PARA PENSAR A BNCC

Os seis direitos da Educação Infantil estão sendo assegurados no isolamento social?

Explicá-los às famílias e considerá-los nas atividades a distância é fundamentail neste momento. No retorno, "conviver" e "participar" devem ser bastante estimulados

Os direitos das crianças na Educação Infantil também são responsabilidade das famílias e da sociedade. Ilustração: Thiago Lopes/Estudio Kiwi/NOVA ESCOLA 


A Educação Infantil organiza-se em torno dos
direitos de aprendizagem e desenvolvimento, descritos no texto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). São eles: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Segundo o documento, essas aprendizagens não devem ser encaradas como algo natural ou espontâneo. Os professores devem, intencionalmente,  organizar e propor experiências em que as crianças possam desfrutar desses direitos. E quando o contato direto com elas não é mais possível?

“É sempre importante considerar que esses direitos são de aprendizagem, mas também, de desenvolvimento. Então, não dizem respeito só ao que acontece e pode ser proposto na escola, porém, trata-se de uma responsabilidade da família e de toda a sociedade”, comenta Karina Rizek, consultora da Avante Educação e Mobilização Social e Formadora da Escola de Educadores. 

Independentemente da situação de distanciamento social, escola e família devem ser parceiras para assegurar esses direitos. O primeiro passo é conversar com os pais ou responsáveis pelas crianças sobre o que eles significam e propor atividades em que possam ser garantidos. 

Segundo Mônica Samia, coordenadora do Programa de Educação Infantil da Avante Educação e Mobilização Social, a escola pode oferecer às famílias sugestões de como fazer algumas explorações em casa. Um exemplo é incentivar as crianças a observarem alguns elementos na hora fazer um bolo, como os ingredientes e o formato e tamanho da forma. “Isso pode ser feito sem que haja comparação ou intenção de reproduzir um ambiente escolar em casa. Os pais têm de saber que isso faz parte do currículo. Senão, desenvolve-se uma falsa compreensão de que só tem valor sentar, pintar e fazer atividades no papel”, comenta Mônica.

A equipe escolar deve fazer formações a respeito dos direitos, tendo como ponto de partida a BNCC para que todos possam compreender sua importância, apresentá-los para as famílias, montar sugestões de experiências e esclarecer dúvidas. Essa comunicação com os adultos da casa pode ocorrer por meio de reuniões virtuais, publicações em redes sociais ou mesmo conversas individuais pelo telefone. Deve-se sempre levar em consideração as condições de espaço, materiais e disponibilidade de tempo para que os pais ou responsáveis tenham condições de fazer as atividades com os pequenos, além das condições física e psicológica de todos da casa.

“É dever dos educadores e das redes encontrar saídas para atender todas as famílias, pois estamos falando de direitos, não de privilégios. É possível criar soluções analógicas: em vez de enviar folhas para a criança colorir, que é uma atividade de baixa demanda cognitiva, pode-se enviar dicas impressas do que os pais podem fazer com as crianças”, sugere Mônica. Portanto, sem uma boa orientação da escola, é inviável criar expectativas de que os direitos serão abordados no contexto de cada criança em casa. 

Entretanto, a escola precisa ter a sensibilidade de que o acesso às propostas, impressas ou em meio on-line, não é uma garantia de que as crianças poderão usufruir de seus direitos. Muitos pais já estão trabalhando presencialmente enquanto a creche de seus filhos permanece fechada, dificultando a dinâmica familiar e de cuidados com a criança. “Os adultos também têm direito ao trabalho, ao salário e à subsistência para si e à sua família. Mas ao retomar as atividades de trabalho sem que as crianças tenham onde ou com quem ficar, elas ficam ainda mais privadas de seus direitos”, reflete Karina. Isso ocorre quando os pequenos são deixados sozinhos ou aos cuidados de um irmão mais velho que também não tem idade o suficiente para cuidar de outra pessoa.

No que diz respeito ao retorno às atividades escolares presenciais (e também ao que for proposto remotamente), é preciso tomar cuidado para não cair em um erro comum: estabelecer uma hierarquia entre os direitos e uma divisão de horários para trabalhar com cada um. Todos eles são muito importantes, e uma mesma atividade pode abarcar vários deles, ainda que possam dar ênfase a um ou a outro. Por exemplo, no retorno ao presencial, “conviver” e “participar” serão grandes desafios devido ao longo tempo em que a comunidade escolar não teve contato presencial e à necessidade da adoção de protocolos de saúde. Mas isso não significa que o direito de conviver é mais importante, e sim, que a situação demanda um olhar atento sobre como ele se dará.

“Mais do que a ansiedade de garantir o cumprimento de um currículo, professores precisam fazer um acolhimento e uma escuta das crianças e famílias. Elas vão contar o que aconteceu durante o período em casa por meio de falas e comportamentos, sobre os quais se deve ter um olhar e uma escuta atentos. Isso é primordial e não se faz em só uma semana”, reforça Karina. Depois é que os professores podem começar a registrar quais atividades e experiências estão propondo, como elas se relacionam aos direitos e como as crianças respondem a elas.

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