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Semana de Arte Moderna: como trabalhar nas aulas de Arte e Língua Portuguesa e na Educação Infantil

Em 2022, o evento que marcou a inauguração do modernismo brasileiro completará seu centenário. Conheça 5 propostas para abordar em diferentes etapas da Educação Básica as obras de artistas como Anita Malfatti, Candido Portinari, Manuel Bandeira e outros expoentes do movimento

Ilustração de Mario de Andrade sendo desenhado por um artista.
Ilustração: Nathalia Takeyama/NOVA ESCOLA

Em 1922, um grupo de artistas reuniu-se no Theatro Municipal de São Paulo para criar algo novo, um evento cujo principal objetivo era renovar o ambiente artístico-cultural no Brasil. Em meio a críticas e polêmicas, o que talvez eles não soubessem é que os próximos cinco dias, repletos de música, dança, literatura e artes plásticas, mudariam para sempre a história da arte brasileira e inaugurariam o modernismo no Brasil, movimento que rompeu com o tradicionalismo acadêmico da época. 

Em fevereiro de 2022, a Semana de Arte Moderna completa seu centenário. Nos últimos 100 anos, só cresceu a importância e a influência do movimento encabeçado por artistas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Victor Brecheret, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Heitor Villa-Lobos e Di Cavalcanti, entre tantos outros. 

Para celebrar esse marco histórico no próximo ano, que tal levar a Semana de 1922 para as aulas de Língua Portuguesa e Arte do Ensino Fundamental e, também, para as crianças da Educação Infantil?

O que deve ser levado em consideração?

Marcella Abboud, doutora em Teoria e Crítica Literária pela Unicamp, diz que a contribuição mais relevante da Semana de Arte Moderna é a ruptura estabelecida com o que estava sendo feito na Literatura e nas artes até então. 

“Não que já não houvesse uma influência gritante das Vanguardas Europeias no que se alcunhou de 'pré-modernismo', mas a ruptura da Semana de 22 foi sistemática e simbólica. Não à toa, a primeira geração modernista ficou reconhecida pela ‘destruição’”, observa a professora de Língua Portuguesa de turmas do Fundamental na Sant'Anna International School, em Vinhedo (SP). 

Mais do que ensinar conceitos como poema-piada, verso livre ou deformidade estética, Marcella recomenda “usar o humor para subversão, escrever prosaicamente, pintar o que se é”. 

É interessante, ainda, chamar atenção dos alunos para perceberem que, em se tratando das artes, sobretudo a Literatura, nada fica estagnado, segundo a educadora Katia Chiaradia, doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp. Ela explica que o movimento modernista mudou a maneira como as obras literárias eram encaradas. 

É importante estarmos preparados para essa recepção do novo. Ou seja, eu posso gostar, eu posso não gostar, mas não posso dizer que ‘aquilo’ não é legítimo. Sendo assim, acho que esse é um movimento importante a ser trabalhado, especialmente com os alunos menores. Ele permite reconhecer que há variados tipos de culturas e de olhares”, observa a especialista.

Camila Rossat, professora de Arte das turmas do 4º ao 9º ano da EMEF Profª Marina Melander Coutinho, em São Paulo, ressalta que levar a Semana de Arte Moderna para as aulas de Arte é tratar de um evento fundamental para a inovação artística, tanto no pensamento quanto na prática. 

“Destacar o papel dos artistas envolvidos é resgatar a história do país e entender a cultura brasileira contemporânea. Para os estudantes, o tema deve ser levado de modo que façam uma viagem no tempo, inserindo-os no contexto dos acontecimentos, seja por meio dos seus precedentes, como, por exemplo, as rupturas propostas pela arte europeia, ou tratando da importância de se reunir pessoas em torno de um propósito para transformar o jeito de se fazer arte”, pontua a educadora. 

Já na Educação Infantil, Amanda Grispino, que atua como atelierista com crianças de 2 a 6 anos na CEI Baroneza de Limeira, na capital paulista, enfatiza a importância de explorar a Arte Moderna ou Contemporânea com os pequenos para oferecer a eles a oportunidade de experimentar, criar e aprender com a arte de seu tempo, e não apenas com a do passado. 

“A Arte Contemporânea deveria ser uma das principais referências para guiar o pensamento pedagógico em arte para as crianças de hoje, tendo em vista que uma de suas principais características é sua proposta interrogativa, crítica, lúdica e o convite para as crianças participarem das obras. A arte do passado respondia, a arte atual pergunta”, comenta Amanda. 

Pontos de atenção ao trabalhar com o tema

Segundo Camila Rossat, ao levar o tema para a exploração com os alunos do Fundamental, o professor deve ficar atento à mediação do assunto, de modo a trazer as inspirações que motivaram a Semana de 1922. Além disso, é interessante fazer conexões entre passado e presente para que os estudantes compreendam como o legado desses artistas ainda é muito presente e como é possível trazer para a apreciação e prática as obras produzidas pelos modernistas.

Marcella Abboud lembra que a Semana de Arte Moderna, embora impactante e fundamental, foi um movimento de elite. A professora ressalta que, sem o evento, a segunda geração modernista, reconhecida pela sua preocupação social, talvez não tivesse parte da liberdade de criação que viria a ter. “Mas o elitismo é gritante e precisa ser colocado sempre em perspectiva, ainda mais considerando o centenário”, frisa. 

Confira a seguir algumas propostas das professoras especialistas para levar o assunto para a Educação Infantil e para as aulas de Língua Portuguesa e Arte do Ensino Fundamental.

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Flores do Campo sob o ponto de vista das crianças e de Candido Portinari 

Confira uma proposta da educadora Amanda Grispino para trabalhar a Semana de Arte Moderna com as crianças da Educação Infantil


Indicado para: Turmas da Educação Infantil

Na BNCC: EI02EF01, EI02EF09, EI03EF01, EI03TS02, EI02EF01, EI03EF01, EI03EO04, EI03ET01, EI02EF01 e EI03TS02


O desenho é uma linguagem muito usada pelas crianças para se expressarem e passa por um processo de permanente evolução, especialmente se as interações em diferentes contextos são favoráveis e exigem que elas se comuniquem. Os desenhos de observação, proposta dessa atividade, ajudam as crianças a desenvolverem sua capacidade de contemplar, analisar e sentir cores, texturas, formas, diferenças e semelhanças, pois promovem um aprimoramento dessas atitudes. 

Vale ressaltar que o desenho de observação é uma proposta extremamente relevante e potente, não no sentido de legitimar a cópia, mas sim, usar a releitura como fonte de inspiração para se pensar em novas criações. 

Com as crianças bem pequenas: Apresente um vaso com flores-do-campo e ofereça giz pastel para fazerem o desenho de observação. 

Com as crianças pequenas: Apresente o mesmo vaso com flores-do-campo e, se possível, projete na parede obras de flores-do-campo do artista modernista Candido Portinari. Para esse grupo, ofereça aquarela líquida ou argila para produção de elementos bidimensionais e tridimensionais. 

No momento da prática, uma boa dica é trabalhar a música erudita como ferramenta de aprendizagem para as crianças, uma vez que favorece o desenvolvimento da sensibilidade, criatividade, senso rítmico, imaginação, memória, concentração e atenção, também contribuindo para uma efetiva consciência corporal e de movimentação. Uma boa dica é usar obras do compositor Heitor Villa-Lobos, um dos expoentes da Semana de Arte Moderna de 1922.

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Anos Iniciais: como trabalhar a Semana de 1922 nas aulas de Língua Portuguesa

Confira uma proposta da educadora Kátia Chiaradia para levar o tema aos alunos do 1º ao 5º ano


Indicado para: Turmas do 1º ao 5º ano

Na BNCC: EF35LP23, EF35LP31, EF04LP26, EF15LP15, EF15LP17 e EF02LP29


No Ensino Fundamental 1, os alunos ainda não têm muita noção temporal do que foi o período da Semana de Arte Moderna, pois nasceram em uma época de mudanças muito rápidas. Então, o primeiro ponto é trabalhar para que os alunos conheçam minimamente como foi aquele tempo. Para isso, o professor pode começar mostrando alguns objetos, como uma máquina de escrever, e imagens de carroças, bondes e trens, principais meios de locomoção do início do século passado. O objetivo é fazer com que as crianças percebam a ideia de futuro e de modernidade daqueles tempos, muito diferente do que é hoje. E, claro, como todas essas mudanças impactaram a Literatura. 

Outro elemento que pode ser explorado com essa etapa é a forma. Aqui, a sugestão é apresentar algumas poesias simbolistas ou parnasianas para os alunos assimilarem como era a poesia até então. Depois, mostre o poema Os Sapos, de Manuel Bandeira. A ideia é de que as crianças percebam como a musicalidade ocorre de uma forma diferente.

O Portal 3x22 também pode ser um ótimo ponto de partida para propor atividades, pois procura entrecruzar as temporalidades da Independência (1822), da Semana de Arte Moderna (1922) e da história do nosso tempo presente (2022). 

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Anos Iniciais: como trabalhar a Semana de 1922 nas aulas de Arte

Confira uma proposta da educadora Camila Rossato para levar o tema aos alunos do 1º ao 5º ano


Indicado para: Turmas do 1º ao 5º ano

Na BNCC: EF15AR06


Em 1917, Anita Malfatti inaugurou uma exposição de pintura moderna, sendo um marco na pintura brasileira. Mesmo recebendo duras críticas de Monteiro Lobato, Malfatti teve uma trajetória de grande relevância para o modernismo brasileiro. 

O centenário da Semana de 1922 é uma ótima oportunidade de apresentar a obra dessa artista aos estudantes. Entre outras informações, pode ser narrado que Anita Malfatti ensinou desenho para crianças e desenvolveu habilidade para desenhar com a mão esquerda por conta de uma atrofia na mão e no braço direitos. Para apreciação e fazer artístico pode ser usada a pintura A Estudante (1915/1916).

Ao grupo, o professor pode perguntar as características da personagem retratada na pintura, os possíveis comportamentos psicológicos e qual tipo de estudante ela seria na sala de aula. Por fim, em duplas, um pode posar para o outro, para que captem o olhar individual sobre o tema “estudante”. O professor faz a mediação em roda de conversa para partilha das impressões sobre a experiência.

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Anos Finais: como trabalhar a Semana de 1922 nas aulas de Língua Portuguesa

Confira uma proposta da educadora Marcella Abboud para levar o tema a alunos do 6º ao 9º ano


Indicado para: Turmas do 6º ao 9º ano

Na BNCC: EF89LP32, EF89LP35 e EF67LP27


1. Procure saber o que os alunos conhecem sobre o tema. Para uma atividade completa em Língua Portuguesa, as quatro práticas da linguagem devem ser trabalhadas. De início, é importante levantar o conhecimento prévio dos alunos. Pode ser que eles não conheçam nada sobre a Semana de 22, mas conhecem e usam, certamente, o termo “moderno” e devem ter pressupostos do que significa ser moderno (novo, diferente, tecnológico, atual etc.). Essa é uma boa forma de trabalhar a oralidade e promover o interesse no conteúdo que será trabalhado.

2. Pergunte: como fazemos para transformar um conteúdo de maneira subversiva, contestadora, moderna? Espera-se que os alunos falem de crítica, de humor, de paródia, ou até mesmo de briga. Se as respostas não surgirem de imediato, insista em exemplos do cotidiano: você conhece algum artista que é crítico? O que ele faz para isso?

3. Subdivida seus alunos em dois grandes grupos. Elabore um exercício no qual o grupo 1 deverá fazer uma crítica direta e outro uma crítica via humor (pode ser paródia, uma anedota com o texto ou uma piada). Essa etapa trabalha fortemente a produção de texto.

4. Apresente o poema Os Sapos, de Manuel Bandeira. Peça que associem o poema com as formas de contestação vistas até aqui: a crítica direta e a crítica via humor. Espera-se que associem a obra com a crítica via humor. Essa etapa é pensada para o desenvolvimento da análise linguística semiótica.

5. Peça que pesquisem sobre a Semana de 1922. O processo de crítica via humor foi parte da subversão, do “ser moderno” dessa época da literatura. A partir de uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema, será mais fácil compreender como o modernismo forjou sua crítica à arte tradicional.

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Anos Finais: como trabalhar a Semana de 1922 nas aulas de Arte

Confira uma proposta da educadora Camila Rossato para levar o tema a alunos do 6º ao 9º ano


Indicado para: Turmas do 6º ao 9º ano

Na BNCC: EF69AR01


Tratar da Semana de Arte Moderna em sala de aula é trazer a abordagem artística e a importância das principais figuras desse evento que marca a ruptura de um novo olhar para a arte brasileira. Também representa pensar que a defesa de um novo ponto de vista estético faz relação com mudanças sociais e políticas de um mundo que já havia assistido a uma grande guerra. O tema pode ser trazido para as turmas dos Anos Finais do Ensino Fundamental com uma perspectiva ampla, contextualizando as influências da Semana de 1922 (as vanguardas europeias) e enfatizando o desejo de se criar uma renovação para as linguagens artísticas, dialogando com a ideia de algo que valorizasse a cultura brasileira. 

Desse modo, para sensibilizar e conhecer os artistas envolvidos, o professor pode trabalhar com trecho da minissérie Um Só Coração, exibida pela TV Globo em 2004, que mostra, entre outros acontecimentos, os preparativos para o evento. Depois, a mediação pode acontecer no sentido de pensar quais estruturas poderiam ser superadas se a Semana de Arte Moderna ocorresse em 2022. Quais temas poderiam ser trazidos pela literatura, música e artes plásticas que falassem de assuntos de interesse coletivo? Assim, pode ser organizado um sarau, no qual os grupos apresentam ideias amparadas na linguagem escolhida: letras de música ou poesias, grafites, apresentação teatral etc.

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