Sugestão de Atividade

“Sou Negro”: a poesia de Solano Trindade nas aulas de Língua Portuguesa

Dirigida para o 6º ano, atividade propõe estudo de questões raciais a partir de poemas produzidos por autores afro-brasileiros

O ativista, escritor e poeta Solano Trindade: “Na minh'alma ficou o samba/o batuque/o bamboleio/e o desejo de libertação”. Ilustração: Yara Santos/NOVA ESCOLA

Com o objetivo de trabalhar questões raciais e da africanidade por meio da poesia com a turma do 6º ano nas aulas de Língua Portuguesa, a professora Kaliane Luiza Amador, da EE Dom Tarcísio Ariovaldo Amaral, em Limeira (SP), propôs - antes e durante a pandemia - a exploração de poemas de Solano Trindade, em especial o Sou Negro.

“O objetivo era fazer com que meus alunos soubessem mais sobre a literatura negra e, com isso, quero quebrar o preconceito que, infelizmente, ainda vivenciamos em nosso dia a dia”, explica a professora.

Kaliane compartilhou com NOVA ESCOLA parte do seu planejamento para que você possa se inspirar. Confira abaixo.

ATIVIDADE: SOLANO TRINDADE EM FOCO 

Convide sua turma a ler e discutir poemas de Solano Trindade 


Indicado para: Turmas do 6º ano
Materiais: Poemas de Solano Trindade, acesso à internet e outras ferramentas

Na BNCC:

EF67LP28 - Ler, de forma autônoma, e compreender – selecionando procedimentos e estratégias de leitura adequados a diferentes objetivos e levando em conta características dos gêneros e suportes –, romances infantojuvenis, contos populares, contos de terror, lendas brasileiras, indígenas e africanas, narrativas de aventuras, narrativas de enigma, mitos, crônicas, autobiografias, histórias em quadrinhos, mangás, poemas de forma livre e fixa (como sonetos e cordéis), videopoemas e poemas visuais, dentre outros, expressando avaliação sobre o texto lido e estabelecendo preferências por gêneros, temas, autores.


PASSO A PASSO

1. Entenda o que a turma já sabe: A professora reservou as primeiras semanas do projeto  para conversar com a turma e sondar o que elas já conheciam a respeito da literatura produzida por pessoas negras e também sobre a cultura, história e arte africana e afro-brasileira. Este primeiro passo é interessante para mapear o que os seus alunos já conhecem e incorporar as sugestões deles, bem como para descobrir as lacunas.

2. Selecione o autor e a obra: No caso da professora Kaliane, ela optou por trabalhar poemas de Solano Trindade, tais como Sou Negro, Canção à Minha Cidade, Batucada, Canto dos Palmares e O Congo. 


Quem foi Solano Trindade?

O poeta negro Francisco Solano Trindade nasceu em 1908 no Recife (PE). A mãe era analfabeta, mas apaixonada por cordel e novelas. O pai participava ativamente da cultura popular da região, como das festas de Bumba Meu Boi, e costumava levar o menino para viver o frevo, o carnaval e o maracatu. Na década de 1930, mesmo diante da ascensão do nazifascismo e das ideias eugenistas, organizou-se com outros intelectuais e fundou a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-Brasileira, juntamente com o poeta Ascenso Ferreira, o pintor Barros e o escritor José Vicente Lima. Publica Poemas Negros em 1936, participa da criação do Teatro Popular Brasileiro na década de 1950. Morreu em 1974 no Rio de Janeiro (saiba mais aqui).


3. Explique sobre os diferentes grupos étnicos do continente africano: Em aulas expositivas, apresente aos alunos alguns grupos étnico-linguísticos presentes nos países africanos: bantos, sudaneses, berberes, nilóticos etc. Fale da chegada desses grupos aos Brasil, no contexto da colonização e da escravidão. “Os alunos têm bastante dúvida, perguntam sobre por que os negros foram escravizados e por que existe o preconceito no Brasil”, comenta Kaliane. Procure descobrir as dúvidas da sua turma, pesquisar e debater com eles, quando possível.

PONTO DE ATENÇÃO: Pesquise sobre o tema em fontes confiáveis. A professora Kaliane, por exemplo, apoiou-se no livro Culturas Africanas e Afro-Brasileiras em Sala de Aula (Renata Felinto, Fino Traço, 2012) e levou para os alunos imagens, vestimentas, adornos e artefatos desses povos.

4. Leia o poema com a turma e abra uma roda de conversa: Caso esteja trabalhando remotamente, envie o texto para os alunos por meio do e-mail ou do WhatsApp com antecedência. Na hora da aula, reserve um momento para leitura em voz alta, caso esteja trabalhando de forma síncrona: 

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação...

Sou Negro, de Solano Trindade

Após a leitura, converse com os alunos a respeito do poema, destaque como ela traz uma visão de resistência e luta do negro ao longo da História (em quilombos como Palmares e em revoltas como a dos Malês em Salvador). Pergunte também o que  eles entenderam sobre o poema que acabaram de ler.

5. Incentive a pesquisa: Com base na leitura e nas discussões em sala de aula, proponha que os alunos pesquisem - em vídeo, em texto e outros suportes - poemas de outros autores negros, clássicos ou contemporâneos. É interessante deixá-los livres para buscar o que mais chama atenção ou interessa ao adolescente, sem impor uma lista prévia. A pesquisa pode ser devolvida para a professora ou compartilhada com os outros alunos: a ideia é entender se eles passaram a valorizar mais a literatura negra e conseguiram fazer conexões entre o que estudaram e as questões raciais.

PONTO DE ATENÇÃO: Como muitos professores ao longo de 2020, Kaliane precisou adaptar o que tinha planejado para o contexto do ensino remoto emergencial. Nas aulas presenciais, a intenção da professora era promover atividades como declamações de poesia e apresentações. No entanto, com o início da pandemia o projeto foi reformulado no contexto remoto e conduzido por meio de videoaulas e do WhatsApp.

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