PLANEJAMENTO

Dicas alinhadas à BNCC para planejar aulas de Geografia sobre o Afeganistão no Fundamental

O que ensinar para as turmas do 6º ao 9º ano no componente curricular sem se perder no mar de informações e na complexidade do país

Paisagem do interior afegão com tanque americano (T-62 MBT).
Paisagem do interior afegão com tanque americano (T-62 MBT). Exército dos Estados Unidos. Setembro de 2007. Foto: Wikimedia Commons

Falar ou dar uma aula sobre o que acontece no Afeganistão hoje não é tarefa simples nem para os estudiosos do assunto. Os conflitos vêm de longa data e múltiplos fatores são responsáveis pelo que é visto no noticiário ou na timeline sobre a saída das tropas estadunidenses e a tomada do poder pelo Talibã.

Por isso, é importante que o professor não queira abraçar tudo nas aulas para os anos do Ensino Fundamental 2 - mas também não é preciso jogar a toalha. Com um olho na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e outro nos tempos atuais, é possível trazer o assunto para as turmas dos Anos Finais, dando um ar de atualidade para as aulas de História e as de Geografia. 

Para refletir sobre o assunto, NOVA ESCOLA convidou a professora Maria Edney Ferreira da Silva, que faz parte do Time de autores, a jogar luz sobre o assunto e apresentar possibilidades de trabalho.

Vista de Kabul.
Vista de Cabul. Março de 2020. Foto: Wikimedia Commons

6º ano: Pule a geopolítica e foque na cultura e paisagem do Afeganistão 

A recomendação é não focar nos conflitos geopolíticos nas turmas mais novas, do 6º ano do Fundamental. Abordar a cultura (uma música, por exemplo), a paisagem do Afeganistão (marcada pelas altas montanhas) e as crises humanitárias no local (as crianças vão para a escola?) podem ser opções melhores por conta da complexidade e da faixa etária dos alunos.

"Querendo ou não, os conflitos precisam de maturidade um pouquinho maior. Os menores entendem o lado cultural, mas o grau de discussões e conflitos que envolvem o Afeganistão é muito complicado para eles”, explica. 

É possível, por exemplo, resgatar propostas dirigidas para o ano anterior (5º), como o estudo do sujeito e seu lugar no mundo. “A ideia é mergulhar na cultura do lugar. Pode ser uma alternativa para o professor”, diz ela.


A BNCC de Geografia traz essa possibilidade na descrição da habilidade: 

EF06GE01 - Comparar modificações das paisagens nos lugares de vivência e os usos desses lugares em diferentes tempos.


“No 6º ano, trabalhamos muito as paisagens, padrão de relevo, solo, localização e mapas. O professor pode abordar como o Afeganistão fica numa rota estratégica para o gás. Ele pode trabalhar como era Cabul, a capital do Afeganistão, antes da invasão e depois, a partir de imagens.”

Outra habilidade que pode incluir o Afeganistão é a que prevê a análise distintas de interações sociais com a natureza, com base na distribuição de componentes físicos-naturais, incluindo as transformações da biodiversidade local e do mundo EF06GE11 . "Ela contempla a questão da importância do território afegão graças às rotas de transporte do gás”, explica.

8º e 9º ano: Cuidado com o excesso de informação 

Também no 8º ano, mas especialmente no 9º ano, os alunos já têm um pouco mais de maturidade para compreender os conflitos geopolíticos, ainda que a temática do Afeganistão envolva muita informação para a idade deles. Por isso, afirma Maria, é fundamental que o professor faça um trabalho cuidadoso de seleção de pontos que ele quer tratar sem tentar abarcar tudo que envolve o mundo afegão neste momento.

É importante mostrar para os alunos que a invasão do Talibã a Cabul não ocorreu da noite para o dia e que conflitos anteriores fazem parte da história da região. “É um tema muito amplo, então eu acho que o mais seguro para falar de conflitos é começar com uma atividade mais lúdica. Outra ideia é fazer uma dobradinha com o professor de História da região.”

Como trabalhar Afeganistão e Talibã de forma dinâmica com o 9º ano

Maria conta como fez um professor da escola em que atua para trabalhar o tema de maneira lúdica com os adolescentes do 9º ano.

A dinâmica começou com o professor pedindo para a turma imaginar que os alunos estão divididos em grupos na sala, mas que todos precisam se retirar pela mesma porta para sair do ambiente. O professor determina regras para que a saída possa ocorrer, mas cada grupo deve pegar a regra e transformá-la. Uns podem conseguir as chaves da porta, mas outros podem encontrar outros métodos.

Com a brincadeira, o professor tenta fazer com que os alunos entendam o que é a disputa pelo poder que, no caso, seria a porta de saída. 

“Com isso, ele pode introduzir, por exemplo, a invasão da URSS em terras afegãs em plena Guerra Fria e como os EUA atuavam para combater a ocupação soviética na época”, explica Maria. 

Ele pode ainda focar em outro ponto, posterior, em como os EUA invadiram o Afeganistão após o 11 de Setembro e quais eram as intenções do governo americano ao permanecer por 20 anos naquele território.

Apoie-se nos mapas e nas imagens da crise humanitária do Afeganistão 

Em seguida, pontua Maria, é fundamental que o professor trabalhe com os alunos com mapas. “Muita gente acha que os conflitos são gerados pelo petróleo, mas o Afeganistão é ponto estratégico para grandes potências mundiais porque faz parte da rota do gás e por isso há essas disputas. O trabalho com mapas é maravilhoso porque primeiro ajuda o aluno a situar o problema e sua  localidade.”

Para fechar os trabalhos, o professor pode focar na crise humanitária que ocorre na região. Para isso, ele pode pedir que os alunos tragam imagens sobre a temática, bastante veiculada pela imprensa nos últimos dias. “Nada mais fala mais forte para os adolescentes que as imagens.”

O professor pode perguntar: por que dizemos que se trata também de crise humanitária? 

“A crise humanitária é uma crise que é preciso amparar as pessoas porque elas não têm para onde ir. Elas são obrigadas a fazer. Ninguém quis fazer aquilo”, caracteriza a professora. Ela recomenda trazer o aluno para a situação que vivem milhares de afegãos que tentam sair do país neste momento, com a pergunta: “Já pensou se você precisasse fugir, deixar amigos e família e ninguém te escutasse no mundo inteiro?”

Nesse sentido, pode-se inclusive abordar a temática da imigração no decorrer da história e ainda hoje é, em grande medida, fruto de questões humanitárias.

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