PARA USAR COM SEUS ALUNOS

Gráficos e números do racismo no Brasil para trabalhar Arte, Matemática, História e Geografia

Do mercado de trabalho à vulnerabilidade diante da covid-19, confira como dados atuais sobre o preconceito racial no Brasil podem ser utilizados em diversas disciplinas

O racismo estrutural expressa-se de diversas formas, e a leitura de gráficos é uma forma de estudar o tema e incitar debates entre os jovens Ilustração: Yara Santos/NOVA ESCOLA

Dados e informações socioeconômicas sobre a população negra ajudam a desvendar o tamanho do preconceito racial no Brasil. Por isso, levantamentos, estatísticas e comparações podem ser instrumentos interessantes para professores de diferentes componentes curriculares trazerem a questão para suas aulas enquanto seguem o currículo programado com as turmas.

Para ajudar você a ter ideias de como usar números, NOVA ESCOLA propõe quatro temas com dados atuais contextualizados, que podem ser aproveitados em turmas de 6º a 9º anos. Para isso, contamos com o apoio de Andrea Losada Santamarina Simões, professora de Geografia e professora-coordenadora da área de Ciências Humanas da EE Prof. Gracinda Maria Ferreira, localizada em Santos (SP), que sugeriu algumas das práticas desenvolvidas na escola sobre o assunto. Há mais de 15 anos, o colégio estruturou o projeto Diversidade Cultural para trabalhar a questão racial ao longo de todo o ano e em todas as disciplinas. Confira os quatro temas e inspire-se.

TEMA 1 - OS NEGROS E O MERCADO DE TRABALHO
Gráficos: População Negra no Brasil (IBGE) e Mercado de trabalho informal (IBGE)

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), diminui ano a ano a população que se declara branca. Em 2018, eram 89,7 milhões de brasileiros ante 92,2 milhões em 2012. As pessoas declaradas brancas foram maioria no país até 2014. A partir daí, os pardos passaram a representar a maior parte da população – saltaram de 89,6 milhões em 2012 para 96,7 milhões em 2018.

Gráfico: IBGE

Com base nos dados da Pnad Contínua 2019, o estudo Síntese de Indicadores Sociais informa que entre as pessoas ocupadas o porcentual de pretos e pardos em ocupações informais chegou a 47,4%, enquanto entre os trabalhadores brancos foi de 34,5%.

Gráfico: IBGE 

Os gráficos acima podem ser utilizados em diferentes disciplinas, turmas e momentos do ano letivo. Veja algumas sugestões:


GEOGRAFIA

Indicado para: Turmas de 7º ano

Na BNCC:

EF07GE18 - Analisar as influências indígenas e africanas no processo de formação da cultura brasileira e relacionar com a atuação dos movimentos sociais contemporâneos no Brasil.

EF07GE04 - Analisar a distribuição territorial da população brasileira, considerando a diversidade etnorracial e cultural (indígena, africana, europeia, latino-americana, árabe e asiática, entre outras) e relacionar com outros indicadores demográficos, tais como: renda, sexo, gênero, idade etc. nas regiões brasileiras.

EF07GE08 - Estabelecer relações entre os processos de industrialização e inovação tecnológica e analisar as transformações socioeconômicas, políticas, culturais e ambientais do território brasileiro.

Como usar os gráficos em Geografia?

- Momento de sensibilização: Utilize os gráficos considerando os saberes já adquiridos pelos estudantes em relação ao tema, propondo um diálogo para que observem e analisem os gráficos.
- Momento de problematização: É possível, ainda, usar os gráficos para problematizar o tema por meio de questões disparadoras (Por que a população brasileira não se declara mais como branca? O que levou a população brasileira a se declarar como parda? O que leva a população preta e parda a procurar empregos informais?).
- Momento de sistematização 1: Para finalizar uma atividade, pode ser interessante apresentar os gráficos aos alunos e sugerir que elaborem um roteiro de entrevista com o tema: “Autodeclarar-se branco ou pardo, eis a questão”, para ser aplicado com familiares, vizinhos, amigos e demais professores da escola. Sugestão: uso de formulário de entrevista que possa ser enviado por e-mail.
- Momento de sistematização 2: Os estudantes podem elaborar uma reportagem para as redes sociais da escola sobre o tema revelado pelos gráficos. Uma sugestão é gravá-la no Tik Tok.


MATEMÁTICA

Indicado para: Turmas de 7º ano

Na BNCC:

EF07MA02 - Resolver e elaborar situações-problema que envolvam porcentagem, como os que lidam com acréscimos e decréscimos simples, utilizando estratégias pessoais, cálculo mental e calculadora no contexto de educação financeira, entre outros.

Como usar os gráficos em Matemática?

Nos momentos de sistematização, pode ser interessante realizar cálculos porcentuais sobre as ocupações informais entre os anos indicados no gráfico e sobre os resultados das entrevistas solicitadas na aula de Geografia.


HISTÓRIA

Indicado para: turmas de 9º ano

Na BNCC:

EF09HI03 - Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-Abolição e avaliar seus resultados.

Como usar os gráficos em História?

Uma boa sugestão é apresentar os gráficos e montar com os alunos uma tempestade de ideias que será a base para a produção de um texto argumentativo – atividade que poderá ser desenvolvida de forma interdisciplinar com Língua Portuguesa, inclusive.

TEMA 2 - O IMPACTO DO CORONAVÍRUS NA POPULAÇÃO NEGRA
Gráficos: Proporção de óbitos por faixa etária em cada grupo cor/raça (CTC/PUC-Rio) e Proporção de óbitos e recuperados por raça (CTC/PUC-Rio)

Abaixo, trazemos dois gráficos sobre o impacto da covid-19 entre os negros no Brasil. Eles são do Estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS), liderado pelo Departamento de Engenharia Industrial do Centro Técnico Científico da PUC-Rio (CTC/PUC-Rio), publicado em 27 de maio de 2020.

No primeiro gráfico, é possível observar a proporção de óbitos por faixa etária em cada grupo de raça/cor. 

Gráfico: CTC/PUC-Rio

No segundo gráfico temos a proporção de óbitos e recuperados para pacientes internados em enfermaria (esquerda) e UTI (direita) por raça/cor.

Gráfico: CTC/PUC-Rio

Veja sugestões de como trabalhar esses gráficos com os alunos. 


GEOGRAFIA

Indicado para: turmas de 8º ano

EF08GE26 - Analisar a dinâmica populacional e relacionar com as transformações tecnológicas, indicadores de qualidade de vida e nível de desenvolvimento socioeconômico e ambiental, de países distintos, em diferentes regiões do mundo.

EF08GE05 - Aplicar os conceitos de Estado, nação, território, governo e país e analisar os conflitos e tensões na contemporaneidade, com destaque para as situações geopolíticas na América e na África e suas múltiplas regionalizações a partir do pós-Guerra.

EF08GE08 - Analisar a situação do Brasil e de outros países da América Latina e da África, assim como da potência estadunidense na ordem mundial do pós-Guerra.

Como usar os gráficos em Geografia?

Momento de problematização: A partir da análise dos gráficos, pode ser interessante promover uma roda de conversa ou debate tendo como eixo central: “Por que a qualidade de vida é diferente entre os brasileiros?”
- Momento de sistematização: Após análise dos gráficos, solicite pesquisa sobre a propagação da covid-19 em outras regiões do mundo e relacionar com indicadores de qualidade de vida, para ser realizado um paralelo com a situação brasileira.
- Momento de sistematização 2: Dado o cenário de grandes mudanças ocasionadas pela atual pandemia, utilize os gráficos para propor um diálogo com os estudantes sobre como será a geopolítica mundial pós-pandemia, as possíveis consequências políticas da pandemia que envolvem as questões etnorraciais e qual tem sido o papel dos organismos internacionais, como a ONU e a OMS.


MATEMÁTICA

Indicado para: Turmas de 8º ano

Na BNCC:

EF08MA04 - Resolver e elaborar situações-problema envolvendo cálculo de porcentagens, incluindo o uso de tecnologias digitais.

Como usar os gráficos em Matemática?

Em um momento de sistematização, pode ser interessante estimular os alunos a resolverem cálculos de porcentagens para descobrir a diferença porcentual entre brancos e pretos/pardos no tratamento da covid-19.

TEMA 3 - REPRESENTAÇÃO NEGRA NO CINEMA BRASILEIRO
Gráficos: Diretores de filmes brasileiros por raça e gênero (Ancine) e Elenco Principal x População brasileira (Ancine)

Já parou para pensar qual é a representatividade de diretores e atores negros no conjunto dos profissionais que atuam no setor de audiviosual? Nos gráficos abaixo, retirados do levamento “Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de 2016”, feito pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), é possível observar como os brancos representam a imensa maioria das equipes de 142 longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição naquele ano.

Nesse primeiro gráfico, temos um dado que mostra a falta de acesso da população negra a cargos de liderança: nenhum dos longas de 2016 tinha uma mulher negra como diretora e apenas 2,1% foram dirigidos por homes negros. 

Gráfico: Ancine 

Nesste segundo gráfico vemos como os brancos dominam os elencos dos filmes analisados. 

Gráfico: Ancine 

Veja algumas sugestões de como trabalhá-los.


HISTÓRIA

Indicado para: Turmas de 9º ano

Na BNCC: 

EF09HI04 - Discutir a importância da participação da população negra nas formações econômica, política e social do Brasil.

Como usar esses gráficos em História?

Em um momento de problematização, é possível utilizá-los para problematizar o tema por meio de questões disparadoras (Quantos youtubers/influenciadores digitais negros você conhece? Quais negros você se lembra de ter representatividade atualmente na mídia? Quais papéis são destinados aos negros nas telenovelas brasileiras?).


ARTES

Indicado para: Turmas de 9º ano

Na BNCC:

EF09AR30 - Compor cenas, performances, esquetes e improvisações que problematizem fatos, notícias, temáticas e situações atuais, explorando o drama como gênero teatral, a relação entre as linguagens teatral e cinematográfica e as tecnologias digitais, caracterizando personagens (com figurinos, adereços e maquiagem), cenário, iluminação e sonoplastia e considerando a relação com o espectador.

Como usar esses gráficos em Artes?

Nos momentos de sistematização, a análise dos gráficos por vir seguida pela proposta de uma improvisação e/ou esquete que retratem a simulação de um teste para determinado papel em um filme. Onde concorrerão à vaga pessoas brancas, pardas e/ou pretas, em que o desfecho vai demonstrar o que acontece na sociedade. A atividade pode ser feita de forma interdisciplinar, com o apoio de Língua Portuguesa para a produção do roteiro.

TEMA 4 - MULHERES NEGRAS E O TRABALHO DOMÉSTICO NO PAÍS
Base de dados: Retrato das desigualdades de Gênero e Raça - 1995 a 2015 (Ipea)

Uma boa forma de lançar luz no tema do racismo no Brasil é analisar a proporção de mulheres negras entre as trabalhadoras domésticas do país. O Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça – 1995 a 2015, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), traz alguns dados importantes sobre o tema. Em 1995, aponta o levantamento, havia 5,3 milhões desses trabalhadores no Brasil. Entre eles, 4,7 milhões eram mulheres, sendo 2,6 milhões de negras e pardas e 2,1 milhões de brancas. A escolaridade média das brancas era de 4,2 anos de estudo, enquanto a das afrodescendentes era de 3,8 anos.

Vinte anos depois, em 2015, a população geral desses profissionais cresceu, chegando a 6,2 milhões, sendo 5,7 milhões de mulheres. Dessas, 3,7 milhões eram negras e pardas e 2 milhões eram brancas. Já com relação à escolaridade, a evolução foi de 6,9 anos entre as brancas, enquanto no caso das afrodescendentes, chegou a 6,6 anos.

O estudo mostra, ainda, que o trabalho doméstico respondeu por 6,8% dos empregos no país e por 14,6% dos empregos formais das mulheres em 2017. No começo da década, esse tipo de serviço reunia um quarto das trabalhadoras assalariadas.

Veja algumas sugestões de como trabalhar esses números com os alunos. 


HISTÓRIA E MATEMÁTICA

Indicado para: Turmas de 9º ano

Na BNCC:

EF09HI07 - Identificar e explicar, em meio a lógicas de inclusão e exclusão, as reivindicações dos povos indígenas, das populações afrodescendentes e das mulheres no contexto republicano até a ditadura civil-militar de 1964.

EF09HI09 - Relacionar as conquistas de direitos políticos, sociais e civis à atuação de movimentos sociais.

EF09HI23 - Identificar direitos civis, políticos e sociais expressos na Constituição de 1988 e relacioná-los à noção de cidadania e ao pacto da sociedade brasileira de combate a diversas formas de preconceito, como o racismo.

EF09HI26 - Discutir e analisar as causas da violência contra populações marginalizadas (negros, indígenas, mulheres, homossexuais, camponeses, pobres etc.) com vistas à tomada de consciência e à construção de uma cultura de paz, empatia e respeito às pessoas.

EF09MA23 - Planejar e executar pesquisa amostral envolvendo tema da realidade social e comunicar os resultados por meio de relatório contendo avaliação de medidas de tendência central e da amplitude, tabelas e gráficos adequados, construídos com o apoio de planilhas eletrônicas.

Como usar esses dados em História e Matemática?

A partir dos dados estatísticos, é possível propor aos estudantes uma intervenção a ser realizada no pátio da escola durante o horário dos intervalos com cenas da vida cotidiana das mulheres trabalhadoras negras no Brasil. Outra sugestão é pedir aos alunos que façam pesquisas e questionários com as mulheres trabalhadoras do ambiente escolar, das famílias ou mesmo de vizinhas. Divulgar o resultado da pesquisa para a comunidade escolar com o título “As Nossas Mulheres Extraordinárias”. A atividade poderá ainda receber o apoio de Matemática para o levantamento dos resultados coletados na pesquisa e elaboração de gráficos com os dados disponíveis.

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