1958-2020

Aguinaldo Marinho, o professor que levava a alma encantadora das ruas a seus alunos

Ele era uma referência em Goiana pelo carinho e pelo companheirismo com os estudantes e por ensinar História nas avenidas, praças e igrejas centenárias da cidade

Aguinaldo chegou a produzir um documentário sobre a história de Goiana com os alunos. Ilustração: Marcella Tamayo/NOVA ESCOLA

Todo mês a expedição se repetia. Antes das 8 da manhã, uns 50 jovens partiam da Escola Estadual Benigno Pessoa de Araujo e serpenteavam pelo centro de Goiana (município localizado na região metropolitana do Recife, em Pernambuco), entre praças homenageando militares, avenidas com nomes de políticos e igrejas centenárias - marcos que, sozinhos, perdidos no cotidiano da cidade, nada diziam. Mas à frente ia o professor Aguinaldo Marinho. Então o show era garantido: em cada ponto ele parava e gesticulava, sua voz tonitruante explicando (de cor e com paixão) o passado e o presente do lugar. Era assim que ruas e praças, igrejas e monumentos ganhavam vida, como se contassem, eles mesmos, sua história.

“Era abrir aquele vozeirão para todos olharem curiosos”, conta o professor Lamonier, que dividia com ele as turmas de saída de campo. De repente, o tal Duque de Caxias que nomeava a praça “ganhava vida”, diz o colega. O monarquista virava um homem de carne osso, com feitos e defeitos. “Para alguns era um herói, mas ele matou foi muita gente na Guerra do Paraguai”, dizia Aguinaldo. Era “O Pacificador”, mas também, “O Duque de Ferro”. Ao professor importava ensinar a história de forma crítica, dando nome aos bois. Por que havia igrejas com nomes parecidos na cidade, como a Matriz de Nossa Senhora dos Rosários dos Homens Brancos e, a metros dali, a da Nossa Senhora dos Rosários dos Homens Pretos

Uma foi erguida no século XVI para os senhores de engenho, a outra no século XIX para os escravizados. E os marcos estavam ali, no caminho do dia a dia, à espera de Aguinaldo. Assim, mercantilismo, Brasil Colônia, senhores de engenho, escravidão - qualquer tema ficava mais interessante. Para o professor, o local merecia contexto histórico maior; o global devia ser entendido a partir da cidade; e a história, quando possível (e o era sempre), devia ser ensinada onde se dá: nas ruas. “Às vezes a gente foca tanto na história do mundo, do país, que se esquece da cidade onde vive”, reflete Andreia da Silva, vice-diretora da escola. 

Não Aguinaldo. “Ele conhecia Goiana como a palma da mão: cada prédio, cada monumento, cada rua. Quando contava o que havia acontecido ali, era como se você voltasse no tempo e visse os personagens vivendo. Ele tinha algo que os livros não traziam.” Aguinaldo também dava aulas na faculdade e participava do projeto “Paredes que Contam a História”, que salpicou em muros, paredes e esquinas da cidade plaquinhas de azulejo com nacos de narrativas históricas da cidade, do estado e do país. “Era um apaixonado pela história, sabia fazer os alunos se apaixonarem por ela”, conta Andreia. “Eu mesmo aprendi com ele”, diz Lamonier. “E também a ser professor. A não parar no livro didático, a fazer pontes, a imaginar. Ele abria a mente da gente com a própria realidade.”

A sua, nunca esqueceu: Aguinaldo nasceu pobre e se fez na vida aos pouquinhos. Foi em Aliança, norte de Pernambuco, onde os pais tinham um roçado, que cresceu com os irmãos. Labutou na roça e cortando carne no açougue com o pai - trabalho pesado que não o impedia de estudar na escolinha local e se destacar. “Ele se orgulhava de ter saído da roça, de uma vida de dificuldades, e ter passado em sexto lugar no concurso para professor”, explica a filha Raquel Marinho. Aguinaldo graduou-se em história, fez pós-graduação em filosofia. “O sonho dele era ser advogado”, diz a filha. Mas havia a faculdade das meninas para bancar, as preocupações da idade... e o sonho ficou no passado. Mas sem remorsos: afinal, ele tinha os alunos. “Ele amava aqueles alunos!”

Às vezes, ele ia para a escola fora do horário de serviço só para conversar com eles, lembra a filha. Ia até na casa deles para conhecer os pais. Se um aluno vendia ou usava drogas, ele não o preteria. “Ao contrário, ele se aproximava, aprendia as gírias e tudo”, diz Lamounier. A filha concorda. “Ele sempre tentou entender a realidade deles. Ele se importava com eles de verdade.” O mesmo se dava com os alunos evangélicos: quando se reuniam num canto para ler passagens da Bíblia, o professor se sentava com eles, lia junto. “Até os hinos cantava”, comenta o colega. A um deles doou um terno: assim o rapaz pôde frequentar o culto. “Por isso os alunos gostavam dele a ponto de abraçá-lo e dizer que o amavam. Ele os tratava como filhos. E eles o chamavam de Pai.” 

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Um dia Andreia, gestora pedagógica da escola, ficou preocupada com tanta paternidade: “Bom dia, pai”, dizia um aluno. “Tchau, pai”, dizia outro. Até que ela entendeu: o professor chamava os alunos de pai. Os alunos repetiam o apelido como prova de afeto. Respeitavam-no porque se sentiam respeitados. Marinho fazia saídas, usava filmes, contava histórias - mas, acima de tudo, sabia ouvir. “Ele se importava de verdade com a gente”, diz a aluna Thaisa Gomes. “Ele parava a aula pra dar conselhos pras nossas vidas, ensinava com exemplos que a gente entendia. Tudo ficava mais fácil, mais iluminado com a presença dele.”

Foi com os alunos que Aguinaldo produziu um documentário sobre a história da cidade: era o fruto mais visível das visitas de campo. Quando ficou pronto, foi mostrar a Andreia. Ela lembra com emoção. “O filme passava na tela, mas eu via era o rosto dele, ele chorava vendo o trabalho dos alunos. Vai ser difícil substituir o conjunto da obra que era o professor Aguinaldo. Mas ele deixou um legado. Por causa dele, a forma de ensinar, aqui, mudou.”

Mesmo alguém tão dedicado amava seus hobbies: ver muitos - muitos - filmes históricos, preparar o churrasquinho de domingo, curtir a praia com as filhas e ganhar a indefectível partida de dominó na pracinha perto de casa. Ali a vida escorria calma, o papo corria solto, “O Professor” contando seus causos para ouvidos atentos. Aguinaldo só perdia a calma ao falar de política. Se alguém defendia governantes falastrões, acabava ouvindo bons minutos de explanação. “Daí ficava com a cara vermelha, inchada, indignado”, comenta o colega. 

Até que o papo da praça foi tomado pela pandemia do novo coronavírus e Aguinaldo ficou com medo, lendo sem parar sobre a evolução trágica da covid-19 pelo mundo. “Essa pandemia veio para matar os velhinhos”, dizia. Aguinaldo adoeceu logo que ela chegou ao país. Poucos dias depois, estava internado. Um dia olhou para Raquel e disse: “Filha, tive um sonho. Minha mãe vinha me buscar, para ficar perto dela”. Faleceu em 29 de março, de complicações da covid-19.

Ao saber da notícia da morte, os alunos encheram a vice-diretora de mensagens: queriam ir ao velório, ao enterro, algo impossível em tempos pandêmicos. “Sua aula era o que alegrava as manhãs de quarta-feira deles”, explica Andreia. Mais do que agradecer pelo aprendizado da história, eles queriam agradecer o afeto. Entre as mensagens, tinha uma que traduz a saudade deixada por um professor que ensina algo além da matéria: “Quando chegar na escola, quem vai dizer que me ama? Quem vai ouvir os meus problemas?” 


O texto acima integra a edição especial de Nova Escola Box "Vida, saudade e legado: os educadores que partiram em 2020". Durante o mês de outubro, vamos contar a história de dez grandes educadores e funcionários que inspiraram alunos, colegas e cidades ao longo de suas vidas, interrompidas, infelizmente, pela covid-19. É nossa forma de dizer "muito obrigado" pelas lições deixadas dentro e fora da sala de aula e lembrar aos que seguem a vocação de lecionar o poder transformador da Educação para tantos brasileiros, muitos deles em luto por perdas humanas inestimáveis. 

Confira também no box "Vida, saudade e legado: os educadores que partiram em 2020"

14/10 - Em suas aulas, Saulo Basílio guardava e transmitia a cultura do povo indígena terena

Créditos deste Box

Reportagem: Willian Vieira
Produção: Marcelo Valadares
Edição: Miguel Martins e Pedro Annunciato

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