Entrevista

“O espaço escolar precisa revelar cuidado”

Para Tereza Perez, ouvir a comunidade e dialogar com todos é fundamental para revigorar a escola e prepará-la para 2021

Por Dimalice Nunes

Ilustrações feitas a partir de colagens sobre o ensino remoto e as preocupações para um ambiente seguro durante a pandemia
Ilustração: Rafaela Pascotto/NOVA ESCOLA

Materializar em 2021 um espaço escolar seguro, revigorado, capaz de permitir que todos aprendam com segurança. Este é o desafio de diretores e educadores de todo o país na hora de planejar o novo ano letivo, planejamento que inclui o espaço físico, que demanda alterações sanitárias, mas que deve se manter como espaço pedagógico. No entanto, como tornar isso realidade?

Para Tereza Perez, diretora da Comunidade Educativa CEDAC, o diálogo é marco zero desse processo. “A pandemia acabou por gerar uma condição favorável para rever o projeto de escola. A gente precisa garantir que todo mundo aprenda. Então, o que podemos fazer? Pensar junto e não ficar com um modelo pronto e acabado”, defende a educadora.

Para Tereza, é importante levantar o que foi ruim e o que foi bom ao longo de 2020, o que era a escola e o que ela pode ser, pois há experiências que podem ser mantidas e outras que precisam ser revistas, considerando que o ensino remoto ou híbrido será realidade. “Mas não é somente ouvir: é ouvir para planejar e se corresponsabilizar”, alerta.

Num ano ainda cheio de incertezas, além do diálogo, o cuidado deve dar o tom e o espaço da escola precisa revelar isso. 

Confira os principais trechos da entrevista concedida por Tereza Perez, para NOVA ESCOLA.

NOVA ESCOLA: Quais os efeitos mais diretos do ensino remoto ou híbrido sobre o uso do espaço físico da escola, considerando que ele também é um espaço pedagógico? 

Tereza Perez: O maior prejuízo é para a interação, tanto dos professores com os alunos quanto entre os alunos. Todo o processo de aprendizagem implica esta interação, implica este envolvimento, seja em relação ao professor, seja em relação ao grupo classe.

Por exemplo: para produzir um texto eu posso juntar uma criança que tem uma imaginação mais desenvolvida e tenha bom repertório para isso, outra que redige bem e outra que tem uma questão detalhada em relação à reflexão sobre a língua. Se junto isso tenho uma produção muito boa. Então aquela criança que tem determinada dificuldade ou determinada facilidade, quando eu junto eu potencializo os dois. A interação entre pares na sala de aula é bastante potente e no ensino virtual é mais difícil sacar quais são as necessidades de cada um. 

O que tenho visto é que os alunos aprenderam neste ano com o ensino virtual, porém menos do que poderiam ter aprendido. Não foi um tempo perdido, há aprendizado. Mas nós, educadores, precisamos desenvolver diferentes técnicas, diferentes propostas. A gente precisa muito trazer a questão da descontração, da interação em pequenos grupos.

Pensando que o espaço físico, como espaço pedagógico, foi transportado para a tela e para a casa dos alunos, além desta falta de interação e de vínculo, quais outros efeitos é possível captar?

A gente tem de tomar muito cuidado porque estamos ensinando, sem querer, coisas que a gente não deveria ensinar. Uma é essa conexão com a tela, que é muito ruim, precisa haver um limite, não pode ser só isso. Outra questão é que as crianças e os adolescentes estão aprendendo a burlar a situação. Enquanto o professor está lá falando, ele tá no celular vendo um filme, fazendo outra coisa. Isso é um desserviço que a gente está prestando. 

Porque é muito legal a aula virtual, eu gosto da tecnologia e acho que a gente tem de potencializar tudo isso, mas não para reproduzir o que fazíamos no presencial. E isso todo mundo fala, mas a gente continua fazendo. Tem muita reprodução do que era presencial no virtual e isso reforça a perda de vínculo, a conexão direta, e "ensina" os alunos a burlarem o que está sendo posto. 

Como imaginar 2021 considerando que muitas redes adotarão o ensino híbrido? Como os gestores devem trabalhar para reordenar o espaço físico para que a interação, em alguma medida, possa ser resgatada, mas cumprindo todos os protocolos sanitários?

Acho que o uso dos espaços externos é absolutamente imprescindível. E não só agora, mas sempre. A gente tem de tirar essa imagem de que uma sala de aula está fechada em quatro paredes. Hoje a gente tem a internet, o celular, que te leva para um mundo de informação. A gente deveria, em relação ao espaço, não ficar restrito às quatro paredes. É abrir esse espaço e trabalhar nas áreas externas da escola. Se não tem na escola, vale buscar no bairro. 

Acho que pode ter encontro em determinados lugares, dependendo da idade e da autonomia de mobilidade de cada faixa etária. Pode marcar numa praça e fazer maior uso da cidade. Concomitantemente, pode haver coisas acontecendo na escola e coisas acontecendo fora dela. 

Mas, para tudo isso acontecer, a gente tem de juntar todos - os professores, o gestor, os familiares e os estudantes - para definir como a gente vai funcionar. Eu acredito muito na capacidade que todos têm de se comprometer com o que for acordado. 

Eu sei que nem todo mundo tem internet, nem todo mundo tem conexão, mas com quem tiver, é possível dialogar e fazer um planejamento que seja de corresponsabilidade de todo mundo: dos estudantes, dos professores, das famílias e dos funcionários. Perguntar-se: o que a gente quer e o que a gente pode para esse momento?

A pandemia acabou por gerar uma condição favorável para rever o projeto de escola, a gente precisa garantir que todo mundo aprenda, então o que podemos fazer? Pensar junto e não ficar com um modelo pronto e acabado.

Porque, principalmente com os adolescentes, determinar que vai funcionar de determinada maneira, e acabou, está fadado a não funcionar. Lógico que é o poder público que tem de definir os critérios, mas a forma como se vai lidar com essas limitações pode ser construída pelo coletivo da escola. 

Acredito muito nisso. Se a gente fizer isso teremos um ganho de participação. Tudo aquilo que está colocado como competências gerais da BNCC, especialmente a 7, 8, 9 e 10, que falam muito da questão do vínculo, do autocuidado, da cidadania, isso tudo é competência a ser desenvolvida. 

A gente estaria potencializando essas competências da Base no processo de participação e definição de rumos, de como podemos usar o espaço, como organizar, desde as cadeiras da escola até o refeitório, como a gente pode se ajudar. Esse é o movimento. 

Pensando na figura do gestor, que acaba por ser responsável por capitanear esse processo, o que você poderia dizer sobre como iniciá-lo? 

Eu diria para ele conversar com os diferentes atores: com os estudantes das diferentes faixas etárias, os pequenos também podem ser envolvidos. É importante levantar o que foi ruim e o que foi bom em 2020, o que era a escola e o que ela pode ser. Como fazer essa volta de maneira revigorada? Por exemplo, para os professores, o Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC) foi 10, eles adoraram as reuniões virtuais entre eles. Então isso pode ser mantido, não precisa mais fazer HTPC na escola, a gente pode manter virtualmente. 

Fazer esse balanço é o melhor caminho para o gestor escolar. E para o gestor educacional também, para os secretários de Educação. Se ele juntar as equipes técnicas e observar o que foi bom, ruim, o que precisa mudar e como revigorar a escola, é uma excelente orientação. 

Então o que o planejamento deste ano tem de diferente em relação aos anos passados é que ele vai ter de incluir esse passo antes, não é só cuidar de questões de ordem prática do espaço físico, mas tem um marco zero que é o diálogo. 

Sem dúvida. As famílias também se aproximaram mais da escola, então acho que todo mundo está com um vínculo maior com as famílias e elas precisam ser ouvidas. Mas não é somente ouvir: é ouvir para planejar e se corresponsabilizar. Os estudantes corresposabilizarem-se pela própria aprendizagem e as famílias entenderem o que a escola está propondo. Eu acho que o diálogo é o primeiro item da lista de planejamento. A gente quer que todo mundo aprenda, a gente tem a Base Nacional, que é o eixo que deve ser seguido... Então, como vamos trabalhar com isso? 

Agora pensando de forma mais prática: depois de todo esse exercício de diálogo e considerando as restrições que certamente ainda estarão presentes, como o gestor deve lidar com esse planejamento? O que muda naquele checklist que ele já faz no início de cada ano para cada um dos espaços da escola?

O espaço escolar precisa revelar essas intencionalidades. Se a gente quer receber bem esses alunos é preciso cuidar para que todos os protocolos de higiene sejam atendidos. Então é preciso pensar em uma sala com menor ocupação e boa ventilação. E acolher o espaço externo. Se a gente quer o uso desse espaço externo, o que vai ser feito? Que tipo de acomodação eu posso oferecer nesses espaços? Não importa a qualidade do que eu coloque, eu não preciso de equipamentos sofisticados para promover a ocupação desses espaços externos. Mas eu preciso gerar ambientes que de fato sejam acolhedores e entender que todos nós estamos precisando de cuidado: os adultos, as crianças e os adolescentes. O cuidado tem de ser algo muito presente na escola. O cuidado e essa responsabilidade pela aprendizagem e o espaço precisa revelar isso. O espaço precisa revelar cuidado.


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