Para se inspirar

Como a professora Mirtes estimulou as experiências das crianças no ensino remoto

Ao propor desafios simples e incentivar o brincar livre durante a pandemia, educadora garantiu momentos de interação com objetos do cotidiano, elementos da natureza e pessoas da família

Ilustração de celular com imagem de criança e um familiar sobre uma mesa com folhas de papel.
Ilustração: Nathalia Takeyama/NOVA ESCOLA

A Creche Municipal João Eugênio, no Recife (PE), funciona em uma casa adaptada. “As salas ficam nos antigos quartos. E a minha sala ocupa o menor deles”, explica a professora Mirtes Ramos dos Santos Melo, que no ano passado tinha 16 crianças em sua turma de 2 anos (em 2021, são 12, da mesma faixa etária). Essa relação com uma casa, pequena e restrita, e o exercício de aproveitar cada cantinho da creche para fomentar as experiências infantis acabou por auxiliá-la na adaptação ao isolamento provocado pela pandemia. Preocupada em garantir o brincar dos pequenos e tirá-los da frente das telas, resolveu enviar às famílias um breve recado de WhatsApp por dia, propondo desafios com recursos simples. 

Num dos vídeos que gravou, reuniu um lençol grande dobrado, algumas panelas, peneiras, colher de pau e escorredor, enquanto sugeria que os adultos ou as crianças da casa montassem uma cabaninha junto com os bebês, dispondo os objetos dentro ou fora dela, separando ainda um pouco de água e folhas ou outros elementos naturais. Na narrativa, ela pediu para fazer o que a criatividade mandasse e deixar a criança livre para mexer nas coisas e explorar o novo ambiente. “Fiz questão de mostrar o pano dobrado em vez de uma cabana já feita, para não levar ideias prontas”, comentou. Pais ou avós devolviam fotos ou vídeos para o grupo, mostrando a interação dos pequenos. 

A proposta exigiu desprendimento, já que Mirtes usava seu número pessoal de celular, não estabeleceu regras de horário (recebia as mensagens a qualquer hora e respondia sempre que possível) e mostrava cantos e objetos da própria casa. “Na verdade, essa interação permitiu que espiassem a minha morada, assim como eu a deles. E aos poucos fui descobrindo o que essas crianças tinham em suas casas e, assim, pude propor experiências dentro desses contextos”, conta. 

Numa semana, a proposta foi abordar plantas e natureza: a professora iniciou com um sonoro bom dia e começou a apresentar as flores do seu jardim. Logo recebeu no grupo vídeos das crianças mostrando seu quintal. Uma delas, com a ajuda da mãe, enviou pistas para que os colegas descobrissem “que árvore é essa?” Para estimular os pequenos a procurarem animaizinhos nas áreas externas, sempre privilegiando o espontâneo, Mirtes gravou um vídeo assim que apareceu uma borboleta em seu jardim, flagrando o cachorro correndo atrás do inseto. As crianças encantaram-se e, com a permissão dos responsáveis, mexeram na terra, encontraram minhocas e formigas e apresentaram seus pets para o grupo.  

Observação que leva ao encantamento

O contato era diário, engajando mais da metade da turma todos os dias e parte dela ocasionalmente. Dessa maneira, a professora procurava orientar pais e responsáveis a separar materiais e deixar à disposição dos pequenos, garantindo que as brincadeiras fossem propostas pelas próprias crianças. Completando 39 anos de carreira este ano, Mirtes foi uma das vencedoras do Prêmio Educador Nota 10 em 2020 e se diz fã da pedagogia emancipadora de Jorge Larrosa, que valoriza a experiência e o protagonismo na Educação Infantil, e das Cem Linguagens de Malaguzzi (de Reggio Emilia). “Aos poucos as famílias, ao compartilharem as descobertas, foram seguindo o percurso dos pequenos, a beleza do seu caminhar, vendo o processo e a paisagem e não apenas uma chegada”, relata a educadora.  

“Professora, estou me descobrindo com meu neto”, declarou Lourdes, avó de Otto. De acordo com Mirtes, ao registrar o menino, ela dá risada nos vídeos e se mostra mergulhada na experiência. Em uma delas, quando pendurou saquinhos com água no muro e deixou a criança interagir, vó Lourdes exclamava “gotas de alegria!”, “gotas de felicidade!” Munidos de panelas, baldes e colheres, os pequenos fizeram batucada, comidinha, transformaram em chapéu ou banco – a diversidade das experiências permitiu que percorressem todos os campos de experiência propostos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “O importante é passar com clareza para os pais e responsáveis que o cotidiano da creche é feito dessas vivências, pois são elas que vão criar as memórias afetivas da criança”, completa a docente.   

Para quem vai se lançar a essa interação por WhatsApp com as famílias, Mirtes aponta: 

Dicas que funcionaram... 

- Deixe claro que as sugestões não são tarefas a serem executadas, mas oportunidades para a criança brincar, se expressar e fazer descobertas livremente; 

- Faça as propostas usando objetos do cotidiano e elementos da natureza os mais simples e universais possíveis;

- Grave áudios ou vídeos curtos;

- Preocupe-se com os elementos ao fundo dos vídeos. Se na sala da creche não tem nada estereotipado, na de casa é preciso atentar para esse cuidado; 

- Evite fazer restrição de horário para a devolutiva das famílias, pois fica difícil saber a disponibilidade de cada um neste período de isolamento; 

- Dê retornos assim que possível: faça um comentário sobre o registro e aponte o que a criança desenvolve por meio daquela interação; 

- Há famílias mais tímidas que enviam os retornos no privado, pois não conseguem se expor no grupo. Respeite essa opção e envie as devolutivas também sem compartilhar para todos; 

- Quando a experiência merece elogios, faça-os no coletivo; quando algo precisar ser criticado, dê a devolutiva de forma delicada diretamente ao pai ou responsável. 

Situações que dificultam o trabalho...

- Há famílias que não têm internet, então, ficam sem acesso à escola (há municípios que conseguiram disponibilizar celulares com chip para esses casos);

- Sem nenhum contato presencial com a turma que iniciou em 2021 (em 2020, houve 1 mês de frequência na creche), há famílias ainda desconhecidas e sem participar;  

- Algumas mães trabalham fora o dia todo e, quando chegam em casa, seus bebês estão dormindo; a pessoa que cuida não se sente habilitada para seguir as sugestões;  

- Sem saber o que exatamente as famílias dispõem, há risco de cair em algumas gafes, como pedir para usar pegador de macarrão e a casa não ter;

- A caderneta de acompanhamento e avaliação dos professores que a rede do Recife usa, que já era virtual, não contemplava o trabalho on-line, assim os pais não receberam as devolutivas no fim do ano (em compensação, acompanharam todas as conquistas ao longo dele). 

Entre perdas – a principal é a falta de interação presencial entre as crianças e a observação atenta pela professora na creche – e ganhos, como as trocas com as famílias e o vínculo reforçado pelas brincadeiras, Mirtes só tem a comemorar. “Fizemos duas exposições virtuais com elementos da natureza encontrados nos jardins e quintais. Mães, pais e responsáveis fotografaram, reunimos as produções do grupo e até famílias vizinhas se juntaram nesse encantamento com as descobertas infantis.” 

Brincando em casa

Na galeria a seguir, imagens da turma da professora Mirtes em ação:

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