Para repensar a prática

A importância de priorizar o brincar espontâneo na Educação Infantil

Nessa proposta, são as crianças que estabelecem os objetivos e cabe a pais e professores acompanharem a pesquisa e a exploração para que elas consigam vivenciar todas as suas potencialidades e aprender

Ilustração de crianças brincando em casa com a mãe.
Ilustração: Nathalia Takeyama/NOVA ESCOLA

Depois que a pandemia da covid-19 obrigou todos a se isolarem em casa, de uma hora para outra tornou-se evidente a fragilidade das relações entre escola e família. Na cabeça de muitos pais com filhos na Educação Infantil, os professores deveriam enviar tarefas, receitas ou se desdobrar em atividades para manter as crianças ocupadas. Já os docentes passaram a depender de quem estava em casa para seguir as sugestões encaminhadas, a maioria com intenção de tirar os pequenos da frente da TV e dos celulares. “A visão dos professores desmerecia a família e colocava a escola como única detentora de saberes. Do lado dos familiares houve quem se desencanou dos pedidos e quem aumentou as cobranças. Foi preciso repensar e potencializar essa relação”, observa Mariana Americano, formadora do Instituto Avisa Lá, que participou de um projeto junto de secretarias de educação em cidades do interior paulista durante a pandemia. 

Os professores, obrigados a fazer postagens toda semana, às vezes em plataformas on-line, a pedido dos gestores, facilmente caiam na cilada de orientar e dar instruções para as atividades. “Esse brincar mais pedagógico, terapêutico ou de entretenimento é diretivo, não dá chance para a criança se expressar ou usar a criatividade e a imaginação”, ressalta Sandra Eckschmidt, doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), coordenadora e pesquisadora do projeto Território do Brincar, que investiga e registra a cultura infantil. Em parceria com o Instituto Alana, o Território do Brincar lançou, em março, o filme Brincar em Casa resultado de uma pesquisa realizada ao longo de seis meses com 55 famílias de diversos contextos e países e mostrou como as crianças exploraram os ambientes da casa em suas brincadeiras durante a pandemia (acesse o filme aqui). 

“O brincar espontâneo é diferente porque parte da criança, ela aciona um desejo interior que a faz transformar o contexto simbólico e os conteúdos concretos. Acontece quando ela pega um pano para construir uma cabana, ou uma panela e uma colher para ensaiar uma batucada”, explica Sandra. A pesquisadora pondera que o mais complicado, tanto para pais quanto para professores, é que o brincar espontâneo não se controla nem leva a resultados previsíveis (leia a entrevista completa com Sandra aqui). 

Na brincadeira livre, quem estabelece o objetivo é a criança, então a posição dos educadores deve ser acompanhar a pesquisa e a exploração: é por meio dela que os pequenos aprendem. O bebê conhece o mundo brincando e interagindo com o corpo e os objetos, depois começa o brincar simbólico, em que imita o adulto ou outra criança. “O ser humano já nasce curioso, é pesquisador, e cabe ao adulto não podar essa experimentação”, diz Mariana, que é adepta da abordagem de Emmi Pikler, e, durante a pandemia, criou o grupo de estudos “Como brincam os bebês”. 

O brincar e as experiências na BNCC

"Brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais."  (BNCC, p. 38)

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI), de 2009, já colocavam como eixo estruturante a interação e a brincadeira, o que foi mantido na BNCC para esta etapa. No documento, o pressuposto é de que a criança pequena aprende por meio da experiência. Mas poucos sabem que nos parques infantis, concebidos pelo escritor e pesquisador Mário de Andrade em 1935 na cidade de São Paulo, a exploração já era considerada essencial para a aprendizagem. “Essa concepção perdeu-se mais tarde e foi trocada pela de prontidão, quando a expectativa era de preparar as crianças para a entrada no Ensino Fundamental”, conta Rosangela Gurgel Rodrigues, da EMEI Dona Leopoldina, em São Paulo. Por esse motivo, muitos pais vivenciaram uma Educação Infantil descolada das práticas atuais. “É preciso formar as famílias sobre a importância do brincar e, na pandemia, deixamos claro que, mesmo longe da escola, as crianças não param de aprender”, reflete a professora e formadora de Educação Infantil, que já ocupou cargos diversos nos 36 anos de trabalho na rede paulistana. 

Com as escolas fechadas, o desafio foi comunicar aos pais e responsáveis propostas simples, com materiais que não gerassem gastos, aproveitando elementos naturais e o que houvesse em casa para explorar, descobrir, interagir, fazer junto. Assim como nas DCNEI, o Currículo da Cidade (da SME SP) considera a criança potente, que cria, constrói, pensa, fala e escolhe, e o papel dos adultos é pensar propostas para que ela consiga vivenciar todas as suas potencialidades. “Aos pais, pedimos que reservassem um momento para ler uma história, cantar, montar um quebra-cabeça, jogar bola, para criar um vínculo com seu filho”, observa Rosangela. Tanto na escola quanto em casa o brincar precisa de tempo e espaço. Imagine um menino que monta um zoológico com blocos, caixinhas e bonecos hoje e no dia seguinte continua a construir... a mãe precisa desprender-se da mania de desmontar e guardar tudo para dar a ele essa oportunidade. 

“As famílias são a ponte, os olhos e as mediadoras desse brincar que pressupõe protagonismo, que é muito diferente de uma tarefa a ser executada”, ressalta Mirtes Ramos Melo, professora da Creche Municipal João Eugênio, no Recife (PE), que usou o WhatsApp como meio de comunicação com os responsáveis pelas crianças de sua turma de 2 anos, propondo situações que levassem os pequenos à vários tipos de experimentação (leia mais do trabalho dela aqui).

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