Fundamental 2

De Castro Alves a Racionais, Lidiane Lima usa poesia para resgatar ancestralidade negra

Professora de Língua Portuguesa na EMEF Anna Pedreira dá voz aos alunos e oferece ferramentas para a construção da identidade negra

Por Dimalice Nunes

Para Lidiane Lima, professora da EMEF Anna Silveira Pedreira, a escola é lugar para se permitir sonhar. Foto: Nidiacris Ribeiro/TrupeFilmes

Em 2015, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo divulgou que cerca de 230 mil alunos da rede não declararam sua cor. Para Lidiane da Silva Lima, professora de Língua Portuguesa da EMEF Anna Silveira Pedreira, no Jardim Novo Santo Amaro, na capital paulista, isso era mais do que estatística: apontava para a dificuldade de aceitação da identidade racial. Esse foi o ponto de partida para colocar seus alunos, em maioria identificados como não brancos, como protagonistas de suas aprendizagens e mudar o olhar dos estudantes para sua própria ancestralidade. 

No projeto Eu Posso Ser Poeta!, um dos dez vencedores do Prêmio Educador Nota 10, Lidiane usou a poesia para voltar o olhar de estudantes do 6º ao 9º ano para a herança africana. O projeto selecionado foi desenvolvido ao longo de 2019 - neste ano, por conta da covid-19 e das dificuldades no contexto brasileiro para atuar de forma remota, só foram aceitas inscrições de projetos produzidos no ano anterior. 

Inicialmente, a professora lia poemas que desconstroem o imaginário sobre o continente africano, contava a história de resistência do povo negro escravizado e falava da identidade dos negros nos dias de hoje. A escolha do repertório foi de Solano Trindade ou Castro Alves a Racionais MCs, aproximando os alunos da poesia.

Após cada leitura, os alunos expressavam sua compreensão do conteúdo da maneira que quisessem, usando de dança a reflexões. Lidiane também convidou autores negros, jovens e periféricos para compartilhar experiências.

Da vivência em sala de aula, os estudantes organizaram o Sarau Heranças Afro, escrevendo e reescrevendo poemas, debatendo traços de estilo dos diversos gêneros poéticos e refletindo sobre suas conexões com a identidade e as relações de poder. Além de se apresentarem em outras escolas da região, a produção dos alunos virou o livro Eu Posso ser Poeta!

Segundo Lidiane, nas várias atividades que compõem o projeto, os alunos puderam desenvolver competências ligadas à linguagem, compreendendo-a como fenômeno histórico, social e cultural. “Eles também puderam usar a linguagem para ampliar suas possibilidades de participar da cultura letrada com autonomia e protagonismo, contribuindo para a construção do conhecimento”, resume a professora.

O êxito de Lidiane em envolver os alunos no estudo de poesia, com desdobramentos de aprendizagens que extravasaram as questões próprias da Língua Portuguesa, chamou atenção dos selecionadores do Educador Nota 10, que lhe concederam o prêmio. “Um grande mérito do trabalho da professora Lidiane é dar sentido para a leitura e a escrita de poesias, o que levou os alunos a um engajamento genuíno na atividade”, afirma o educador e selecionador Rafael Palomino. 

A poesia foi um dos gêneros em destaque da mais recente pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em setembro. Livros de poesia foram lidos por 20% dos alunos de Fundamental 2 no último ano, ficando atrás apenas da Bíblia e de contos na preferência dos estudantes.

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Ainda segundo Rafael, o projeto destaca-se por partir de questões legítimas para os alunos, com inquietações que remetem à sua condição social e à herança africana. “Muitos estudantes hesitavam em assumir-se negros. Este é um assunto difícil de ser abordado em todo o seu significado intelectual e emocional. A poesia, porém, permitiu à professora tocar nesses pontos sensíveis. E é justamente isso o que permite ao texto poético cumprir seu papel formativo”, conclui. 

Fora da escola

Desigualdade e exclusão são questões cotidianas para Lidiane, mas o que já existia antes da pandemia se acentuou, determinando quem pode dar continuidade aos estudos a distância e quem terá o ensino comprometido. Segundo a professora, a maioria de seus estudantes encontra-se no segundo grupo, carentes de recursos digitais para acessarem a plataforma Classroom (aplicativo disponibilizado pela prefeitura de São Paulo para professores e estudantes). “A escola pública perde seu princípio democrático e inclusivo e passa a ser seletiva e excludente”, afirma. 

Ainda assim, Lidiane não desistiu e transferiu para as telas atividades antes presenciais. Apesar da angústia com a exclusão da maioria, Lidiane seguiu trabalhando o Eu Posso Ser Poeta! “Fazemos competição on-line de poesia falada (Slam) pelo Google Meet, além de interações pelo WhatsApp”, conta. A falta de acesso à tecnologia, no entanto, é evidente. Do grupo de 26 alunos do projeto, 12 têm acesso à internet, doq quais três de modo não contínuo. “Eles têm de se deslocar para participarem das aulas. Sempre me emocionava quando, ao abrir a câmera, percebia esses estudantes em locais públicos, ou mesmo encolhidos num canto do quintal tentando captar uma rede de wi-fi alheia. Um misto de alegria e tristeza. As aulas foram desenvolvidas em dois meses, o que não garantiu a presença deles em todos os encontros. Mas sempre os atualizava depois, pelo WhatsApp.”

O senso de urgência em ensinar e engajar seus alunos mantém o entusiasmo de Lidiane: “Escola não é lugar para ter os pés no chão, como constantemente ouço. É lugar de tirar os pés do chão, permitir-se sonhar e contagiar a todos na busca por uma educação transformadora, envolvente e divertida”, conclui. 

Conheça mais detalhes sobre o projeto no passo a passo abaixo.

PROJETO - EU POSSO SER POETA!

Contato com a obra de autores negros estimula a criação dos alunos, que passam a reconhecer e valorizar suas próprias identidades


Escola: EMEF Anna Silveira Pedreira

Cidade: São Paulo (SP) 

Componente curricular: Língua Portuguesa

Indicado para: Turmas do 6º ao 9º

Na BNCC: EF69LP44,  EF69LP48, EF69LP49 e EF69LP51


PASSO A PASSO

1. Estruture as aulas em três grandes blocos temáticos: No primeiro, o foco é revisitar o passado histórico das populações negras a fim de desconstruir o imaginário criado sobre o continente africano. No segundo bloco, trabalhe as formas encontradas pela população negra para a recriar sua identidade e relações de pertencimento na diáspora e o não sucumbir ao sistema escravista. No terceiro, desenvolva os temas atrelados à questão da identidade, perpassando assuntos ligados à estética e à cultura negras.

PONTO DE ATENÇÃO: Estimule o registro das atividades. Com os celulares é possível criar material audiovisual, como videopoemas. No projeto da professora Lidiane, o material foi usado em um documentário sobre racismo e, posteriormente, na divulgação do projeto. Tudo editado no celular, pelos próprios alunos.

2. Além da leitura, estimule a escrita de poemas: Após as exposições e reflexões teóricas, é hora de fazer a transição de leitores de poemas para também escritores de poemas, mantendo a relação interseccional entre esses dois campos, ler e escrever. 

3. Trabalhe o pertencimento e convide escritores: Promova oficinas e eventos para receber escritores da região onde a escola atua, esse pertencimento é importante. Uma sugestão é que esses escritores realizem oficinas de escrita para a fim de compartilhar as diversas técnicas que envolvem o fazer poético.

4. Busque uma forma de concretizar o trabalho realizado: No caso da professora Lidiane, o trabalho dos alunos foi reunido no livro Eu Posso Ser Poeta! Mas é possível fazer uma compilação nas redes sociais, por exemplo.   

Adaptação para o ensino remoto 

Durante a pandemia, a professora Lidiane apostou na continuidade do projeto no ensino remoto ao longo de 2020. Ela aproveitou estratégias já usadas nas aulas presenciais, como convidar a poetisa e slammer Jéssica Campos para participar da primeira aula e entusiasmar os alunos, e conectou as aulas com temas da atualidade, como a violência policial e o racismo expressos no assassinato de João Pedro - adolescente negro baleado em maio no Rio de Janeiro - e de  George Floyd, nos Estados Unidos, bem como a onda de protestos antirracistas no mundo. 

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