Para refletir

Como o domínio das competências gerais da BNCC ajuda a não cair em fake news sobre as vacinas

Desenvolver o pensamento crítico e dominar a cultura digital ajuda os alunos do Fundamental a navegarem pelas informações e fazer melhores escolhas

Por Carol Scorce

Ilustração abstrata de notebooks e celulares com máscara sobre mesa. Álcool em gel ao fundo.
Ilustração: Julia Coppa/NOVA ESCOLA

Em alguns casos, não se vacinar é uma escolha individual, mas capaz de trazer consequências coletivas muito ruins para a sociedade. No Brasil, doenças já erradicadas estão ressurgindo - como o sarampo - na esteira da disseminação de informações falsas sobre os imunizantes, da polarização política e da distância de um tempo em que doenças matavam muito mais. 

Diante da pandemia da covid-19, desenvolveram-se vacinas em tempo recorde, mas a questão continua trazendo insegurança, dúvidas e politização. Algumas competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) - como Conhecimento, Pensamento Crítico e Cultura Digital - podem ajudar os alunos a navegar pelo mar de informações disponíveis. 

Mas como, na prática, os alunos podem desenvolver as competências gerais da BNCC úteis para que eles tenham mais discernimento diante de um tema atual como a vacina? O caminho é abordar a questão de maneira sistemática e por meio de um trabalho intencional e consistente da escola.

Como ensinar as Competências Gerais da BNCC

De acordo com o documento, competência é uma mobilização de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana. Portanto, ela não pode ser propriamente ensinada, mas desenvolvida pelo estudante. A professora de Ciências Cíntia Diógenes, do Time de Autores de NOVA ESCOLA, explica: “A escola deve propor ações, propor situações que contribuam para o desenvolvimento dessas competências. Talvez, em nenhum outro espaço, essa criança e esse jovem consigam desenvolver intencionalmente essas competências. Então é papel da escola”.

E como o professor leva isso para a sala de aula? 

A dica é apoiar-se em situações-problema, questões disparadoras e materiais de pesquisa diante dos quais os alunos precisem articular conhecimentos de diferentes áreas, habilidades de relacionamento e comunicação, capacidade de tomar decisões éticas etc.

A competências existem, explica Cíntia, para resolver demandas complexas da vida cotidiana. Afinal, elas têm uma função social para esse sujeito, e não somente uma função cognitiva. “Quando a gente vai lá nas habilidades da Base, vê que essas habilidades começam com verbos de ações cognitivas, demarcadas para serem desenvolvidas naqueles estudantes naquele período de tempo. É algo que simboliza a aprendizagem no campo cognitivo”, explica a especialista. “As competências não estão no campo cognitivo, e sim, no campo da aplicação, do desenvolvimento do ser como um todo, inclusive no âmbito social.”

Como as competências gerais relacionam-se ao assunto da vacina

É obrigatório se vacinar contra a covid-19? Não. Então,  por que é correto tomar a vacina? Essas são algumas dúvidas que seus alunos podem expressar. A resposta de Cíntia está na ponta da língua: “Porque é uma questão de empatia, de se preocupar com o outro. Não sou do grupo de risco, mas outras pessoas ao meu redor são, e eu posso transmitir [o vírus]”, explica Cíntia. 

Empatia e Cooperação é, de fato, a Competência Geral 9 da BNCC, seguida de Responsabilidade e Cidadania (competência 10). Portanto, uma forma de desenvolver ambas é estimular que os estudantes entendam a função coletiva da vacina, para além das escolhas individuais. 

Vejamos outros exemplos que demonstram como as competências podem nortear o trabalho com o assunto.

No início do século 20, as vacinas também foram questionadas. Um dos exemplos históricos mais conhecidos é a Revolta da Vacina (preparamos, inclusive, uma sugestão de atividade sobre isso nesta Caixa). Ao longo da quarentena em 2020, resgatou-se a memória de grupos que eram contra o uso de máscara durante a pandemia de Gripe Espanhola, por exemplo.

Estimulados pela polarização política e pela volatilidade das redes sociais, movimentos antivacina ganharam força no cenário internacional recentemente. Num ambiente assim, o conhecimento científico é posto de lado, como agora.

E como se desconstroem as fake news? Em primeiro lugar é com informação e conhecimento de fato. E esse conhecimento precisa atingir o público, ser acessível. Não funciona, por exemplo, passar textos de reportagens grandes ou complexas se os alunos não têm boa leitura. O papel do professor, pondera Cíntia, é trazer materiais que desenvolvam a compreensão do assunto.Para lidar com isso, a primeira dica é entender qual é a realidade da turma. Ou seja, se eles têm maior ou menor capacidade de compreender os materiais, e adaptá-los. É possível trabalhar com gibis e animações sobre o tema. Assim, a competência 1, Conhecimento, ganha espaço para florescer.

Quer mais um exemplo? A competência 5 da BNCC fala sobre a Cultura Digital, e é justamente pelos meios digitais que ocorre grande parte da difusão de notícias falsas e verdadeiras. Em vez de pedir que os alunos pesquisem na internet, proponha a análise dos textos, questionando o conteúdo e as fontes. 

A especialista explica o sentido essencial da atividade: “A ciência é feita de dúvidas. O cientista tem de ser um sujeito questionador”, reflete Cíntia. “O que a gente quer na escola é formar cientistas. Mesmo que não seja o profissional, mas formar sujeitos pensantes, reflexivos e curiosos.”

No caso de aulas sem os recursos digitais, é possível imprimir as notícias e enviá-las para os estudantes. A ideia é que eles julguem, por conta própria, o que é correto e o que não é, e expliquem o porquê. Na cultura digital, é fundamental que os alunos desenvolvam um juízo aguçado para discernir entre o que é verdade e o que é mentira.

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