1949-2020

As lições de Matemática e de superação de Valter Paulino, que pode virar nome de escola

Sua história pessoal e a postura de nunca desistir dos alunos levou colegas da EMEF no CEU Parque Anhanguera a pedirem que a unidade seja batizada em homenagem ao docente

O professor tinha orgulho de falar de sua infância difícil e de como superou as adversidades. Ilustração: Marcella Tamayo/NOVA ESCOLA

Certa manhã, durante uma pesquisa no laboratório de informática, os alunos da EMEF do CEU Parque Anhanguera, em São Paulo, toparam com o currículo do professor de matemática Valter Paulino Estevam. “E foi chocante, eram mais de três páginas”, diz Suelen de Almeida, 15 anos, sua aluna do sexto ao oitavo ano. “Eu vi e pensei: ‘Gente do céu, que superação!’ Alguém que viveu tanta necessidade, que se duvidar até passou fome, chegar aonde ele chegou apenas estudando... pra mim foi um exemplo de vida.” Era exatamente essa a mensagem que o professor Valter queria passar.  

“Ele tinha um prazer imenso em contar a trajetória dele pra quem quisesse ouvir”, conta a viúva, Cleonice Estevam. Valter nasceu na Penha, zona leste de São Paulo, numa família pobre em que o pai, pedreiro, e a mãe, doméstica, o incentivavam a estudar. “Estuda, estuda pra ser alguém na vida”, ela dizia. Enquanto ia à escola, o pequeno Valter trabalhava como ajudante de pedreiro nas obras que o pai fazia e catava latinhas para ajudar no sustento da família. Eram tempos difíceis aqueles anos 1950. Mas perseverou. Aos 14 anos virou jovem aprendiz numa metalúrgica - na Carteira de Trabalho constam altura e peso: 1,50 metro de altura e 41 quilos. “Era uma criança ainda e já trabalhava pesado”, reflete Cleonice. 

Anos depois, Valter teria 1,78 metro e mais de 90 quilos. “Não teve infância, começou a trabalhar muito cedo, mas nunca reclamava: ao contrário, tinha orgulho de ter estudado, batalhado e se feito na vida.” Os alunos o sabiam. “Nunca escondeu a origem humilde dele, nem da gente nem dele mesmo”, comenta Kátia Cilene de Moraes, que trabalhou com o professor por 11 anos, desde a fundação da EMEF no CEU Parque Anhanguera. Ao contrário. Valter oferecia aos estudantes - e queria ter certeza de que a agarrariam - a chance que ele teve. “Não era porque o aluno vinha da periferia ou estava na escola pública que não poderia alcançar seus sonhos, seu melhor potencial, era assim que ele pensava e agia.” 

Valter foi metalúrgico por 13 anos - nos últimos quatro, trabalhava de dia e cursava matemática de noite. Com a faculdade concluída, passou a dar aulas em escolas - no Sesi, no estado, no município. Lecionou ainda em duas faculdades - numa das quais uma aluna de matemática lhe chamou a atenção. Era 1988 - e era Cleonice, com quem namoraria já em 1989 e viveria junto desde então. Ela desistiu do curso e se formou em Geografia, disciplina que ensina ainda hoje na escola pública. Mas dele, Valter, jamais desistiu. 

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De 1996 a 2008 teve ainda um cursinho pré-vestibular a preços populares na Penha. “A gente cobrava uma mixaria, mas muitos alunos ingressaram em boas faculdades por causa dele.” Em 2009, passou a dar aulas no CEU. “Foi um começo difícil”, relembra. “No primeiro ano faltava até giz e a gente tirava dinheiro do bolso pra fazer as cópias pra usar na sala de aula. E a escola recebeu os alunos considerados difíceis das outras unidades da região.” Mas Valter nunca desistiu. Quando o conheceu, “ele parecia uma pessoa muito, muito séria, sisuda mesmo, fechado”, comenta Cilene. “Mas, com o passar do tempo, foi se revelando um grande amigo brincalhão.” Quem via o professor Valter chegando na escola com o cenho franzido e a altivez de quem está ali para cumprir uma séria missão jamais imaginaria que por dentro era um bufão. 

“Na hora de explicar a lição era sério. Mas depois fazia piada, contava umas histórias que a gente fingia que acreditava, era uma aula maravilhosa”, diz a ex-aluna Suelen. Cilene conta que, volta e meia, aparecia na porta da sala dela um aluno esbaforido com um bilhete em mãos. “O professor Valter mandou.” Ia abrir e era um rabisco. Valter trancava as professoras no banheiro, escondia suas bolsas, o riso era garantido. Uma dia elas se vingaram. “Ele nunca gostou do PT” - algo curioso para um ex-metalúrgico -, “então imprimimos vários adesivos e cobrimos o carro com a sigla vermelha e fotos dele com a Dilma e o Lula. Ele ficou possesso, mas riu muito.” 

Sempre foi um professor que exigia dos alunos seu máximo. Cobrava lições feitas - todas - na data. “Matemática só se aprende fazendo”, era um de seus lemas. “Então quando eu pegava a sala depois de uma aula dele, o quadro estava sempre cheio de exercícios para os alunos fazerem”, diz Cilene. “Eu começava a chamada e eles ainda estavam terminando de anotar a lição.” Suelen lembra bem dessa faceta do professor. “Ele cobrava muito, muito mesmo, sobretudo a lição, que pra ele era algo sagrado. Mas ele podia, porque ensinava bem pra caramba.”

Que os alunos se afeiçoassem tanto a um professor de matemática, disciplina complicada para a maioria, e que exigia tanto esforço em lições sem fim era um paradoxo fácil de explicar. “Muitos ex-alunos, quando frequentavam o CEU anos depois de formados, vinham logo atrás dele”, explica diretora da escola, Adriana Rodrigues. “Cadê o professor Valter? E sabe por quê? Porque a gente lembra sempre de quem nunca desistiu da gente.” Suelen concorda. “Se alguém não fazia, ele dizia: ‘Isso é caso de polícia!’ Brigava, era até engraçado. Mas se a gente chegasse fora do horário pra pedir ajuda com os deveres, ele sempre ajudava. Sempre estava lá pra gente.” 

De tarde ainda recebia 10, 15 alunos de escolas particulares, como o Colégio Rio Branco, para aulas de reforço em matemática. Eram na área da churrasqueira, que adaptou com lousas, cadeiras e mesas, como uma pequena sala de aula. “As indicações continuavam chegando”, diz a viúva. “Porque ele dava aula brincando, então eles prestavam atenção e acabavam aprendendo. Os ex-alunos, que hoje lecionam em boas faculdades, sempre diziam: quem não aprendesse matemática com o Valter não aprenderia com mais ninguém.” 

“Ele trazia a educação na alma”, resume Cilene. “Lecionava como se estivesse meditando e saía da sala como se nada tivesse acontecido” - como se não tivesse enfrentado um exército de adolescentes, eles mesmos lutando contra os monstros dos números inteiros e os fantasmas da álgebra e da geometria. Mas a pandemia de covid-19 pôs fim abrupto a 42 anos de vida docente. Valter morreu em 23 de maio de 2020. Mas seu legado seguiu os seus passos. 

Tamanha foi a marca deixada pelo professor no CEU, cujo legado ajudou a criar do zero, que os professores se juntaram no conselho para demandar que a escola fosse rebatizada, agora com seu nome. Um vereador conhecido escreveu um projeto de lei, hoje em tramitação na Câmara Municipal de São Paulo. Mas todos têm certeza de que as aulas presenciais hão de voltar na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Doutor Valter Paulino.

Na justificativa do projeto de Lei 01-00447/2020, está escrito: “Saiu de catador de latinhas para um professor de matemática renomado e muito querido por todos.” Mais que palavras num pedaço de papel, a trajetória de Valter ganha vida na vida dos alunos. “Eu detestava matemática, e foi ele quem me fez gostar”, diz Suelen. Hoje ela navega tão bem entre os números e fórmulas que pretende cursar informática na faculdade. “Ou mesmo matemática. Por causa dele.”


O texto acima integra a edição especial de Nova Escola Box "Vida, saudade e legado: os educadores que partiram em 2020". Durante o mês de outubro, vamos contar a história de dez grandes educadores e funcionários que inspiraram alunos, colegas e cidades ao longo de suas vidas, interrompidas, infelizmente, pela covid-19. É nossa forma de dizer "muito obrigado" pelas lições deixadas dentro e fora da sala de aula e lembrar aos que seguem a vocação de lecionar o poder transformador da Educação para tantos brasileiros, muitos deles em luto por perdas humanas inestimáveis. 

Confira os textos que já publicamos

16/10 - "Rodrigo Braga, o professor de Biologia que lutou para conscientizar sua escola do risco da pandemia"
15/10 - “Gosto do que faço, amo meus alunos”: a paixão da professora Maria Aparecida pela escola
14/10 - Em suas aulas, Saulo Basílio guardava e transmitia a cultura do povo indígena terena
08/10 - Aguinaldo Marinho, o professor que levava a alma encantadora das ruas a seus alunos

Créditos deste Box

Reportagem: Willian Vieira
Produção: Marcelo Valadares
Edição: Miguel Martins e Pedro Annunciato

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