Para repensar a prática

Como apoiar a saúde mental das crianças na volta às escolas

No retorno, muitos estudantes têm apresentado dificuldades relacionadas ao medo da pandemia, à resistência ao convívio em grupo e à perda de familiares. Saiba como fazer de sua escola um espaço de acolhimento e desenvolvimento socioemocional e leve o tema para suas aulas

Fotomontagem de alunos em sala de aula com uma carteira vazia, demonstrando uma silhueta amarela no local.
Crédito: Duda Oliva/NOVA ESCOLA. Fotografia: Getty Images.

Desde agosto, escolas e redes de ensino do país passaram a retomar cada vez mais as atividades presenciais. Diferentemente do retorno pós-recesso de outros anos, este momento tem envolvido desafios extras para alunos, professores e gestores escolares. 

Após mais de um ano de atividades remotas, é hora de reorganizar o calendário e criar uma nova rotina escolar. Isso envolve a atenção da escola, tanto aos conteúdos da grade curricular quanto ao acolhimento das crianças e adultos impactados em diferentes graus pela pandemia. A saúde mental, aliás, é tema em alta neste mês com o Setembro Amarelo, campanha anual organizada por governos e sociedade para refletir sobre o estado emocional das pessoas e a prevenção ao suicídio.  

Algumas escolas já sentiram as mudanças de comportamento entre as crianças dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Por exemplo: muitos conflitos físicos, medo do retorno, desinteresse pelas aulas, irritabilidade, dificuldade na interação social e de compreensão do espaço escolar, além do luto. 

“As crianças têm trazido questões diversas para a escola: estão com medo de se contaminar, não sabem mais se 'portar' em sala de aula, estão sentindo a falta de pessoas que morreram no núcleo familiar ou mesmo do convívio na escola”, afirma Mariana Tavares, psicóloga e mestre em Educação. 

“O desenvolvimento socioemocional das crianças ficou estacionado, por isso a escola não pode ter a expectativa de receber o mesmo aluno de antes da pandemia”, analisa Adriana de Melo Ramos, membro do Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral - Unicamp/Unesp) e integrante da consultoria Convivere Mais. Para a especialista, trata-se de um período de adaptação que exige atenção importante, especialmente para a faixa etária dos 6 aos 10 anos. “Diante de todas as questões negativas da pandemia, é preciso reforçar o entendimento da escola como lugar mais sensível, de cooperação, de respeito, generoso, justo e sensível ao outro.”

Mapeamento de dificuldades emocionais

Adriana destaca a importância de as instituições se dedicarem a compreender os problemas deste momento de retomada, com um mapeamento dos conflitos em detalhes para separar aqueles que demandam ações pontuais, causados pelas dificuldades da volta da convivência com o grupo escolar, de outros mais profundos, ligados às mudanças drásticas particulares, tais como perda de familiares, doença, divórcio e desemprego dos pais, entre outros. 

Com esse diagnóstico, é possível partir para a ação com um trabalho conjunto entre gestores e professores, atuando nos âmbitos coletivo e individual.

Para Mariana Tavares, é importante que a escola estruture um espaço planejado de acolhida para apoiar os alunos de forma constante, ou seja, que se estenda para além deste momento de retomada. “Isso exige uma organização da escola e não só do professor. Este, aliás, precisa estar preparado para acolher essas crianças. Por isso, também deve ser amparado com orientações e grupo de apoio”, analisa. Para os gestores, é importante lembrar que integrantes da equipe também podem estar em conflito com a volta ao trabalho presencial e o luto, por exemplo.

Luto

Mesmo indiretamente, a morte atingiu a todos na pandemia. É um tema tão sensível agora que precisa deixar de ser tabu para ser conversado, discutido e compreendido na escola, na avaliação dos especialistas consultados por NOVA ESCOLA. 

Independentemente dos seus significados – que devem ser explicados pelas famílias, de acordo com suas crenças religiosas –, a morte precisa ser compreendida pelas crianças de Anos Iniciais, com apoio de linguagem adequada e as estratégias lúdicas. “Como a gente volta e age como se nada tivesse acontecido?”, alerta Mariana, que lembra que é por volta dos 7-8 anos que as crianças entendem a finitude da vida. “Fingir que nada aconteceu não é um caminho. Não é psicologizar a escola, mas compreender as crianças como seres completos”, avalia Adriana.

Para Dulcinéia Finotti Ferreira, psicóloga clínica que faz orientações a professores e pais em escolas públicas, como a creche Baroneza de Limeira, na capital paulista, os adultos precisam deixar a ansiedade de lado e tratar o tema de forma mais natural e espontânea – como as crianças, aliás, já o fazem. “É importante trabalhar a morte sem direcionar. As crianças conseguem, sozinhas, fazer a conexão entre mortes de animais e de pessoas, por exemplo. É importante, no entanto, trabalhar as emoções para apoiar a compreensão da morte.”

Como as crianças podem ter problemas para lidar com a frustração, a escola pode ajudá-las a assimilarem melhor a raiva e o medo, e assim, desenvolverem recursos próprios de autocontrole emocional. “Proporcionar brincadeiras para extravasar sentimentos é uma boa opção”, avalia Dulcinéia. “Atividades em grupo também ajudam os alunos que precisam ser reintegrados, precisam voltar a se relacionar”, sugere Mariana. 

A circunstância atual também desperta o sentido de cooperação e de empatia. “A dor do outro nos fortalece, já que a nossa capacidade empática é acionada. Isso já acontecia em situações de catástrofes naturais, por exemplo, e na pandemia não é diferente.”

Como trabalhar saúde mental e luto em suas aulas

Em sala de aula, a BNCC pode servir de apoio aos professores na hora de abordar muitos dos temas que geram as atuais dificuldades emocionais ou de adaptação dos alunos no retorno à escola. 

É importante lembrar de duas competências gerais da Educação Básica que estão presentes no documento e são bastante pertinentes para a saúde mental: Autoconhecimento e Autocuidado e Empatia e Cooperação

Além disso, é possível tratar desses temas ao trabalhar habilidades da BNCC de diferentes componentes curriculares, como Língua Portuguesa, História e Ciências. Confira abaixo algumas sugestões de atividade elaboradas com a ajuda de integrantes do Time de Autores de NOVA ESCOLA para este Box:

Atividade de História: Contando a trajetória de pessoas que se foram recentemente

Atividade de Língua Portuguesa: O diário como forma de lidar com o isolamento e as perdas familiares

Atividade de Ciências: Use situações frequentes na pandemia para trabalhar empatia e afetividade

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