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Vidas Negras Importam: Como conectar as atualidades à Consciência Negra no Fundamental 2

Em ano de grandes mobilizações em torno do tema, educadores analisam como trazer essas discussões para a escola

A escola precisa debater as questões raciais, que são complexas e atuais. Ilustração: Yara Santos

Em 2020, a questão racial está sendo um grande tema em ebulição. Vimos protestos antirracistas tomarem as ruas de vários países puxados pelo movimento Black Lives Matter, discussões sobre casos de racismo ganharem espaços na mídia e nas redes sociais, e também a pandemia do coronavírus mostrando a face cruel ao impactar desproporcionalmente a população negra no Brasil.

Na véspera do Dia da Consciência Negra de 2020, João Alberto Silveira Freitas, homem negro de 40 anos, foi espancado, asfixiado e morto por dois seguranças brancos em uma unidade da rede de supermercados francesa Carrefour na capital gaúcha. A causa da morte é apontada, por análises iniciais dos departamentos de Criminalística e Médico-Legal do Instituto-Geral de Perícias (IGP) do Rio Grande do Sul, como asfixia. Até o momento, não há conclusão final dos órgãos policiais e de investigação sobre as circunstâncias que levaram ao incidente. 

A violência causou revolta, provocou comparações com o caso George Floyd, ocorrido nos Estados Unidos, e motivou atos em diversas cidades brasileiras no último fim de semana. Ela também está inserida em um cenário em que a população negra no Brasil é a maior vítima do homicídio: 75% do total, segundo o Atlas da Violência 2020. 


A violenta morte de João, às vésperas da data em que se comemora o Dia da Consciência Negra no país, é um ato que evidencia as diversas dimensões do racismo e as desigualdades encontradas na estrutura social brasileira. Milhões de negras e negros continuam a ser vítimas de racismo, discriminação racial e intolerância, incluindo as suas formas mais cruéis e violentas.

Dados oficiais apontam que a cada cem homicídios no Brasil, 75 são de pessoas negras. O debate sobre a eliminação do racismo e da discriminação racial é, portanto, urgente e necessário, envolvendo todas e todos os agentes da sociedade, inclusive o setor privado. A proibição da discriminação racial está consagrada em todos os principais instrumentos internacionais de direitos humanos e também na legislação brasileira.

Trechos da Nota oficial da Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil


O ano todo, mas em especial no mês da Consciência Negra, a comunidade escolar pode desenvolver uma reflexão: estes temas que geraram tanta repercussão também reverberaram em discussões nas aulas (mesmo que remotas)?

Entenda: O que é racismo estrutural?

Para a educadora Gládis Kaercher, quando incorpora questões atuais sobre racismo, a escola amplia sua abordagem sobre o tema: “A escola tende a trabalhar apenas o tema escravidão, que fala de um tempo histórico muito distante dos alunos. Quando traz fatos do noticiário para dentro da sala, ela traça uma linha do tempo mais próxima e factível dos conflitos raciais”, analisa. 

Gládis é uma das coordenadoras do Curso de Aperfeiçoamento UNIAFRO – Política de Promoção da Igualdade Racial na Escola, apoiado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e que desde 2013 formou mais de 15 mil pessoas (não só docentes). 

Apesar de o artigo 26A da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) recomendar o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena para as aulas de Artes, Literatura e História, seria importante expandir as discussões raciais para as demais componentes curriculares.

 “Inclusive com trabalhos planejados de maneira conjunta e ao longo de todo o ano”, avalia a professora Bianca da Silva, coordenadora de núcleo pedagógico da rede estadual paulista. Os fatos da atualidade podem ser incluídos nas aulas sem a necessidade de o docente ter de interromper o planejamento para tratar do tema – uma queixa que já ouviu. 

Quando lecionava História, Bianca se lembra de atividade que colocou em prática em aula para alunos do 8º ano: para tratar de escravidão moderna e formas de resistência, pediu que selecionassem as notícias sobre violência racial que mais os havia chocado.

Juntamente com o professor de Língua Portuguesa, uniram a aula com tarefa de produção de roteiro de peça de teatro para encenar os casos mais emblemáticos reunidos. “Os alunos idealizaram uma peça de teatro mudo, com as cenas de violência como resquícios da escravidão”, recorda. 

Planejamento anual

Um formato de currículo constante e interdisciplinar é adotado há mais de 15 anos pela EE Professora Gracinda Maria Ferreira, localizada em Santos, litoral paulista. Dentro do projeto Diversidade Cultural, todas as turmas trabalham desde o início do ano letivo com temas que culminam em trabalho conjunto no fim do ano, no qual a questão racial está incluída.

O trabalho de 2020 será a simulação de assembleia da ONU que, além dos conflitos raciais, também discutirá diversidade e meio ambiente, entre outros assuntos. “Apesar de ter o projeto esquematizado para todo o ano letivo, ele se move para ser adaptado aos temas da atualidade”, conta Andrea Simões, professora de Geografia e professora-coordenadora da área de Ciências Humanas. 

Para ela, os alunos precisam ver ligação entre os temas da atualidade e a escola, senão não irão se interessar. “A escola também perde a chance de se conectar com o estudante e com o universo de fora da escola”, avalia.


Ponto a ponto: Atualidades e questão racial

Casos de assassinatos de pessoas negras nos últimos anos, em especial em 2020, mobilizaram redes sociais, noticiários e protestos antirracistas nos EUA e no Brasil.  

- Assuntos atuais são complexos e disparam discussões que podem (e devem) ser levadas para as aulas o ano inteiro, mesmo remotamente. Incorporar atualidades do noticiário com a questão racial ajuda a aproximar a escola da vida real, mas deve ser feito de maneira planejada, flexível e consistente ao longo do ano letivo e do currículo. Trazer as discussões para o ambiente escolar também complementa e atualiza materiais didáticos com os novos debates, como a luta antirracista e autorreconhecimento. 

- Notícias de sites ou veículos jornalísticos confiáveis, pesquisas, documentos históricos são bons pontos de partida para a discussão nas aulas. É importante, também, quando possível, dialogar com entidades e pessoas de referência engajadas com o antirracismo. 


"Toda vez que há uma intervenção violenta nos corpos da população negra, a gente precisa reagir. Não dá mais para viver desse jeito", avalia a arte-educadora Bianca Leite, que desde 2015 organiza visitas de estudantes do Ensino Médio a galerias de arte que também contemplem artistas negros, uma oportunidade para discutir questões variadas, inclusive a racial. “Além do contato com as obras e dos questionamentos que ela pode trazer, tem a questão de assimilação, de o estudante olhar para um trabalho ou um  vídeo e se identificar com a história”, conta. 

Trazer as discussões do mundo real para o ambiente escolar também funciona como ferramenta para complementar e atualizar os livros e demais materiais didáticos com os novos debates, como luta antirracista e autorreconhecimento. 

“Temos as habilidades descritas na BNCC, mas precisamos correr atrás de outras fontes além dos materiais didáticos”, explica Andrea. 

Aliás, confira aqui a lista que preparamos com 20 séries, filmes e livros que giram em torno da temática racial.

Para o professor de História André Coutinho, trazer a realidade para a aula, com textos e artigos jornalísticos, ou seja, com uma boa carga de documentos, faz a aula ganhar em qualidade e interação com os alunos. 

Além disso, ele acredita que é importante a escola se associar a pessoas e entidades engajadas em debater a questão racial em toda a sua complexidade. Mais um caminho é conectar os alunos com o espaço que habitam. 

Desde 2015, Coutinho implementou o jongo como disciplina eletiva na Escola Municipal Ceará, no Rio de Janeiro (RJ). O jongo é manifestação cultural afro-brasileira considerada patrimônio imaterial nas comunidades do Morro da Serrinha, do Complexo do Alemão, e também outras regiões, como no Vale do Ribeira. Nos pontos do jongo, ou seja, nos cânticos, fala-se de identidade, de história, de memória e de questões sociais. “Fala-se do passado nos pontos antigos, mas o jongo também pode trazer para a atualidade muitos temas importantes para discussão”, avalia André.

Interações

Conectar-se com discussões atuais sobre os conflitos etnorraciais deve estar no radar dos professores no planejamento de aulas, mas não só. As equipes de coordenação e gestão escolar também precisam acompanhar a ascensão de movimentos sociais das ruas ou das redes sociais para repensar sua atuação. 

“O mais comum é que as escolas se ocupem apenas  de uma programação de atividades restrita ao mês de novembro e com atividades folclóricas, como a que descreve comidas típicas ou máscaras africanas”, recorda a professora de História Larissa Oyarzabal, que lecionou para estudantes do Fundamental 2 de Porto Alegre (RS) até o ano passado e hoje atua em cursos pré-vestibulares. 

Saiba: 5 perguntas e respostas sobre a Lei nº 10.639

“Em muitas escolas, trata-se mais de uma preocupação individual do que um planejamento de longo prazo e interdisciplinar”, conta. Para ela, há uma dificuldade das instituições escolares em compreender a temática racial – negra e indígena –, como uma oportunidade para falar de compromisso social ou de políticas raciais, temas extremamente atuais, por exemplo. 

Como deixar de lado o fato de a hashtag #BlackLivesMatter ter ultrapassado 10 bilhões de visualizações só no TikTok? Vídeos com registros dos protestos do movimento em todo o mundo, e com a hashtag, também foram vistos mais de 10,5 bilhões de vezes. Isso apenas para citar uma rede social.

Trazer as discussões atuais sobre conflitos raciais para a escola ajudam a compreender o racismo como um fenômeno mundial, e não apenas brasileiro. “Dar essa dimensão ampla para o tema apoia o aluno e a escola a entenderem que a superação desse problema também deve ser global e coletiva”, avalia a educadora Gládis.

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