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Educação Física remota: será que dá jogo?

Confira algumas respostas para dúvidas comuns dos professores da área quando o assunto é trabalhar o corpo de forma remota ou híbrida

Ilustração abstrata de atletas olímpicos dos esportes esgrima e ginástica artística, com as palavras amizade e excelência escritas ao fundo.
Ilustração: Paola (Papoulas Douradas)/NOVA ESCOLA

Não dá para dizer que foi fácil para os professores adaptarem o ensino, que sempre foi presencial na Educação Básica, para o ambiente virtual. Além de vencerem o obstáculo de dominar a tecnologia necessária, foi preciso repensar a dinâmica das aulas, que deixaram de ter a troca do contato real e incluíram o como aprender ao observar o colega fazer e a construção do saber da interação espontânea. No caso da Educação Física, então, a dificuldade é ainda maior. Afinal, como trabalhar elementos próprios desse componente curricular – como os movimentos corporais, as experimentações, os aspectos colaborativos envolvendo jogos e brincadeiras, além das práticas esportivas coletivas – sem o contato físico e o espaço ampliado? A seguir, NOVA ESCOLA esclarece algumas dessas dúvidas sobre o que o educador precisa levar em conta ao fazer seu planejamento para as aulas a distância. 

Dá para trabalhar com o corpo de maneira remota? Como?

Sim, mesmo não sendo o ideal. Para isso, é preciso ter clareza das aprendizagens que se quer desenvolver e fazer um planejamento, levando em conta as especificidades dessa situação. Por exemplo, em uma aula sobre atletismo, como são os movimentos realizados pelas modalidades praticadas e de que forma eles podem ser experimentados em um local confinado, como as residências dos alunos? Posso, por exemplo, simular um arremesso sem usar um peso – como estudar o gesto de um atleta, visto por vídeo, e repeti-lo? É possível valer-se de objetos de casa para reproduzir uma corrida de obstáculos?

Que cuidados tomar ao fazer o planejamento de aula realizada a distância?

Antes de qualquer coisa, vale lembrar que a Educação Física escolar não se restringe a mexer o corpo. Isso é uma visão reducionista da área. Claro que o trabalho corporal é extremamente importante, mas é preciso haver intencionalidade por trás das propostas e ampliar as aprendizagens para além dos movimentos, alinhando conhecimento a esse trabalho. “É um erro pensar em atividades motoras descontextualizadas e pontuais, pautadas no ativismo, como arremessar bolinhas em baldes. O fazer e o compreender – como conhecer a origem e a cultura envolvida na prática escolhida como foco de estudo – caminham juntos”, explica Marcos Santos Mourão, professor do Espaço Ekoa e selecionador do Prêmio Educador Nota 10.

Em que as especificidades do ambiente virtual podem contribuir para as aprendizagens em Educação Física?

O acesso às informações é muito maior, com os estudantes podendo consumir isso por diversos formatos disponíveis na internet: textos, vídeos e desenhos táticos, entre outros. “A cultura digital, que é competência da BNCC a ser desenvolvida, vai além do domínio das ferramentas. Esta promove novas formas de pensar e ver o mundo. Para isso é preciso o contato com todas essas linguagens”, afirma Tereza Perez, diretora-presidente da Comunidade Educativa Cedac.

A história, as variantes e as características regionais relacionadas ao eixo ou à temática trabalhada – seja um jogo, um esporte, uma brincadeira ou uma dança – podem ser exploradas de maneira aprofundada. Também é possível mostrar um movimento em câmera lenta, por exemplo, para que a turma possa observá-lo atentamente ou gravar os gestos dos alunos para que eles tomem consciência do que estão fazendo e possam aprimorá-los. “Percebo que a meninada passou a refletir mais sobre os movimentos, pois, antes, a aula de Educação Física era a hora em que as crianças queriam gastar energia, então faziam as propostas sem pensar muito. Agora, elas conseguem ter mais atenção para isso”, comenta Marcos.

É possível trabalhar esportes coletivos remotamente?

Nem todos os aspectos dessa categoria de esportes são replicáveis sem o contato presencial com os colegas, como o fato de precisar visualizar os companheiros em quadra, posicionados em locais diferentes, e pensar rapidamente para quem passar a bola. Porém, dá para trabalhar determinados movimentos e experimentações, além de outros elementos dessas modalidades, como as estratégias, as regras e a noção de espaço – lado, frente e trás.

Jogos virtuais, como os que simulam o jogo de futebol, podem ser aliados neste momento?

Sim, mas eles também são limitados em comparação com o ambiente real. Afinal, para além da parte corporal em si, até mesmo a maneira como se enxerga o jogo é diferente: de uma perspectiva frontal, quando se está jogando em quadra, para uma visão aérea, como é no caso de um videogame. 

Como os protocolos de prevenção de covid-19 impactam o planejamento e a dinâmica das aulas presenciais?

Cada escola ou rede de ensino adota determinados protocolos para minimizar a transmissão do vírus, como distanciamento físico e limitação de pessoas em um mesmo espaço. Então, possivelmente serão necessárias adaptações do planejamento para este momento. Pensando em um esporte coletivo, como o futebol, uma forma de trabalhar em quadra mantendo o distanciamento é fazer como se fosse um jogo de pebolim, com cada aluno fixo em um lugar. Também é necessário organizar o tempo para que haja momentos de higienização das mãos antes e depois das atividades.

O que mais é preciso levar em conta na retomada das aulas presenciais?

É necessário resgatar vivências que muitas crianças não passaram por estarem confinadas. “Poucos alunos meus tiveram contato com o ato de quicar bola, por exemplo, durante todo o período de isolamento. Então, não tem como darmos um desafio para a turma que envolva bater a bola, correr e fugir do adversário ao mesmo tempo. Tem de haver um momento para, primeiramente, relembrar determinados aprendizados”, conta Marcos. O educador ainda chama atenção para como os protocolos de controle pandêmico afetam também a relação das crianças entre elas. “O corpo da outra pessoa virou um perigo, pois não pode ser tocado, não podemos nos aproximar muito. De repente, o afeto passou a ser ameaçador. Eu já estou pensando em planejamentos que visem restabelecer a confiança no outro, com propostas feitas em duplas, por exemplo, envolvendo a troca entre eles, como pularem de mãos dadas e passarem um objeto entre eles”, completa Marcos.

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