Para repensar a escola

A Literatura é negra: como trabalhar com ela nas aulas de Língua Portuguesa

Saiba caminhos para visibilizar, debater e ler escritores negros com as turmas do 6º ao 9º

Planeje-se para que o trabalho com autores negros seja amplo e realizado em diversas oportunidades ao longo do ano. Ilustração: Yara Santos/NOVA ESCOLA

Quantos autores negros você teve oportunidade de ler ao longo da sua formação inicial como professor? Quantas vezes você abriu espaço para a produção de homens e mulheres negros em suas aulas? Na sua lista de autores favoritos, há diversidade racial? E os seus alunos, costumam acessar nas indicações de leitura, nas bibliotecas e nas aulas as vozes negras presentes na literatura brasileira e mundial?

Os anos finais do Ensino Fundamental são muito importantes para a ampliação do repertório e a consolidação do aluno como leitor - e a literatura negra -, isto é, a produção literária, em diferentes gêneros e meios, por pessoas negras - definitivamente precisa fazer parte dessa história.

Apesar dos avanços proporcionados pela Lei nº 10.639/2003, da ampliação das discussões sobre a necessidade de uma educação antirracista e do engajamento dos educadores no tema racial, em muitas escolas ainda é hábito separar apenas o mês de novembro - por conta do Dia da Consciência Negra - para falar sobre o assunto, incentivar leituras e pensar projetos antirracistas na escola.

É possível e desejável, no entanto, que romances, poemas, crônicas, novelas, ficções científicas e todo tipo de produção literária produzida por pessoas negras no Brasil e no mundo ao longo da história façam parte do seu planejamento de aulas. Na Língua Portuguesa, em especial, há muitos caminhos.

Mestra em Letras com ênfase em Literaturas Africanas em Língua Portuguesa pela USP, Damaris Silva explica que os escritores negros têm papel fundamental na Educação dos adolescentes, pois abrem os olhos em relação à luta do povo negro, promovem conhecimentos sobre a história e a cultura africana e afro-brasileira, bem como contribuem para a representatividade. 

“Por isso, esse olhar mais amplo para a literatura negra ao longo do ano é essencial e deve ser incorporada ao planejamento do professor”, afirma Damaris. Quanto mais ampla, orgânica e sustentável a inclusão do tema no planejamento do ano letivo, maior é a contribuição para uma Educação antirracista. 


Ponto a ponto: Literatura Negra no Fundamental 2 

- Na faixa etária do Fundamental 2, é essencial diversificar as leituras oferecidas aos alunos e incluir em seu planejamento autores nacionais, estrangeiros, clássicos, contemporâneos, homens e mulheres, negros, brancos, indígenas e outros.  

- Organize-se no planejamento para que o trabalho com autores negros seja amplo e realizado em diversas oportunidades ao longo do ano. O ideal é não limitar o trabalho apenas no mês de novembro ou em datas especiais.

- A valorização da produção literária da população negra deve ser de toda a comunidade escolar: é interessante incluir coordenadores pedagógicos, bibliotecários, professores de outros componentes curriculares além da Língua Portuguesa e familiares ou responsáveis nas discussões.

- Quando envolvemos também os responsáveis por selecionar as leituras para os alunos, evita-se a “leitura perecível”, isto é, aquela realizada apenas nas comemorações do Dia da Consciência Negra, por exemplo.

- Outra dica é trabalhar a Literatura Negra também por meio de outros suportes, como filmes ou outras expressões artísticas.

- Reflita com os estudantes sobre o que está sendo lido e o porquê daquela seleção, bem como, quando possível, pesquise e entre em contato com autores negros para que eles possam compartilhar suas vivências e conversar com os alunos.

O texto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para Língua Portuguesa nos anos finais do Fundamental deixa evidente a importância de estimular a leitura por fruição e de diversificar os autores lidos pelos estudantes, citando especificamente os africanos. Veja um exemplo de como esse aspecto aparece no documento:

Aqui também a diversidade deve orientar a organização/progressão curricular: diferentes gêneros, estilos, autores e autoras – contemporâneos, de outras épocas, regionais, nacionais, portugueses, africanos e de outros países – devem ser contemplados; o cânone, a literatura universal, a literatura juvenil, a tradição oral, o multissemiótico, a cultura digital e as culturas juvenis, dentre outras diversidades, devem ser considerados, ainda que deva haver um privilégio do letramento da letra.

“O ideal é trabalhar mais autores negros, tanto os clássicos quanto os contemporâneos”, reforça a professora Keila Francisca Martins, que dá aulas de Língua Portuguesa no Fundamental 2 na Fundação Casa Morro Azul, vinculada à Escola Aparecida Soares de Lucca, em Limeira (SP). 

O primeiro passo para essa valorização é a conscientização de quem seleciona as leituras que integram o acervo da escola: o coordenador pedagógico e o bibliotecário. “Uma vez que essa se torna uma verdade para aqueles que as selecionam [os livros], conseguimos superar a leitura perecível, aquela que acontece somente no mês de novembro”, afirma Damaris.

“Outro ponto de partida que pode ser incorporado em todas as fases do Ensino Fundamental 2 é trabalhar a literatura negra por meio de filmes e outras artes. Isso pode ajudar o professor a ter mais repertório”, sugere a professora Keila.

Escritor e responsável pela Editora Malê, especializada em títulos e autores afro-brasileiros, Vagner Amaro sugere, além da leitura e da apresentação de autores, que o professor estimule a reflexão sobre o que está sendo lido e o porquê daquela escolha, por exemplo. E, além disso, por que não tentar convidar escritores negros para conversar com os alunos? “A literatura negra contribui para a formação de um imaginário mais coerente com a nossa realidade. Em alguns momentos, ela responde à questões urgentes e nisso ela serve de denúncia e possibilidade de reflexão”, analisa Vagner.


COMO TRABALHAR COM A LITERATURA NEGRA DO 6º AO 9º ANO

Conheça estratégias pedagógicas que podem ser utilizadas para engajar os adolescentes na leitura em cada ano do Fundamental 2, sugeridas por Damaris Silva.

6º ano

Incorpore em seu plano pedagógico a leitura constante de textos e livros produzidos por homens e mulheres negros. Debata os temas abordados com as turmas, dando espaço para reflexões, para tirar dúvidas e ouvir as experiências das crianças. Livros com  brincadeiras ou jogos de origem africana ou afro-brasileira também são um recurso interessante. Incentive a leitura livre, na biblioteca da escola, por exemplo, de autores negros e livros sobre a temática, buscando sempre ouvir as preferências dos alunos e ampliando seu repertório. 

7° ano

Incentive os alunos a pesquisarem autores negros para leitura e discussão em grupos. Lembre-os que as pessoas negras escrevem há muito tempo, e que há autores contemporâneos, clássicos e também muito antigos, que falam de todo tipo de assunto, inclusive sobre questões raciais e sociais. Com base nessas leituras, é possível que os alunos ampliem seus conhecimentos e que os estudantes negros também se sintam identificados com os personagens e autores lidos ao longo do ano. Organizar saraus e seminários com base nos autores também é boa estratégia.

8° Ano

Nesta fase, as atividades podem ser intensificadas, com propostas, por exemplo, em que os alunos escolham o texto de um autor negro que pode ser adaptado para uma peça teatral. Aposte também em clubes de leitura (mesmo virtuais!), para que os alunos possam trocar com os colegas, conhecer novos autores e compartilhar a experiência da leitura. 

9° Ano

No último ano do Fundamental, o professor pode promover ações que fomentem o debate em sala de aula a partir de diversos textos literários contemporâneos e clássicos que tratam das mesmas temáticas, para que os alunos possam perceber o ponto de vista dos autores. Estimular a produção literária em sala de aula e utilizar autores negros como base para essa produção é outra opção para se trabalhar a literatura negra.

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