Para repensar a prática

Gêneros confessionais para olhar para si e para o outro

No contexto de isolamento social e de incertezas, a literatura pode ser usada para trabalhar o autoconhecimento, o autocuidado, a empatia e a cooperação

Ilustração de aluno e aluna posicionados de forma abstrata sobre um livro aberto.
Ilustração: Rafaela Pascotto/NOVA ESCOLA

É quase um clichê, mas daqueles que se confirmam: a literatura é uma janela para o mundo. Mas é também uma porta de entrada para o mundo interior de cada um e para os muitos mundos que cada um tem ao redor. Por isso mesmo, os livros são ferramentas excelentes para explorar as competências socioemocionais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em especial a oitava e a nona, que tratam de autoconhecimento e autocuidado e de empatia e cooperação, respectivamente. 

“Essas duas competências estão em constante diálogo. Enquanto a oitava foca na questão do eu, a nona foca no outro. As duas se espelham, porque muito daquilo que eu construo a respeito de mim tem a ver como eu me enxergo pelo olhar do outro, pela alteridade”, explica Mazé Nóbrega, assessora pedagógica e consultora em metodologia de Língua Portuguesa de NOVA ESCOLA. Para ela, a literatura ajuda a nomear o não dito por meio da palavra - porque ela permite que o leitor entre em contato com o outro, que pode ser um personagem ficcional ou o escritor. “Mas esse outro coloca também um espelho: a partir do momento em que estamos lendo, é possível pensar sobre nossas experiências”, afirma Mazé. 

Eu, você, nós, o mundo e a literatura

A literatura serve para nos humanizarmos e acreditarmos que outros mundos são possíveis”, completa Sheila Dias Maciel, professora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), estudiosa dos gêneros confessionais. “É a experiência com o literário que revela a chance de vivermos outras vidas e entrarmos em contato com quem é semelhante ou diferente de nós em suas singularidades”, reflete. 

Sheila explica, ainda, que a literatura expõe outras culturas, outras formas de viver e pensar, outras épocas, e nos permite, por meio dessa viagem no tempo e no espaço, perceber, comparar, aceitar, recusar e refletir sobre o universo à nossa volta. 

Nesse âmbito, por meio do contato com as diversas formas do literário, o leitor vai notando, mais amiúde, quem é e quem gostaria de ser. “E mais: o contato com o texto promove a conexão com o outro, com o diferente, com as dificuldades próprias da experiência e do convívio humano necessário”, fala.

Embora esse jogo de olhar para si e para o outro permeie qualquer gênero literário, os confessionais (diário, memória e autobiografia) têm lugar privilegiado no assunto. Isso porque, no contexto literário, uma das possibilidades da escrita é a do uso da primeira pessoa, quando o narrador, de dentro da história, descreve a si e ao mundo à sua volta. “Os textos ditos confessionais parecem aproximar ainda mais o leitor consigo mesmo e com as dificuldades da existência, na medida em que o eu que lê se vê humanamente próximo do eu que escreve”, explica Sheila (confira uma lista de sugestões de livros aqui).

Obras confessionais e suas marcas

“O gênero confessional é muito apropriado para trabalhar com as competências de autoconhecimento e empatia e é especialmente bem-vindo neste momento em que a sociabilidade está limitada”, explica Maria Alice Junqueira, coordenadora de projetos de alfabetização do Cenpec Educação (conheça uma proposta de trabalho de leitura aqui). 

“Dentro do gênero confessional, o diário é uma proposta interessante porque ela também é muito própria para o ensino híbrido, já que é possível conciliar algumas discussões que podem acontecer em sala de aula, com a escrita, que deve ser feita em casa”, completa (leia uma proposta de atividade de escrita do gênero aqui). 

Confira, a seguir, as características de memórias, das autobiografias, dos diários e do texto autoficcional:

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1. MEMÓRIAS

Em geral há, na escrita de memórias, um retorno temporal por parte do eu-narrador com o intuito de evocar pessoas e acontecimentos que sejam representativos para um momento posterior, do qual este eu-narrador escreve. As características do gênero costumam ser longa cronologia de enredo, exemplaridade, caráter autopromocional, narrador em primeira pessoa que conta a própria história e capacidade de apreensão de um entorno histórico. Outra marca perceptível diz respeito a algumas expressões recorrentes, tais como “eu me lembro bem”, “se não me falha a memória”, “não me esqueci por completo”, expressões que agem como reguladoras entre os dois lados da memória – lembrança e esquecimento, já que a memória não funciona como um depositário que retém todos os dados que lhe são confiados. 


2. AUTOBIOGRAFIA

Esses textos funcionam, basicamente, ora como um exame de consciência, ora como uma exposição de si. O narrador em primeira pessoa conduz a narrativa. A presença do pronome "eu" vai pouco a pouco sendo preenchido pelo sujeito narrativo dentro da obra. Esse preenchimento dá-se  na medida em que novas informações sobre ele vão sendo trazidas à tona pelo enredo. O eu, ou a primeira pessoa, então, subverte-se em discurso de um ser (que pode aparecer como alguém de vida extratextual comprovada ou, ainda, uma alma de papel, de existência vinculada apenas ao texto que se apresenta) que vai sendo preenchido, na instância narrativa, pelo eu autoral. Na autobiografia, tem-se a impressão de que o texto parte do mundo para então focalizar o eu, ou a história de uma personalidade, como ensina Philippe Lejeune. Então, vamos do mundo ao eu, num movimento contrário ao do texto de memórias (mundo → eu).


3. DIÁRIO

A escrita em forma de diário possui uma estrutura fragmentada. As anotações são feitas com o apoio do calendário, sob a marcação dos dias e dos acontecimentos a eles vinculados. Em geral, o texto, também escrito em primeira pessoa, pode tratar de qualquer tema (a escrita cotidiana transforma-se numa espécie de ato religioso): um diário pode ser um registro com pretensão de verdade, uma história inventada escrita no formato característico, um diário de viagem, um diário de guerra, uma busca de si mesmo, uma escrita narcísica ou um texto hermético, com uma linguagem muito elíptica. A visão cristalizada de texto “verídico” ou que contém “toda a verdade” merece ser descartada porque se trata de um texto ficcional como qualquer outro. O diário pode ser visto também como uma prática de escrita e de leitura que compartilha com seus leitores uma pulsão pela vida, pelo "eu" e pela permanência. A marca fundamental desse gênero, contudo, é a periodicidade. É a cadência das anotações que edifica o diário.

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