Entrevista

Vagner Amaro: “A Literatura Negra não tem um discurso único”

Escritor e editor responsável pela editora afro-brasileira Malê, o carioca fala sobre a trajetória e a importância da escrita de pessoas negras

‘A literatura me salvou diversas vezes na vida’, conta Vagner Amaro. Ilustração: Yara Santos/NOVA ESCOLA

Para o carioca Vagner Amaro, a literatura é um espaço de aconchego - mas também de luta. Doutorando em Letras pela PUC-Rio e pesquisador sobre mediação de leitura e diversidade, é também escritor e fundador da Editora Malê, especializada em publicar novos autores afro-brasileiros e no resgate da Literatura Negra no Brasil. Envolvido com os livros desde a adolescência, Amaro conversou com NOVA ESCOLA sobre o cenário, o desafio e as vitórias da Literatura Negra dos últimos anos.

NOVA ESCOLA: Como analisa o cenário atual da Literatura Negra no Brasil?

VAGNER AMARO: É um cenário marcado pela luta de escritores e editores negros por garantir o direito de participar do campo literário. O desinteresse de grandes editoras pela autoria negra deu-se como consequência das ideias do racismo científico, do epistemicídio e dos efeitos do racismo estrutural. Atualmente, muito marcadamente pela força dos movimentos antirracistas, vemos aumentar o interesse das grandes editoras e dos curadores de eventos pela autoria negra.

Qual a importância da literatura negra num país de tamanhas desigualdades sociais e raciais?

É importante porque ela contribui para a formação de um imaginário mais coerente com a nossa realidade, ela humaniza na ficção os indivíduos das classes menos favorecidas socialmente. Em alguns momentos, ela responde à questões urgentes e nisso ela serve de denúncia e possibilidade de reflexão, pois dá instrumentos para se formular outras narrativas, outras possibilidades de futuro, e isso com uma grande diversidade. Então, não dá para se dizer que a literatura negra tem um discurso único, ela reflete as individualidades artísticas, éticas, estéticas de cada autor.

Se fosse possível criar uma imagem do Brasil a partir dos escritores contemporâneos, qual imagem você acha que teríamos representada?

Se olharmos para o que teve mais destaque nas últimas décadas, seria de um homem branco da classe média, que se assume como hétero e escreve sobre experiências muito pessoais, um escritor de si. Mas é importante citar que se esse perfil de autor esteve no centro das atenções das grandes editoras, mas na borda existiu uma vida que criou seus sistemas de produção e recepção da literatura, e que leitores, universidades, livrarias, eventos e o jornalismo cultural estão voltando seus interesses para o que surge com bastante densidade nesta vida literária.

Qual a importância da liberdade e da democracia para a literatura?

A criação literária é um ato de profunda liberdade. Apenas o autor sabe o que vai contar e como vai contar - e apenas o leitor sabe o que leu. Mesmo que ele narre a impressão dele sobre uma leitura, já não será mais o que ele leu, porque enquanto ele lê, ele cria e é também autor. E quando ele narra o que leu, o faz a partir dos instrumentos que terá para narrar. Neste sentido, e em diversos outros, a literatura é democratizante, ampliar o olhar, o senso crítico e as sensibilidades.

Qual é a sua avaliação sobre a participação dos negros na literatura brasileira?

Os escritores negros participaram em momentos formativos decisivos para a literatura brasileira, como o Machado de Assis, o Cruz e Souza, o Lima Barreto, o Mário de Andrade, foram inovadores e precursores como Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus.

Não gosto de pensar em uma participação dos negros na literatura brasileira, porque não pensamos em uma participação dos brancos na literatura brasileira. Não existem, por exemplo, estudos sobre branquitude e literatura brasileira. Eu considero que a literatura brasileira é negra, assim como a cultura brasileira é negra, mesmo que em negação, ou com apropriações culturais feitas por brancos, o que se apropria é o que temos de afro-brasileiro, que me parece a marca principal da nossa cultura.

Escritores negros têm tido mais reconhecimento recentemente? Acha que nesse aspecto também há um atraso?

Sim, há um atraso. Acredito que esse atraso fez com que muitos escritores potenciais tenham deixado seus textos engavetados, falo de escritores que não iremos mais conhecer. Na década de 1950 já existiam editoras negras nos Estados Unidos. Mesmo sem comparações, estamos atrasados em relação à nossa história, a questão é olhar para o presente e fazer o deve ser feito: democratizar a literatura brasileira.

De que maneira os professores podem cooperar com os avanços literários negros no Brasil? 

Muitos professores já fazem, o que é bastante importante. Deixo como sugestões: levar os textos da literatura negra para as escolas, apresentar aos alunos em leituras compartilhadas, em clubes de leitura, propor pesquisas sobre o tema, fazer os alunos refletirem sobre o que leem e por que leem o que leem, sobre como se determina o que será lido das escolas, convidar escritores negros para conversar com os alunos. Inserir a literatura de autoria negra na prática social dos alunos e de toda a comunidade escolar.

Qual a sua relação pessoal com a literatura? 

A literatura me salvou diversas vezes na vida e continua me salvando. É o meu espaço de aconchego: quando estou lendo, estou bem. Acredito que foi por isso que começo a me capacitar para trabalhar com livros desde os 15 anos, quando fiz o curso de encadernação e restauração de livros do Senai. Depois fiz Biblioteconomia, Jornalismo, mestrado em Biblioteconomia e, atualmente, faço doutorado em Literatura pela PUC-Rio.

Você acha importante dizer-se autor negro dentro do campo literário brasileiro? O título demarca ou aprisiona sua trajetória?

É importante como ato político. O título demarca, mas não aprisiona, porque o autor negro brasileiro continua a ser um autor de literatura brasileira. Então, se dizer autor negro é a possibilidade de se opor à negação da literatura negro-brasileira, a negação da intelectualidade negra, que, infelizmente, ainda existe.

O racismo presente na sociedade brasileira afeta a sua produção?

O racismo na sociedade brasileira é estrutural. Se não fôssemos uma sociedade marcadamente racista, com certeza teríamos mais leitores para a literatura de autoria negra. Então, o racismo afeta na quantidade de leitores, mas também, outras oportunidades que são negadas e que fariam o livro circular mais. Como autor, ele [o racismo] aparece no meu texto na consciência de alguns dos meus personagens.

Quais temas instigam a sua escrita?

Interessa a mim escrever sobre grandes temas: desigualdade social, patriarcado, machismo, homofobia e o quanto a sociedade brasileira é violenta. No entanto, todos esses temas aparecem na minha literatura em cenas muito cotidianas, com uma frivolidade que também é violenta, como ocorre na vida.

Qual a relação de sua escrita com suas experiências?

A minha literatura não reflete o que eu vivi como protagonista de situações, ela é mais fruto do que eu percebi, como eu captei o mundo. Então, o meu narrador é quase sempre esse observador que olha para o mundo com certa estranheza, com uma sensibilidade diante da dureza da vida.

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