PARA REPENSAR A PRÁTICA

Argumentação: como desenvolver a competência geral da BNCC nas aulas de Fundamental 1

O bom trabalho pede análise de exemplos, pesquisa de informações e espaço para escrita e exposição oral em todos os componentes curriculares

Ilustração abstrata de balão de fala sendo costurado por linha e agulha.
Ilustração: Julia Coppa/NOVA ESCOLA

Argumentar deveria virar moda, tendência, mania, febre, objeto de desejo na escola. Porque é uma das dez competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Ou seja, é uma competência transdisciplinar, deve permear cada um dos componentes curriculares, das habilidades e das aprendizagens essenciais especificadas no documento.  

Ao estudar o texto do documento que diz respeito aos anos iniciais do Ensino Fundamental, encontramos a questão da argumentação com força nas habilidades relacionadas à Língua Portuguesa (EF04LP11, EF05LP15, EF35LP15, EF05LP18, EF05LP19 e EF05LP20). 

De fato, a disciplina tem por excelência relação com o desenvolvimento da capacidade dos alunos de argumentarem. Mas isso só funciona bem se o trabalho for realizado para além dos gêneros textuais, ou seja, usando-os a serviço da argumentação e não o contrário. “Os gêneros devem ser usados como meios - e não como fins em si mesmos - para se aprender”, esclarece Patrícia Diaz, diretora de desenvolvimento educacional da Comunidade Educativa CEDAC. 

Em outras palavras, quer dizer que escrever cartas de opinião, resenhas críticas, cartas de reclamação têm de ter um propósito comunicativo real - afinal, como argumentar com qualidade e propriedade se não há razão para fazê-lo? Ademais, para escrever, é preciso pesquisar, buscar fontes seguras antes para se informar sobre o assunto com propriedade, buscando os chamados argumentos de autoridade, de acordo com Anna Helena Altenfelder, pedagoga e presidente do CENPEC Educação e ex-coordenadora da Olimpíada de Língua Portuguesa - Escrevendo o Futuro. 

É preciso ainda dedicar-se à análise de notícias, reportagens e outros textos para conhecer como são construídos e identificar neles os bons argumentos e aqueles superficiais e equivocados. Flávia Vivaldi, doutora em Educação e pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) também destaca o uso de filmes, desenhos e entrevistas pertinentes ao público infantil para aguçar o faro da turma. Ao conversar sobre o conteúdo desses produtos, é valioso perguntar para os estudantes como determinado personagem ou pessoa se saiu ao responder a tal pergunta, se buscou exemplos concretos, reais, citou a origem das informações que apresentou, se recorreu a evidências ou se apenas emitiu opiniões próprias, exemplo.

A roda de leitura é outra ferramenta que pode ser usada a serviço do desenvolvimento da argumentação. A criançada precisa ser impulsionada a fazer mais do que responder se gostou ou não do livro. Patrícia diz que vale perguntar sobre personagens e pedir que busquem no texto o que comprova a resposta, para que, assim, os estudantes possam argumentar a respeito. Na contramão, fuja do esquema “professor-pergunta-alunos-respondem”. “O ideal é que as crianças possam se expressar individualmente: uma fala, outra concorda, outra discorda e justifica os motivos, outra apresenta argumentos para contestar a informação de mais um colega e por aí vai”, diz Patrícia. 

Argumentar em todo lugar: Matemática, Ciências... 

Não é porque a argumentação quase não aparece nos textos das habilidades de outros componentes curriculares nos anos iniciais do Ensino Fundamental é que essa competência deva ser deixada de lado. Lembre-se: ela é transversal. “No planejamento, é preciso pensar no que fazer para que os estudantes se sintam estimulados ao ser questionados”, reflete Patrícia. 

Tradicionalmente, não é muito comum que os alunos argumentem em Matemática, por exemplo. Oras, o que interessa é o resultado, certo? Errado! Erros e percursos são ótimos para a turma elaborar argumentos para explicarem, para si mesmos e para os colegas o que aconteceu, as decisões tomadas. “Para contar o que pensei, defender o que fiz, tenho de organizar e explicitar meu pensamento, o que é ótima prática argumentativa”, fala Patrícia. 

Em Ciências, mais do que receber informações, os estudantes têm de levantar hipóteses, discutir para resolver situações-problema, fazer registros de experimentos. Ou seja, serem levados a trabalhar como os cientistas fazem, seguindo o procedimento científico. E, conforme explica Patrícia, o fazer científico depende da argumentação entre pares: hipóteses e descobertas de uns são questionadas ou apoiadas por outros e isso é um estímulo para reafirmações e correções de rumo, e descobertas, é claro. 

Caminhos como esses, principalmente baseados em situações-problema, valem para os outros componentes porque tiram o aluno de uma posição passiva e o colocam para ser dono do percurso e com voz ativa, fazendo do professor um facilitador. “Debates bem-sucedidos são aqueles em que não se busca uma resposta, uma verdade. O bom debate acontece quando o discurso tem colocações bem fundamentadas... Pode até terminar com questionamentos”, explica Patrícia. 

O espaço para argumentar desde a Educação Infantil

O convívio entre os pequenos da creche e da Pré-Escola não só pode como deve ser um tempo embrionário para que, com o passar do tempo e o avanço na escolaridade, eles tenham capacidade de se expressar com um discurso fundamentado. 

Está na BNCC, na síntese de aprendizagens do campo de experiências Escuta, fala, pensamento e imaginação: “Argumentar e relatar fatos oralmente, em sequência temporal e causal, organizando e adequando sua fala ao contexto em que é produzida”. Ou seja, espera-se que as crianças da Educação Infantil, ao fazerem a transição para o Ensino Fundamental, sejam capazes de usar recursos de argumentação nessa nova etapa de sua vida escolar. 

Desde a creche, situações de conflito abrem espaço para o saber ouvir, o que falar, como falar. Participar de escolhas, ter e manifestar preferências também contribui para que a individualidade seja alvo de desenvolvimento desde muito cedo e para que o espaço para falar de forma respeitosa seja, de fato, um direito. 

“Evidentemente, a partir dos 4 anos as crianças têm mais condições de ter um comportamento ativo, argumentando sobre o livro que querem ler e sobre o que fazer quando um colega morde o outro, por exemplo”, conta Patrícia.

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