Fundamental 2

Como a professora Camila Rossato trouxe as artes do corpo para dentro da escola

Desenvolvido em 2019 na EMEF Prof. Marina Melander Coutinho, projeto trabalhou com performance e arte contemporânea com as turmas do 9º ano

Professora de Artes da EMEF Prof. Marina Melander Coutinho, em São Paulo (SP), Camila Rossato estimulou o pensamento crítico sobre temas contemporâneos e a descoberta de meios surpreendentes de expressão corporal. Foto: Nidiacris Ribeiro/Trupe Filmes

Camila Nunes Rossato, de 36 anos, prefere o desconforto. Em sala, isso significa optar por atividades que envolvam desafios também para ela. “Gosto de propor aos alunos coisas que me causam algum incômodo ou que eu não tenha domínio. Assim, podemos fazer descobertas juntos”, afirma a professora de Artes da EMEF Prof. Marina Melander Coutinho, em São Paulo (SP), uma das vencedoras do Prêmio Educador Nota 10 de 2020. 

Essa postura está na origem do projeto vitorioso, realizado em 2019, no qual suas três turmas de 9º ano desenvolveram pesquisas utilizando o corpo como forma de expressão. “Eu tinha uma cisma com performance, porque considerava ela uma linguagem muito voltada para o próprio artista e que dialoga pouco com o público”, relembra. Para colocar à prova esta impressão inicial, lá foi a educadora investigar com os estudantes as possibilidades dessa linguagem.  

Em 2020, em plena pandemia, essa disposição para atuar fora da zona de conforto acabou sendo uma vantagem para Camila, uma vez que, como todos os professores, precisou rever a própria prática e refazer planejamentos considerando o contexto das aulas a distância. “Foi bem interessante e me colocou em um lugar de experimentação importante. Mas não posso deixar de olhar para as desigualdades e diferenças de oportunidades dos alunos”, avalia. Segundo a docente, em suas turmas, a adesão às atividades em casa foi baixa porque muitas das famílias têm pouco, ou nenhum, acesso à internet. 

Mesmo com uma realidade adversa, Camila conseguiu desenvolver com os estudantes reflexões sobre a vida em São Paulo e o papel da arte como forma de expressão, em produções com recursos variados: texto, vídeo, poesia, desenho etc. Mas o trabalho teve de ser finalizado em 31 de agosto, por uma ótima causa: o nascimento, no dia seguinte, de Miguel, seu primeiro filho. 

Olhar inclusivo e respeito à diversidade 

Abordar arte contemporânea quebrando com a ideia de arte apenas como objeto artístico – que usa materiais palpáveis – é um dos diferenciais do projeto de Camila, que centrou a proposta na utilização do corpo como instrumento de trabalho. “Essa imaterialidade da arte tratada como conteúdo a ser ensinado não é fácil de planejar, desenvolver com sentido e avaliar”, afirma Valéria Pimentel, selecionadora de Arte do Prêmio Educador Nota 10 e coordenadora pedagógica, orientadora educacional e assessora da área de Artes da Escola Verde que te quero verde, em São Vicente, no litoral de São Paulo. 

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Iniciar o projeto com a perspectiva de também aprender, como dito lá em cima por Camila, não quer dizer falta de planejamento. A professora preparou uma trajetória em que os estudantes vivenciaram as etapas de apreciação, produção, reflexão e avaliação. Também tiveram um embasamento teórico, primeiro com estudo e compreensão de artistas performáticos e, depois, com referenciais específicos. “Analisar as demandas poéticas de cada grupo mostra o respeito pela diversidade e um olhar inclusivo e igualitário das ideias dos alunos”, enfatiza Valéria. Os registros por escrito das reflexões impressionaram a selecionadora. “As turmas puderam pensar sobre o antes, o durante e o depois do processo artístico”, diz. 

Conduzir esse percurso com adolescentes não é fácil, uma vez que, em geral, eles têm muita vergonha do corpo e se preocupam com o que os outros irão pensar deles. Camila conseguiu engajamento ao criar um ambiente de confiança, no qual as colocações dos alunos eram consideradas. “Quando você tem uma professora que banca as ideias dos estudantes, eles se sentem amparados e se envolvem”, avalia Valéria. O ritmo de produção, em tempos diferentes, também foi respeitado. Assim, a educadora estimulou a autonomia de criação dos grupos, se colocando não como quem conduz a produção, apontando para onde quer que ela vá, mas como quem está junto na dúvida e na descoberta. “É preciso estar disponível para realizar um processo de escuta. O objetivo é fazer com que os estudantes se enxerguem como produtores de arte. Isso faz com que eles se sintam valorizados e ganhem autoestima”, explica Camila. 

Depois de investigar e experimentar as possibilidades da performance com suas turmas, a cisma inicial foi embora e Camila, hoje, vê o potencial dessa linguagem, que levou seus alunos a pensarem criticamente sobre temas e cenários contemporâneos e descobrirem meios surpreendentes de expressão corporal. 

Para compreender em detalhes o projeto e, quem sabe, se inspirar nele, você encontra abaixo todos os passos percorridos por Camila. Confira:

PROJETO - CORPO PERFORMÁTICO - IMAGENS E PALAVRAS 

Faça da performance um meio para refletir temas da atualidade


Componente curricular: Artes 

Indicado para: 9º ano 

Materiais necessários: Alunos precisam de acesso aos diversos espaços da escola, celulares que serão usados para registrar (áudio, foto ou vídeo) as atividades e blocos ou cadernos de anotações (para as autoavaliações escritas). 

Materiais complementares:
- Videoperformance de Marco Paulo Rolla, disponível no canal do próprio artista no YouTube
- Entrevista com Eleonora Fabião, gravada em 2016, na TV Brasil
- 50 fatos sobre Marina Abramovic, disponível no canal Vivieuvi, no YouTube
- Artigo sobre Marina Abramovic

NA BNCC: EF09A06, EF09A07, EF09A21, EF09A22 e EF09A23 


PASSO A PASSO 

1. Contextualize o tema: Convide os alunos a refletirem sobre as possibilidades de exploração do corpo como forma de expressão. Para isso, Camila mostrou produções de turmas de 9º ano de anos anteriores, nas quais os estudantes faziam experiências inspiradas em obras de artistas que trabalham com o não convencional, como a videoperformance Café da Manhã, de Marco Paulo Rolla. 

Com essas primeiras referências em mente, proponha a atividade Imagem Que Acessamos, na qual os alunos registram por escrito o que chama atenção deles em séries, filmes, canais de vídeos, redes sociais e outros meios acessados rotineiramente. Sugira a eles associarem palavras-chave às imagens destacadas. A ideia é conhecer o repertório visual das turmas. 

2. Converse sobre as anotações e avance no conceito de performance: Peça que compartilhem os registros da atividade anterior e estimule-os a debaterem. Elenque palavras-chave de temas e pontos em comum e anote relações possíveis e falas de destaque. Para ampliar o entendimento sobre performance, mostre referências. Camila utilizou textos do capítulo sobre performance do livro Projeto Mosaico, do 6º ano – material didático adotado pela escola – para discutir arte, vida e cotidiano e como esta linguagem artística contemporânea explora os limites entre eles e faz o espectador refletir. 

3. Proponha a exploração da relação corpo e espaço: Com as classes divididas em grupos de seis a dez alunos, convide as turmas a elaborarem uma situação na qual devem trabalhar o movimento (ou o uso) do corpo em situações que fujam do cotidiano escolar e utilizem espaços fora da sala de aula. Peça para registrarem o processo criativo em desenhos, vídeo, áudio ou fotografia. E também para, ao final da ação, fazerem uma autoavaliação individual e por escrito, na qual analisem quatro pontos: ideia (da proposta), trajeto, questões artísticas e reflexões. "Aqui, o objetivo é levar os jovens a pensarem: 'O quanto eu entendo o que fiz como potência e linguagem da arte e também como vejo esse processo sem comparar com o outro, mas olhando para o meu trajeto'", explica Camila. Deixe os estudantes escolherem entre propor para o outro o exercício com o corpo – e, assim, se colocarem como provocadores e observadores – ou se inserirem diretamente na performance. Não há tema preestabelecido. 

Inspirados nas discussões anteriores, as turmas de Camila criaram diversas situações: 

 - Um dos grupos fez uma penteadeira itinerante, colocada em vários locais (pátio, secretaria etc.), e na qual as pessoas da comunidade escolar foram convidadas a olhar o espelho e responder às perguntas disparadoras (O que você vê? O que eu vejo?);

- Levada a uma sala, a pessoa tinha os olhos vendados e ouvia diversos sons (tiros, batimentos cardíacos, gritos, choro, brigas etc.). O grupo registrava as reações; 

- Jogo de escolha de palavras. A pessoa tinha diante de si filipetas com palavras como delicadeza, fragilidade, sentimentos, família, sofrimento, afetos, sensibilidade, perdão, lágrimas, paciência etc. Primeiro, ela deveria separar as três com as quais mais se identificava e contar o porquê. Depois, três que eliminaria e, por último, comentar a razão por não ter utilizado as demais opções.  

Durante a atividade, circule entre os grupos, acompanhando e mediando o desenvolvimento das ações. 

4. Debata a primeira experiência e aprofunde o estudo sobre performance: Peça aos estudantes para compartilharem as experiências, os registros e as reflexões em torno das propostas realizadas. Estimule a discussão sobre o potencial artístico do que foi feito e proponha o aprofundamento do estudo sobre performance por meio da análise dos signos dessa linguagem, especialmente em relação à presença do corpo do artista. Para isso, Camila levou para a sala vídeos com entrevistas e artigos sobre duas artistas já citadas no livro didático: a brasileira Eleonora Fabião e a sérvia Marina Abramovic. A turma avaliou em detalhes os trabalhos “Converso sobre qualquer assunto”, de Eleonora, e “A casa com vista para o mar”, de Marina.  

5. Defina os temas de pesquisa: Debata com a turma temas de interesse para nortear o estudo sobre performance e proponha investigações sobre os assuntos escolhidos. “O importante é alimentar e enriquecer a produção dos alunos, pois ninguém cria do nada”, afirma Valéria. 

Na escola de Camila, os alunos do 9º ano desenvolvem o chamado Trabalho Colaborativo Autoral (TCA) – presente no currículo da rede municipal de São Paulo –, um projeto de pesquisa sobre um tema que tenha relevância social e reverbere na comunidade. Cada grupo é acompanhado por um professor-orientador e pode escolher o tema e o formato do projeto (produção escrita, audiovisual etc.). Camila, então, propôs às turmas interligarem o TCA e as aulas de Arte, desafiando os alunos a refletirem como usar a ideia de corpo, performance e expressão dentro das pesquisas. Ela questionou: como a gente trabalha o assunto escolhido em performance? Será que conseguimos encontrar um artista que desenvolva ações relacionadas a esse tema e que possa servir de inspiração para criarmos nossa própria performance

Entre os temas de pesquisa definidos pelos grupos, estavam: depressão na adolescência, abandono paterno, legalização do aborto, o poder da mente, diferentes formas de preconceito, ditadura militar, apropriação cultural e racismo estrutural, feminicídio na atualidade, saúde pública/SUS, vencedores da periferia e falta de ética na internet e ciberbullying.  

6. Proponha a criação de performances: Com os temas definidos e o entendimento sobre performance mais consolidado, convide os grupos a elaborarem situações em que o enfoque esteja na presença do corpo do performer. Incentive-os a ocuparem os diversos espaços da escola. Sugira que façam um roteiro de ação por escrito, com informações sobre o que será feito, onde, com que recursos etc. Outro instrumento que pode ser indicado é o mapa visual. “Eles já conheciam a estrutura dos mapas mentais, utilizados nas aulas de História. Mas como estamos falando de arte, falei que estavam livres para usar recursos como músicas, poemas etc. A ideia central era ajudá-los a visualizarem, e organizarem, o que estavam aprendendo”, explica Camila. Os alunos devem registrar as ações em fotos ou vídeos e, depois, realizarem uma autoavaliação individual e por escrito, nos moldes da anterior. 

Neste ponto, o ritmo de cada grupo pode ser variado. Nas turmas de Camila, alguns iam para a parte prática mais rapidamente, outros demoravam mais no planejamento. Para quem acabava primeiro, a sugestão da professora era para que aprofundassem a própria ideia, elaborando e executando novas situações dentro do tema escolhido. Ou para ajudarem os demais, assumindo, por exemplo, a filmagem ou a fotografia das ações. 

7. Analise as ações realizadas e amplie as referências: Como na dinâmica anterior, os alunos devem compartilhar as experiências e avaliações. Agora, o objetivo é analisar o quanto cada trabalho está dando conta do conceito de performance. Sugira aos estudantes buscarem referências, de linguagens artísticas diversas, para inspirá-los a fazer ajustes ou acréscimos nas ações. E apresente materiais específicos para cada grupo com a ideia de ampliar o repertório deles. No caso de Camila, ela levou para os grupos músicas de Emicida (sobre racismo), vídeo com leitura das cartas do pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890) para seu irmão Theo (depressão na adolescência), o documentário Todos Nós, Cinco Milhões (abandono paterno), obras do artista plástico belga René Magritte (1898-1967) (diferentes formas de preconceito), vídeos dos Festivais da Canção da década de 1960 e da performance ocupação da estilista brasileira Zuzu Angel (1921-1976) (ditadura), Sarau da Cooperifa (vencedores da periferia) e trabalhos da fotógrafa estadunidense Cindy Sherman (SUS), entre outros. 

8. Mantenha um olhar atento às demandas dos alunos: Acompanhe atentamente as ações dos estudantes e veja se é necessária alguma intervenção ou proposta específica. No caso de Camila, ela percebeu os resultados positivos de jogos de improviso e de respiração realizados pelo grupo cujo tema era saúde pública. Isso porque uma das integrantes estudava teatro e tinha acesso a essas práticas. A professora, então, resolveu levar os exercícios para todos nas turmas. “Acho importante a intuição no trabalho e, ao observar, senti que podia ser também uma necessidade dos demais”, justifica. 

9. Incentive a criação de novas performances e proponha uma avaliação final: Conforme os grupos assimilem as referências específicas, estimule-os a reverem ou prepararem novas performances. Mais uma vez, cada um seguindo o próprio ritmo. E sempre com registros das ações em fotos ou vídeos. Ao final do percurso, permita que todos façam avaliações finais coletivas, por meio de rodas de conversa, e individuais (escritas).

10. Estimule o compartilhamento dos trabalhos com a comunidade: Como último desafio, proponha uma atividade de curadoria. Peça aos estudantes para pensarem em como atrair o público para as realizações feitas ao longo do ano. Eles devem refletir, por exemplo, como apresentar o trabalho para quem não assistiu à performance ao vivo e verá apenas os registros dela. Ou seja, como criar uma narrativa para as pessoas compreenderem a obra. Sugira que explorem recursos visuais e digitais, como cartazes, fotografias e vídeos.

INCLUSÃO: Nas turmas de Camila, duas estudantes com deficiência intelectual participaram de todo o projeto. Ambas puderam expressar suas impressões durante o processo – uma tinha facilidade em escrever e, com a outra, a professora foi a escriba – e atuaram nas atividades coletivas, contribuindo de acordo com suas possibilidades.

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