Para repensar a escola

Mas, afinal, por que faz diferença ler para um bebê?

Eles ainda não se comunicam com palavras, desconhecem o sistema alfabético e não sabem unir as letras. Livros para quê? Duas especialistas têm a resposta

Foto: Teresa Maia/NOVA ESCOLA

“Uma sociedade justa pressupõe o respeito aos direitos humanos e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável”, escreve o sociólogo e crítico literário Antonio Candido no ensaio “O direito à literatura”. Portanto, além dos ganhos cognitivos que momentos de leitura proporcionam - uma vez que, quanto mais estímulos de qualidade um bebê receber, mais seu cérebro estará apto a fazer sinapses e a aprender -, também há um ganho estético, que deve ser o foco das atividades de leitura em sala de aula. É isso que mostram as especialistas Cássia Bittens, psicóloga e idealizadora do Projeto Literatura de Berço, e Denise Guilherme, idealizadora da Taba, empresa especializada em curadoria de livros infantis e juvenis.

Para Cássia, associa-se literatura infantil e infantojuvenil à alfabetização, o que não é o mais adequado. “Quando trabalhamos com livros, para quem quer que seja, a preocupação maior precisa estar na aprendizagem literária e não na aquisição dos conhecimentos sobre o sistema de escrita”, comenta ela. Como a sociedade é composta de palavras e imagens, apresentar obras com boas ilustrações para as crianças também é importante, uma vez que os livros são a primeira “galeria de arte” que eles vão conhecer, e o contato com as artes visuais deve ocorrer desde cedo.  

“Ler para crianças é oferecer conteúdos fundamentais da experiência humana: as palavras, a linguagem e um repertório para elas narrarem o mundo; além de ser uma experiência carregada de afeto”, conta Denise. Uma boa situação seria que a imagem idealizada de pais lendo para os filhos antes de estes dormirem fosse regra, mas grande parte das famílias brasileiras não tem acesso a livros, livrarias ou bibliotecas públicas, e nem sequer possuem hábitos regulares de leitura. “A professora deve incentivar que as crianças levem livros para casa, mas, muitas vezes, quando isso acontece, é a primeira vez que uma literatura infantil entra ali. O papel de formar leitores é das escolas, pois para muitas famílias o livro ainda é objeto estranho”, defende a especialista.

E por que entregar livros para crianças se elas ainda não reconhecem as letras? A competência da leitura vai para além da decodificação do signo. Os bebês descobrem o mundo através dos sentidos. O contato direto com o livro traz a materialidade do formato, das imagens, das cores, e observar tudo isso é também um modo de ler o que aquele objeto e aquela história contam. Além disso, o livro é um objeto cultural com o qual elas precisam ter contato para aprender a folheá-lo, ver que ele é um objeto valorizado socialmente e perceber a permanência da palavra e do que elas contam.

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