Para refletir sobre a prática

Isolamento ajudou a valorizar a brincadeira no Fundamental 1

No ensino remoto, necessidade de engajar a turma abriu mais espaço para planejar atividades lúdicas, que aguçam a vontade de saber e impulsionam o desenvolvimento intelectual e afetivo

Ilustração de crianças com brinquedos em mãos se dirigindo à escola.
Ilustração: Nathália Takeyama/NOVA ESCOLA

O momento é de estresse, de sofrimento, da falta do toque e de não estar junto. O professor tem uma sensação de impotência e as crianças, justamente nessa etapa dos anos iniciais do Ensino Fundamental, estariam estreitando suas relações sociais, as trocas de ideias, conquistando confiança e autonomia e avançando na aprendizagem. Tudo prejudicado com a interrupção das aulas presenciais por causa da pandemia do novo coronavírus. A preocupação, para além das lacunas de aprendizagem, é de que crianças e adolescentes percam o vínculo com a escola e a vontade de adquirir novos conhecimentos. Diante dessa situação, o lúdico e a brincadeira, mais do que um direito de aprendizagem, revalorizam-se como estratégia. 

“Não há dúvida, do ponto de vista científico, de que o brincar é estruturante para o desenvolvimento intelectual e afetivo. E, no cenário atual, é ainda mais necessário”, comenta Flávia Vivaldi, integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), com pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo ela, o que vivemos a partir de março de 2020 ajudou a despertar os profissionais da educação para as habilidades socioemocionais, pois sentiram na prática que era preciso acolher o aluno em sua integralidade e contemplar momentos de expressão de sentimentos. Essas habilidades precisam ser cuidadas para que a aprendizagem se efetive. “O interesse, a vontade, a concentração e o desejo são parte da dimensão afetiva, que impulsiona a cognitiva”, explica Flávia.  

Até o 3º ano, quando acontece a etapa de alfabetização, a criança é próxima da mãe, da família e da professora e o espaço do lúdico ainda é bastante preservado; a partir do 4º ano começa o relacionamento com os colegas e a necessidade de aceitação e os conteúdos formais roubam o tempo do brincar. Mas não precisa ser assim, basta que os professores recorram a jogos pedagógicos, que trabalham com os alunos questões curriculares. Além deles, os jogos lúdicos são bons para estimular habilidades como raciocínio, memória e concentração. Muitos deles podem ser jogados em família, em uma convivência que o isolamento fortaleceu. “A brincadeira desenvolve habilidades físicas, cognitivas, afetivas, sociais, morais, orientação espacial e temporal. Ela é fundamental antes e durante o Fundamental 1”, comenta Wagner Antonio Jr., mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), pesquisador de jogos e NTICs (Novas tecnologias de informação e comunicação) e diretor de formação da Secretaria Municipal da Educação de Bauru (SP). 

Planejamento cuidadoso e objetivos claros 

Para que as aprendizagens se concretizem, no entanto, é preciso estabelecer objetivos pedagógicos bem definidos. “Às vezes, o professor sobrecarrega os alunos do 4º e do 5º ano e depois acaba caindo no jogo apenas para divertir, para dar um descanso para a turma”, conta Elisa Greenhalgh Vilalta, professora autora e mentora no projeto planos de aula alinhados à BNCC de NOVA ESCOLA, que dá aulas no ensino básico público e privado de Maceió (AL). Segundo a professora Elisa, há uma gama de jogos conhecidos que podem ser adaptados para que os alunos avancem no aprendizado. 

Assim como qualquer outro recurso, o uso de jogos de regras exige planejamento cuidadoso. Se antes era preciso conhecer bem a turma, hoje é primordial compreender a realidade dos estudantes em casa. “Não posso propor um jogo supertecnológico, que envolve plataforma, sem saber se o aluno tem internet”, aponta. A distância, é preciso bolar opções de materiais, mostrar as regras com clareza e também prever como coletar evidências de aprendizagem ao final da partida ou atividade (veja o detalhamento das etapas de planejamento aqui). 

Mais escasso, o tempo escolar levou à flexibilização curricular na maioria dos municípios ao longo da pandemia. Aproveitar com qualidade o horário disponível e ampliar o engajamento com as atividades remotas também são bons motivos para recorrer aos jogos. Para participar ativamente, o aluno precisa lançar mão de estratégia, interpretação, planejamento, colaboração, interação e também respeitar regras e autorregular sua conduta – elementos essenciais para a socialização e que contribuem para o avanço escolar. Segundo Flávia, do Gepem, jogos e brincadeiras são capazes de colocar o sujeito no centro da aprendizagem, gerando prazer e desafio, alimentando a autoconfiança e levando a êxitos silenciosos. Propostas mais lúdicas no ensino podem ser capazes de manter ou resgatar o vínculo da criança com a escola. “Competências e habilidades estão descritas na BNCC há anos, mas a pandemia escancarou essa necessidade de mudança na prática, mostrando que as abordagens pedagógicas que coloquem foco nos processos de construção de conhecimento são mais efetivas. Depois dela, a educação não pode voltar para o mesmo lugar”, acredita.

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