LÍNGUA PORTUGUESA

6 livros para acolher os sentimentos e abordar temas delicados com os alunos

Conheça dicas para conduzir a leitura e confira uma seleção literária para trabalhar temas sensíveis e desafios da adolescência com os alunos do 6º ao 9º ano em 2021

Fotomontagem de aluno escolhendo livros na biblioteca da escola.
Crédito: Duda Oliva/NOVA ESCOLA. Fotografia: Getty Images.

É bem provável que você já tenha ouvido que ler é viajar sem sair do lugar, não é mesmo? Assim como é possível visitar terras mágicas ou se teletransportar para uma cena de perigo e aventura, ao mergulhar em uma história é possível também sentir dor, alegria, tristeza, medo e outras emoções juntamente com os personagens. 

Por isso, ao abordar temas como morte, luto e problemas de saúde mental, como a depressão, por meio da Literatura, o professor precisa, sobretudo, lançar um olhar sensível para seus alunos antes mesmo de abrir o livro. 

A atitude é ainda mais relevante diante da realidade que atravessamos: a pandemia agravou globalmente a situação da saúde mental dos adolescentes. É preciso, portanto, atenção, empatia e escuta. 

Ao observá-los e se inteirar sobre a realidade de cada um, será possível compreender quais as necessidades literárias deste momento de retorno presencial após quase dois anos de pandemia, em que muitos passaram por situações de dor e perda.  

Antes de começar a ler 

Antes de definir o livro que será trabalhado em sala, uma boa dica é ler a obra e observar como o texto reverbera em si mesmo, segundo a professora de Língua Portuguesa Gina Vieira Ponte, educadora há quase 30 anos. 

“A minha prova dos noves enquanto professora é avaliar se dou conta de lidar com o texto. Se consigo falar sobre ele de maneira fluida, vai para a turma. Já deixei de levar textos que foram pesados para mim que sou adulta”, lembra. 

Portanto, a recomendação é não levar para a sala de aula uma obra que você leu e não conseguiu elaborar. 

Outra sugestão para esse contexto é não se prender ao gênero textual. Isso porque, diante de temas tão delicados, mais importante do que o gênero é o conteúdo da obra. Muitas vezes, uma poesia vai dialogar mais com as questões da turma do que um romance, por exemplo, e vice-versa. “Mais importante do que definir qual o melhor gênero é pensar em qual conteúdo quero levar para meus alunos, que história quero abordar e de que forma”, pontua Gina. 

Nesse sentido, evite também literatura que dê “lição de moral” nos alunos, desprezando questões mais essenciais, como a estética e a poética, para tratar de assuntos densos como morte e depressão. Aqui, é mais interessante que o professor enxergue a qualidade da obra e o tratamento que o texto dá à palavra. 

A literatura é um forte ponto de apoio para lidar com as situações difíceis vistas neste período pandêmico, mas vale para todos os contextos da vida, segundo Kátia Chiaradia, doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp. “Eu tenho uma fé imensa na Literatura, tenho uma decisão pessoal de que a Literatura, enquanto objeto de estudo, é um grande apoio”, reforça a educadora, que cresceu lendo livros e se especializou no assunto. 

A seguir, confira uma seleção feita por Kátia Chiaradia de livros para trabalhar com seus alunos.

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Capa do livro Um Lençol de Infinitos Fios, de Suzana Ventura, Editora Gaivota

Um Lençol de Infinitos Fios
de Suzana Ventura. Editora Gaivota

Além de trazer à tona a questão dos refugiados, essa obra fala sobre o valor da amizade e a descoberta do poder e da solidariedade. Nela, Maria, uma garota boliviana que vive em São Paulo com sua família, vive o dia a dia da cidade grande ao lado dos amigos. Até que um dia, durante uma pesquisa na biblioteca, ela conhece uma jovem haitiana que está na cidade em busca de seu pai. Um Lençol de Fios Invisíveis ficou em primeiro lugar no Prêmio Literário Biblioteca Nacional/Categoria Juvenil.


Capa do livro O Haiti de Jean, de Cassiana Pizaia, Rima Awada e Rosi Vilas Boas Editora do Brasil.

O Haiti de Jean
de Cassiana Pizaia, Rima Awada e Rosi Vilas Boas. Editora do Brasil

Segundo lugar no Prêmio Literário Biblioteca Nacional/Categoria Juvenil, essa obra também retrata a vida de refugiados que vieram para o Brasil em busca de melhores condições de vida, passando por temas como superação, morte, coragem, determinação e recomeço. A narrativa é contada a partir do olhar do menino Jean e mostra as dificuldades enfrentadas pela população haitiana para sobreviver após um fenômeno tão destrutivo como um terremoto.


Capa do livro Três dias e mais alguns, de Caio Riter. Editora do Brasil.

Três Dias e Mais Alguns
de Caio Riter. Editora do Brasil

Com muito senso de humor, Caio Riter conta, nesse livro que conquistou o terceiro lugar no Prêmio Literário Biblioteca Nacional/Categoria Juvenil, os conflitos vividos pelo adolescente Matias, suas preocupações e reflexões sobre o que acontece em torno de sua família e seu meio social. O jovem vive com a mãe e dois irmãos em uma comunidade carente de Porto Alegre e sonha com um mundo mais justo. Com sensibilidade e emoção, a obra trata de questões como família, desigualdade social, saúde mental, preconceito e violência.


Capa do livro Clarice, de Roger Mello. Global Editora.

Clarice
de Roger Mello. Global Editora

Clarice é uma obra inédita do consagrado escritor Roger Mello. O livro tem muitos enigmas, a começar pela estética: algumas páginas são inteiras pretas, outras não. A obra apresenta, a partir da observação de duas crianças, as dores da ditadura militar, época de muita violência, opressão, censura, perdas e luto, especialmente na América do Sul. A morte é um dos temas constantemente presentes nas páginas.


Capa do livro Minha vida não é cor de rosa, de Penélope Martins. Editora do Brasil.

Minha Vida Não É Cor-de-Rosa
de Penélope Martins. Editora do Brasil

Minha Vida Não É Cor-de-Rosa trata dos desafios de ser menina, sobretudo em uma sociedade machista e patriarcal. Ao tratar de temas como feminismo, desconstrução de estereótipos, igualdade e direitos humanos, a obra também mostra como, quando se é adolescente, muitas vezes é preciso morrer para ressuscitar enquanto se está crescendo e como lidar com esses lutos diários nessa fase da vida.


Capa do livro A Cientista guerreira do facão furioso, de Fábio Kabral. Editora Malê.

A Cientista Guerreira do Facão Furioso
de Fábio Kabral. Editora Malê

Nessa obra afroturista, o escritor Fábio Kabral conta a história de Jamila Olabamiji, garota que tem o objetivo de se tornar a maior engenheira do mundo. Em um momento em que discutir e lutar por uma educação antirracista é essencial, trazer à tona histórias como essa colabora para debater pautas como o racismo estrutural em um país onde a população negra é a mais afetada pela covid-19.

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