Para repensar a escola

Ana Angélica Albano: “É preciso ter sensibilidade para entender o olhar das crianças”

Especialista fala sobre o planejamento das atividades de desenho e a importância da observação atenta do professor

Por Ana Paula Bimbati

Imagem: Caronte Design

A orientação do professor era de que a turma observasse o parque e fizesse um desenho. Uma das crianças voltou para sala e desenhou um elefante. “Está errado seu desenho”, disse um dos meninos. Mas, com olhar atento, o educador respondeu que não há certo ou errado. 

Para Ana Angélica Albano, professora livre-docente da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que assistiu a essa situação em uma aula, a sensibilidade do professor chamou atenção. “O educador acolheu e ouviu o que aquela criança estava comunicando.” 

Ana explica que, quando aparece um “rabisco” ou algo inusitado durante a atividade de desenho, o professor precisa compreender esse olhar diferente da criança sobre o mundo. Em entrevista concedida a NOVA ESCOLA por telefone, ela aponta caminhos para fazer isso no dia a dia.

NOVA ESCOLA: Nas atividades de desenho, parece que basta oferecer os materiais para que as crianças aprimorem os rabiscos. Qual é a relevância de planejar bem esses momentos na Educação Infantil?

ANA ANGÉLICA ALBANO: Em primeiro lugar, o professor precisa acreditar que o desenho é uma linguagem. Isso é mais importante do que o planejamento em si. Desenhar é valioso, não porque vai desenvolver uma coordenação motora (ela vem com a prática), mas sim porque é através do desenho que as crianças estão se comunicando. 

Como o desenho ajuda no desenvolvimento da criança? 

Novamente, a gente primeiro precisa entender que não se promove o desenho para desenvolver a coordenação motora. O objetivo principal é possibilitar a expressão de ideias, sentimentos, sonhos e o registro de vivências. Existe uma ideia na Educação Infantil de que "eu faço tudo com arte, porque tudo que eu faço as crianças desenham", mas não é bem assim. O desenho pode ser importante para registrar se a criança entendeu aquela atividade, como quando você conta uma história e pede para desenhar para ver como ela entendeu, por exemplo.

Além do registro, o desenho é instrumento de comunicação do sujeito que desenha com o mundo em que ele vive e com o mundo interno da criança.

Em uma reportagem no site de NOVA ESCOLA, você contou que, certa vez, comprou um rolo de papel pardo para a sua neta com a expectativa de oferecer um bom espaço de desenho, mas, inicialmente, ela só quis brincar com o furo do rolo. Situações como essa podem levar os professores a acreditarem que o planejamento não deu certo. Como você enxerga essas situações em que algo não sai como o esperado?

Eu queria voltar nessa expressão "não deu certo", porque é isso que explorava com meus alunos da licenciatura. Eles diziam “fiz um planejamento que não deu certo". Eu perguntava por que não deu certo, e eles diziam: "Eu esperava que as crianças fizessem ‘x’, mas elas fizeram ‘y’". Então eu dizia: “Deu certo, só que a resposta foi outra”. 

Poderia dizer que a atividade com o rolo de papel que ofereci para a minha neta não deu certo, mas deu. Eu é que tenho que entender para onde o olhar dela estava se dirigindo. O principal é observar para onde está indo o olhar da criança. Se o meu objetivo é que ela explore o espaço, eu preciso entender que espaço ela explorou. Minha neta não explorou o que eu imaginei, que era o papel na sua extensão. 

No meu livro Conversa com Jovens Professores de Arte, conto a experiência de uma aula que assisti de um professor, onde ele pediu para que as crianças andassem pelo parque, escolhessem um lugar e tentassem desenhá-lo. Um menino desenhou um elefante. Obviamente, não havia um elefante no parque. Uma das crianças até falou que o colega errou, e o professor disse “não, na arte não tem certo ou errado”. 

A questão é ter a sensibilidade de olhar para onde a criança está olhando. Por isso, é  importante ao final da aula fazer uma roda e comentar a atividade para você compreender até onde eles entenderam, até onde não entenderam, ou se entenderam de outro jeito a atividade e você nem percebeu.

Qual é o papel do professor em uma atividade de desenho?

O papel do professor é superimportante. Por exemplo: quando o professor fala para as crianças fazerem um desenho livre e vira as costas para a turma, não é uma atividade de desenho livre, é desenho abandonado. Porque quem desenha está querendo dizer alguma coisa para alguém, é um discurso endereçado a uma pessoa ou a muitas. 

É o professor quem vai mostrar que outras pessoas desenham de outros jeitos, que os artistas desenharam de modos diferentes ao longo do tempo para dizer coisas diferentes, ou para dizer a mesma coisa de jeitos diferentes.

Qual olhar o professor precisa ter para considerar o “tempo da criança”?

O tempo do desenho é o tempo do discurso daquela criança. Eu costumo dizer que o que precisa mudar na escola não é o espaço, não é o currículo, mas a grande mudança é o tempo. A gente está atropelando a infância. Acho que vai ser interessante agora pensar que vai sobreviver a essa crise quem souber lidar com o tempo.



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