Para repensar a prática

Como ampliar o repertório sonoro e musical das crianças

A linguagem musical ajuda as crianças a lidarem com suas emoções, estimula a memória, a criatividade, além da construção de vínculos

Ilustração de instrumentos musicais: xilofone, chocalho, teclado e percussão.
Ilustração: Juliana Dacosta/NOVA ESCOLA

Feche os olhos por um instante e imagine a vida sem música. Tente esquecer as canções que você aprendeu a ouvir e a cantar na infância e as que marcaram os momentos mais importantes até agora. Imaginar um mundo tão silencioso pode ser difícil, afinal de contas, a música está presente na história da humanidade desde os tempos mais primórdios – e desde muito cedo na vida de cada um. Das cantigas de ninar a brincadeiras de roda, a música e outras expressões sonoras sempre fizeram parte da cultura infantil, muitas vezes, desde a barriga da mãe. 

Além da ludicidade proporcionada pelas manifestações sonoras, a linguagem musical ajuda as crianças a lidarem com suas emoções, estimula a memória, a criatividade, a construção de vínculos, colabora com o processo de alfabetização e até o raciocínio matemático.

“Ouvir música movimenta o cérebro todo. Isto é, para decodificar os sons, o cérebro faz muitas sinapses e acaba trabalhando uma série de coisas – percepção, as emoções, o sistema límbico, além de trabalhar a parte motora e, claro, a social”, explica Fabio Bergamini, educador musical, mestre em Música pela Unicamp e professor de instituições de educação, como o Instituto Vera Cruz.

Gabriel Levy, educador musical e mestre em Educação Musical pela Universidade de São Paulo (USP), diz que antes de pensar nos benefícios da música para a Educação Infantil, é fundamental, sobretudo, realçá-la como manifestação cultural importante em todas as sociedades humanas.

“Como em qualquer fazer humano, nada se restringe a si, pois somos um sistema complexo e integrado. Então, há [benefícios] tanto no sentido da sociabilidade, do controle motor, da sincronia, do autoconhecimento, no uso da voz e do corpo, quanto no lidar com as emoções e na sensibilidade aos sons e ao sentido poético que as letras podem trazer”, ressalta.

A música como linguagem de conhecimento do mundo

Daí a importância de apresentar a diversidade e ampliar o repertório das crianças e não apenas no que diz respeito à educação musical. É o que observa Berenice de Almeida, supervisora pedagógica do Projeto Brincadeiras Musicais da Palavra Cantada e professora no curso da pós-graduação da Faculdade Uni-Ítalo, na capital paulista.

“Na primeira infância, a criança é uma porta aberta. Ela está disponível para o mundo e não tem uma série de preconceitos, pois não estão moldadas. Portanto, é uma fase muito rica de se explorar e quanto maior for esse universo que oferecemos para a criança, mais estaremos colaborando para um adulto com abertura para conhecer outras culturas, não só em relação à música, mas também, ao olhar do outro, a conhecer a si mesmo”, observa Berenice, que é autora de diversos livros sobre educação musical para crianças.

De acordo com Gabriel Levy, que também é pesquisador de músicas do mundo e parceiro de Berenice em algumas obras, a música é um fazer natural da criança. Por isso, para ele, não é necessário “inserir” esse elemento à infância, mas sim, garantir espaços para essas manifestações e proporcionar situações em que isso se aperfeiçoe pouco a pouco.

Berenice de Almeida, por sua vez, afirma que o educador tem de ser sensibilizado para poder ampliar o repertório sonoro e musical das crianças, afinal, “você não dá o que não tem”. Para isso, de acordo com ela, é preciso que o educador tenha curiosidade e aposte na formação continuada. “Se você está cada vez mais vinculado a um único tipo de música, cresceu ouvindo só ‘aquilo’, certamente vai achar esquisito e estranho tudo que foge disso”, pontua.

Outro ponto importante, segundo Fabio Bergamini, é que o educador não precisa ter formação musical para trabalhar com músicas e outras manifestações sonoras na Educação Infantil. É possível, conforme explica, explorar os sons da rua, da natureza, do corpo e todos os ambientes, no dia a dia, seja em casa, seja na escola. Além disso, ele garante que a música pode permear diversos saberes que não estão, necessariamente, ligados ao universo musical em si.

Por exemplo, ao trabalhar com as crianças a cultura baiana, o professor pode utilizar as músicas de Dorival Caymmi como ponto de partida. “A própria música é a matéria-prima, e não estou falando de ‘música para lavar a mão’, mas de projetos que envolvam outros saberes”, reforça.

Fabio sustenta, ainda, que é importante explorar os territórios sonoros e musicais de forma lúdica, pois o melhor jeito de aprender é brincando. “Na brincadeira, não tem a obrigatoriedade do certo ou do errado, do bonito ou do feio. A criança está se divertindo e, ao mesmo tempo, se apropriando dessa linguagem”, assegura, e cita como exemplo a brincadeira de compor músicas. “No ambiente onde a brincadeira está presente, a criança está livre para criar”, completa.

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