PARA SE INSPIRAR II

Chega de saudade: como foi o retorno das crianças ao espaço ekoa

Na volta, o espaço ekoa proporcionou aos pequenos brinquedos e atividades de que mais sentiam falta

Por Maria Lígia Pagenotto

Ana Paula Yazbek conta que as crianças demonstraram imensa alegria com a volta. Foto: Lana Pinho/NOVA ESCOLA

Impossível conter a emoção. Quando as primeiras crianças chegaram ao espaço ekoa, em São Paulo, o que se viu foi um transbordamento de sentimentos. Famílias e educadores cumprimentaram-se por cotovelos, com sorrisos escondidos atrás das máscaras, como mandam os protocolos de segurança. “Parecia que esse dia não iria chegar”, diz Ana Paula Yazbek, coordenadora pedagógica da creche. 

Mas chegou, e foi muito emocionante para todos. O reencontro, relata Ana Paula, recuperou a esperança de uma vida normal, aquela que as crianças e a escola tinham antes da quarentena.

Em quase todas as instituições, públicas ou privadas, a volta foi ou deverá ser marcada por esse caldeirão de sentimentos após meses de encontros restritos a ambientes virtuais.

Ana Paula conta que as crianças demonstraram imensa alegria com a volta. Houve estranhamento, mas a curiosidade em explorar o novo espaço, que passou por uma reforma, sobrepôs-se a qualquer receio. Ela faz uma avaliação muito positiva dessa volta. “Estamos podendo viver tudo novamente, e as crianças sentiram isso”.

Os poucos que ficaram mais receosos no início puderam contar com a presença dos pais e responsáveis por algum tempo na creche, numa espécie de readaptação. Ela sugere que isso possa ser proporcionado para quem está recomeçando.

Outro ponto que ela acha imprescindível: estimular que as crianças transitem livremente pela creche, para que reconheçam seu lugar. Na escola, as máscaras não assustaram as crianças entre 1 ano e 7 meses e 5 anos, a faixa etária que Ana Paula acompanha mais de perto. 

Uma estratégia interessante adotada pelo ekoa foi o uso de máscaras de cores diferentes, trocadas a cada 3 horas, por medida de higiene. “Uma criança logo percebeu isso e nos indagou se não estava na hora de mudar a cor da máscara”, conta Ana.

No retorno, em 7 de outubro, voltaram 8 crianças pela manhã e 15 no período da tarde. A exemplo dos bebês, todas já estavam na escola antes da pandemia e elas também permanecem, nesse início, cerca de duas horas no ekoa. Aos poucos, o tempo irá aumentando.

Nem todas as crianças foram para a escola. Algumas famílias prefeririam estar mais seguras para deixar os filhos voltarem à creche. Essa segurança foi sendo construída, segundo Ana Paula, pelas trocas nos grupos de WhatsApp e pelas redes sociais.

A educadora acredita que exista nas crianças, de forma geral, essa avidez pela volta. “Acho que elas estão sobrecarregadas de estarem em casa sendo só filhos, tendo de atender às demandas dos pais e das mães”, diz. No seu entender, esses sentimentos, e até o estresse desse convívio intenso, ocorrem em quase todas as famílias, especialmente naquelas em que o filho é a única criança da casa.

“Falta interlocução, simetria. Por mais atenção que os pais ofereçam, é difícil estar disponível por muito tempo. É normal ter de dizer 'aqui não pode', 'não sobe aí', 'a mamãe está trabalhando'”, ressalta Ana. 

A volta ao convívio com pessoas da mesma idade só traz benefícios às crianças, acredita a educadora. “Algumas famílias contam que o filho ficou mais tranquilo depois que retornou, pois andava irritado, estressado."

Desejos realizados

Ao longo da quarentena, os educadores mantiveram contato permanente com famílias e crianças, por meio de grupos de WhatsApp. O retorno foi muito preparado, com conversas prévias por vídeo. Ana Paula relata que os professores tiveram o cuidado de perguntar a cada criança o que ela mais desejava encontrar na chegada à escola.

“Eles foram expondo suas saudades: de brincar com a motoca, de ir para a areia, de fazer pintura, de reencontrar tal amigo”, lembra a coordenadora.

Quando chegaram, a escola teve a delicadeza de atender a esses pedidos, o que foi muito importante, segundo Ana. “Elas se sentiram ouvidas concretamente.” Para a coordenadora, essa questão da escuta é recorrente no âmbito pedagógico, mas nem sempre é realizada de fato. “Acho que conseguimos fazer isso neste momento de forma muito positiva para as crianças.”

Perdas e ganhos

Como Márcia Oliveira, Ana Yazbek também prefere destacar o que as crianças ganharam no convívio com os pais, e vice-versa. As famílias, acredita, tiveram essa oportunidade de convivência intensa, que é permeada por contradições, é complexa, mas que por isso mesmo também promove ganhos para as crianças, para todos.

No entanto, do ponto de vista da troca, para os pequenos é muito importante que tenham por perto crianças da mesma faixa etária. Daí a importância das atividades presenciais.

Outro ponto que ressalta como desafiador é a questão motora. “Dificilmente, morando em apartamento ou em espaços pequenos, as crianças podem se movimentar adequadamente. Para elas, poder voltar a se mexer, subir e descer de lugares, é muito importante.”

Preparo para uma volta tranquila

No caso do ekoa, a tranquilidade do retorno foi pontuada pelo preparo prevendo a volta. Essa organização deu-se desde a reestruturação dos espaços para receber as crianças de volta, passando pelos protocolos de saúde, até a conversa constante com pais e crianças maiores.

Os educadores foram treinados com especialistas, para que tirassem dúvidas e se sentissem seguros no trato com as crianças. Na medida do possível, é importante que as escolas passem por esse preparo antes de voltarem presencialmente, recomenda Ana Yazbek.

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