. Um bom acervo à disposição das crianças para manuseio, leitura compartilhada e contação de histórias podem promover o gosto pela leitura e também a postura de leitor”, observa.

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