Setembro Amarelo

Saúde Mental: como acolher os sentimentos dos alunos na volta às aulas

Saber ouvir, evitar chavões e legitimar as emoções trazidas pelos adolescentes são orientações na hora de enfrentar assuntos delicados como a morte, o luto e a depressão no contexto escolar

Fotomontagem de alunos do fundamental dois, usando máscaras em frente à escola.
Crédito: Duda Oliva/NOVA ESCOLA. Fotografia: André Arruda/NOVA ESCOLA.

Distanciamento dos amigos, desemprego de familiares, violência doméstica, medo da contaminação por coronavírus, morte, luto, perdas. Em quase dois anos desde o início da pandemia de covid-19, essas são algumas das situações enfrentadas por milhares de estudantes que, diante de um cenário de dor, sofrimento e incertezas, também acumularam os desafios do ensino remoto. 

Com o avanço da vacinação no Brasil, muitos alunos do Ensino Fundamental estão voltando a frequentar a escola, mas com uma bagagem de lembranças que podem ser dolorosas e com os sentimentos à flor da pele.  

Para a psicóloga Simone Poletto, é essencial ter em mente que qualquer forma de sofrimento psíquico deve ser olhada com cuidado e legitimada - e não abafada, escondida ou evitada. 

A especialista em Saúde Mental pela Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul observa que falar sobre sofrimento e, principalmente, suicídio ainda é tabu para quase todo mundo. Segundo a especialista, há temores ainda comuns, como acreditar que falar sobre o assunto pode levar as pessoas a pensarem sobre o suicídio. 

“O que de fato ocorre é que quanto mais informação as pessoas tiverem a respeito do sofrimento que vivem, mais instrumentos terão para lidar com ele. Isso vale para todas as faixas etárias, respeitando o quanto se pode processar e entender em cada fase da vida. Falar não só sobre o suicídio, mas sobre o sofrimento psíquico e modos de compreendê-lo e lidar com ele, ajuda a diminuir esse tabu que cerca o assunto”, afirma a especialista, que fez parte da elaboração do guia Saúde Mental na Escola em Tempos de Pandemia

Criada em 2014 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), a campanha Setembro Amarelo faz parte do esforço para quebrar o tabu em torno do suicídio e visibilizar ações para a sua prevenção - que passam pela conscientização a respeito do tema e pela abertura do diálogo sobre saúde mental e depressão, inclusive no espaço da escola. As ações tornam-se ainda mais relevantes nos tempos complexos que vivemos em 2021.   

“Antes da pandemia nós discutimos a importância de falar sobre a morte porque há crianças e jovens enlutados e que deveriam ter um espaço de cuidado e acolhimento na escola”, acrescenta Maria Júlia Kovács, professora sênior do Instituto de Psicologia e membro-fundadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM) da Universidade de São Paulo (USP). Ela conta que as discussões foram motivadas pelo fato de que muitas escolas estão situadas em regiões vulneráveis, com muitos casos de violência. 

Com a pandemia e o retorno às atividades presenciais, muitas crianças chegarão à escola com dificuldades em decorrência das situações vividas na pandemia, de acordo com a pesquisadora. 

Por isso, é fundamental abrir espaço no contexto escolar para falar sobre morte, luto, tristeza, depressão e o que foi a pandemia para cada uma delas, a fim de acolher essas crianças e adolescentes. 


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"É importante lembrar que os educadores não são psicoterapeutas, portanto, o seu trabalho e cuidado é muito mais no sentido de ouvir as crianças, acolher os sentimentos e detectar crianças que estão passando por sofrimento intenso, ver se é possível encaminhar para um serviço especializado de psicologia”, reforça Maria Júlia. 

O primeiro ponto, segundo a professora Gina Vieira Ponte, formadora da rede pública do Distrito Federal com 30 anos de experiência em Educação, é definir qual o papel do professor nesse contexto, especialmente ante a importância de outros profissionais que possam lidar com esses temas. 

“O professor precisa qualificar-se para abordar esses assuntos, claro, mas também precisa ter humildade para reconhecer seus limites”, reflete. Além disso, ao trabalhar essas temáticas, o professor tende a se deparar com outros desafios, afinal, falar de morte, luto, suicídio e saúde mental ainda é um tabu no ambiente escolar. Isso acontece, explica Gina, porque no imaginário coletivo a escola é espaço preocupado com o conteúdo e não com o sentir. 

“Essa perspectiva de uma escola onde o sentir não é considerado tem uma base histórica. O ponto de partida é todo professor admitir que isso é tributário desse modelo educacional em que o sentir e o querer não entravam nesse contexto”, comenta, ao se referir ao conceito que Paulo Freire definiu como “educação bancária”, quando o conteúdo é mais importante do que o sujeito. 

Para Gina, o professor deve estar ciente das condições daquela realidade da qual as crianças fazem parte para, inclusive, pensar no acolhimento de meninas e meninos negros, uma vez que foram os mais prejudicados pela pandemia. “Temos estudos que deixam evidente que o número de estudantes negros que conseguiram acessar o ensino remoto é cinco vezes menor do que o número de estudantes brancos”, cita. “Neste momento, o mais importante a fazer é uma avaliação diagnóstica pensando não só nas aprendizagens, mas também, no perfil socioeconômico dessas crianças”, reforça.

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Como acolher os sentimentos e apoiar a saúde mental dos alunos  


Mais do que focar no tema suicídio ou em ações pontuais apenas em setembro, é interessante construir espaços de acolhimento para as emoções dos alunos desde o início do percurso escolar. 

É fundamental, ainda mais diante do cenário da pandemia, que a saúde mental dos estudantes - inclusive temas como a depressão - encontre espaço, apoio e abertura permanente na escola. 

Leia, a seguir, orientações para fazer isso na prática.

1. Não negue o diálogo. Segundo Gina Vieira Ponte, negar o diálogo é uma ingenuidade, porque se, eventualmente, tiver ocorrido um suicídio naquele espaço, por mais que a escola se recuse a falar, esse tema não só não vai desaparecer, como vai continuar machucando. “É fundamental o professor compreender que o conteúdo [escolar] não é mais importante que o sujeito [o aluno]”, frisa a educadora.

2. Evite os chavões. Ao abordar temas tão delicados, a psicóloga Maria Júlia Kovács assegura que é preciso tomar alguns cuidados, principalmente em relação ao que será dito. Evite expressões como “a pessoa está melhor onde está”, “ela/ele está em um lugar maravilhoso”, “você vai superar”, “vai ficar tudo bem”. Deixe que a criança fale. 

3. Não romantize a morte. “Em momentos de troca a respeito do sofrimento psíquico, nele incluído o suicídio, evite falar sobre meios pelos quais a pessoa pode tirar a própria vida, evitar trazer a morte como uma solução para os problemas ou romantizá-la”, alerta Simone Poletto. 

4. Saiba ouvir. O mais importante durante essas trocas é proporcionar que as crianças e os adolescentes falem sobre as experiências vividas, explica Maria Júlia. A partir da escuta, o professor pode falar que é um tempo de compreender o que foram essas perdas, quais são os sentimentos, falar sobre a saudade, a manutenção do vínculo na memória, poder ver fotos, lembrar e escrever sobre a pessoa querida que morreu, poder fazer desenhos, contar histórias e assim por diante, recomenda a psicóloga. 

5. Use os termos “morte” e “luto”. Também é interessante usar os termos diretamente, como “morte” e “luto”, e entender que a criança também faz parte da população que viveu e está vivendo essa situação pandêmica e como isso marcou a vida dela.

6. Legitime as emoções. E se a criança chorar? “A manifestação de qualquer emoção deve ser legitimada como forma de elaboração das situações vividas pela criança ou adolescente. O principal é que as crianças e os adolescentes se sintam acolhidos em seu sofrimento e encontrem na escola um local de suporte”, afirma Simone. 

7. Conte com uma rede intersetorial. Além desses cuidados básicos, também é fundamental que a escola possa contar com a rede intersetorial: de saúde e de assistência social, por exemplo.

Pensando na rede pública de saúde, os serviços da atenção básica são fundamentais nas intervenções em saúde construídas com os estudantes. Além disso, outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), podem ajudar na avaliação de casos específicos, que demandam outras intervenções em saúde. Escolas que contam com profissionais da Psicologia ou do Serviço Social também podem contar com esses profissionais para a construção de estratégias de cuidado aos alunos, e avaliação de situações que necessitem de intervenção específica.


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