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Cerrado: Como trabalhar as queimadas com as turmas

Um dos biomas brasileiros mais devastados, o Cerrado também é atingido por incêndios neste ano. Saiba como abordar o assunto em Ciências, Geografia e Matemática

Ao menos 41 mil focos de incêndio atingiram o Cerrado brasileiro até setembro de 2020. Fotos: Pedro Ventura /Agencia Brasilia /Fabio Rodrigues Pozzebom /Agencia Brasil

No Cerrado, as queimadas são naturais. Todo ano tem e é sempre a mesma coisa. É provável que você já tenha ouvido alguém dizer isso no período de seca e altas temperaturas no Brasil, não é mesmo? Porém, até que ponto essa afirmação está correta? 

Assim como no Pantanal e na Amazônia, as queimadas têm destruído grandes áreas do Cerrado, segundo maior bioma da América do Sul. Até agosto, foram pouco mais de 24 mil focos de incêndio nas regiões de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal, encobertas pelo bioma. Até 21 de setembro, esse número havia saltado para 41.720, representando um crescimento de 72% em cerca de um mês. Os dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

“A quantidade de incêndios que temos visto no Cerrado não é um processo natural. Por isso, temos de tomar cuidado ao afirmar o contrário disso”, alerta Leandro Holanda. Educador e especialista em Ciências, ele explica que há espécies que já são adaptadas ao fogo, como árvores que possuem camadas mais espessas que ajudam a conservá-las diante de incêndios, mas isso não “naturaliza” as queimadas.

Um processo natural, segundo Leandro, ocorre, por exemplo, quando raios ocasionam pequenos incêndios. “O Cerrado tem uma adaptabilidade mais rápida ao fogo em relação aos outros biomas, mas a quantidade é que torna esse processo não natural porque, com uma larga área queimada, é muito provável que o poder de recuperação não seja o mesmo, apesar de ser um bioma que lida melhor com isso”, explica o professor, que é mestre em Ciências pela USP. 

Sem mata fechada, o Cerrado é um dos biomas mais devastados do Brasil, de acordo com Murilo Vogt Rossi, especialista em Geografia e Cartografia. “Cerca de 80% desse bioma está destruído e é difícil definir o que é pior nessa história. É lá onde as nascentes, principalmente da face sul do rio Amazonas, estão concentradas: na Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, e na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, que são terrenos antigos e desgastados”, pontua. 

Apesar de ser resistente ao fogo, a situação do bioma agrava-se no período de seca, como o de agora. Juntam-se a isso os incêndios criminosos que ocorrem, na maioria das vezes, em nome do agronegócio, para transformar as áreas em pasto. “Isso vai acarretar em grandes incêndios e trará esse choque para que essas áreas sejam ocupadas, inclusive áreas de parques protegidos, afinal temos algumas políticas hoje que querem transformar reservas indígenas e parques ambientais em locais de exploração”, reforça Murilo. 

Todas essas informações podem servir de base para falar sobre a situação do Cerrado com suas turmas. Mas, além delas, NOVA ESCOLA ouviu Leandro Holanda, Murilo Vogt e Luciana Tenuta, especialistas em Ciências, Geografia e Matemática do Time de Autores de NOVA ESCOLA, e preparou, ainda, dois materiais de apoio: uma galeria com imagens do bioma; e uma ficha com informações básicas sobre o Cerrado, que pode servir como ponto de partida ou arquivo de consulta para a turma.

- Veja a galeria:

- Clique no botão abaixo para conferir uma ficha informativa sobre o bioma Cerrado:

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- A seguir, veja as sugestões dos especialistas de cada componente: 


Como trabalhar os incêndios no Cerrado em Ciências 

Além de estudar as características da fauna e da flora do bioma, a sugestão de Leandro Holanda para abordar as queimadas no Cerrado nas aulas de Ciências é olhar para os dados relativos a esse problema. Por exemplo: como está a medição, se tem aumentado e refletir sobre os fatores que levam a esse aumento. (Dica: este levantamento recente produzido pelo IBGE pode servir de material de estudo para o professor se atualizar.) 

“Trabalhar com notícias e infográficos é uma boa abordagem para buscarmos argumentos e para explicar essa situação”, recomenda. 

No caso dos anos finais do Fundamental 2, Leandro diz que os estudantes nessa etapa já têm uma visão do que é espécie, bioma, ecossistema e trocas de matérias (relações entre espécies desse ambiente). Com isso, é mais fácil entender quais são as transformações, as espécies e a dinâmica daquele bioma nos anos finais do que no Fundamental 1, quando o aluno ainda está estudando as partes das plantas, as funções vitais, e outras questões que vão embasar discussões sobre as queimadas. 


Como abordar os incêndios no Cerrado em Geografia 

As queimadas no Cerrado, no Pantanal e na Amazônia estão completamente ligadas ao ensino da Geografia, de acordo com Murilo Vogt Rossi. “Se pegarmos os dados veremos que os fatores extremos estão acontecendo nesses biomas e isso tem tudo a ver com Geografia porque temos o processo de regionalização, que está incluído esses biomas. A Amazônia na região Norte brasileira e o Pantanal e o Cerrado na região Centro-oeste, Centro-sudoeste. A Geografia está envolvida tanto no caráter da regionalização quanto no caráter mais físico, no sentido de pensar esses fenômenos”, diz o educador. 

Por isso, a dica do especialista é que, com turmas de 6º e 7º ano, o professor vá além dos livros didáticos e aposte em dados e imagens sobre o atual contexto das queimadas. Já para as de 8º e 9º ano, trabalhem, também, questões políticas, com dados mais elaborados. “Na Geografia, como área de Ciências Humanas, trabalhar temas do cotidiano do estudante é essencial. A Geografia tem um aspecto de formação espacial do estudante, mas o espaço, a nossa formação espacial, é a nossa formação de vida”, diz o especialista. 

Em todos os anos, no entanto, é preciso desmitificar o fogo e acabar com a ideia de que esse elemento é o grande vilão da história. É possível explicar o que é a técnica da coivara, por exemplo, e também apresentar evidências – encontradas no noticiário recente – de ações coordenadas nas queimadas de 2020. Também é possível aproveitar dados e recursos de instituições, tais como IBGE, Ibama, Inpe e ICMbio, para trabalhar com os estudantes”, ressalta Murilo, que sugere, ainda, trabalhos com coleta, medição e comparação de dados para estimular a pesquisa e o pensamento crítico. 


Como abordar as queimadas no Cerrado em Matemática 

Já em Matemática, a dica é explorar a unidade temática Grandezas e Medidas da BNCC para estimar medidas que envolvam grandes superfícies, o que também está ligado ao ensino de Geografia. Para inserir isso nas aulas, Luciana Tenuta, especialista em Ensino de Matemática pela PUC-MG, sugere que o professor trabalhe com notícias e estimule o aluno a fazer pesquisas que proporcionem a ele buscar na realidade em que vive elementos que darão possibilidades de estabelecer relações com seu cotidiano. 

Por exemplo, se o estudante viver na zona rural, usar uma fazenda para dimensionar o tamanho de uma área destruída pelo fogo pode fazer mais sentido que usar um quarteirão ou um campo de futebol. Além disso, neste caso, em vez de usar quilômetro como unidade de medida, outra opção é trabalhar com hectare, mais usual em áreas rurais. “A leitura de mundo que o aluno pode fazer matematicamente passa por esse tipo de experiência e atividade, que é humanizar o ensino de Matemática. É importante que o professor entenda isso, inclusive, para direcionar a sua prática, rompendo com aquilo que sempre foi feito. Isso é desenvolver no aluno o olhar matematizado sobre o mundo”, ressalta Luciana. 


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